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Fim de Noite (ou A Partida da Angústia - Parte2)

    Estávamos na varanda, olhando ao longe, alguns raros ônibus passando, alguns pedestres, meninos bobos passeando com seus cachorros àquela hora. Tudo me deixava  a sensação que a Angústia não me abandonaria.
   
    - Sabe de Oneiros? - lembrei de perguntar.
   
    - Não, não sei. Quer dizer, sei.
   
    - Huum. - estava virando para cima o meu olhar, com o quase-desdém de quem pergunta só por perguntar, pois já conhece a resposta. Ela continuou.
   
    - Soube que ele ainda está chateado com você, por causa de Cérbero. Como é que você faz aquilo, menina? Perdeu a noção do perigo, foi? Falava com a irmã dele, então.
   
    - Nada. Eu fiz a besteira, eu mesma conserto. O que ele queria que eu fizesse? Sempre sonho que vou ao Inferno, ele sabe disso. E o Cão não ia me deixar passar, aí eu tive de apelar. Eu nunca mais o vi. Acho que também está chateado por causa de Dionísio. Tsc. Bobagem...
   
    - É... - ela quase lamentava por mim.
   
    - E a família? - Tive de perguntar, mesmo que só por educação.
   
    - Ah, vai bem. Meus pais até te mandaram um beijão. Disseram que estão com saudades.
   
    - Ahn, brigado. - E ri, sem graça. Deus me livre: a Angústia, filha do Imponderável e da Frustração, dando notícias da família??? - E sua mãe, ainda tá loura?
   
    - Claro, mas mudou o tom. Painho até brinca dizendo que ela é uma loura azêda.
   
    E ele tinha razão, a Frustração é mesmo azêda. Não amarga: azêda. O Imponderável sempre tem razão, ele se basta a si mesmo.
   
    A essa hora, estávamos ouvindo um blues. Pensei: blues, metais, álcool, gelo, Angústia, Imponderável, Frustração, Desejo, Solidão, Sonho... Aretha Franklin me entende, "maybe I'm a fool".
   
    - Você ainda cria aqueles bichinhos estranhos na sua casa, Angústia?
   
    - Ah, claro. Excentricidades de família.
   
    - E o Grifo, vai bem?
   
    - Vai, vai. Vai bem, ainda mais agora que a Fênix está morando lá em casa.
   
    - A Fênix? Oxi! A Ave-de-Fogo? Ela não morava com a D. Esperança?
   
    - É, rapaz... Mas a D. Esperança desapareceu, sumiu.  Ninguém sabe dela. Pergunta por aí. Alguém sabe? Ninguém sabe.
   
    - É mesmo... Eu nunca mais tive nem notícias.
   
    - Pois é... A coisa parece que é séria. Entre os vizinho, pensamos até em dar queixa na polícia.
   
    Eu nunca havia pensado direito sobre isso. Que coisa emblemática: a Fênix, que renasce das cinzas após ser consumida pelo fogo do Tempo, vivendo com a D. Esperança, a última que morre. E agora que sua tutora desaparece, ela começa a definhar. Esse mundo está mesmo uma bagunça.
   
    - E de Chronnos, você sabe? Ah, desculpa. Destino - eu sempre me confundo.
   
    - Parece que continua solitário passeando pelo seu Jardim. Não tem passado muitas páginas de seu Livro.
   
    (Por que será que tive a impressão de ela não estar falando a verdade? Acho que Angústia é muito confusa em relação à passagem do tempo e sobre o Destino.)
   
    O licor já havia acabado, e o muito gelo, como previ, me livrara da embriaguez. Ainda bem, assim amanhã a Sobriedade talvez venha me encontrar.
   
    Conversamos várias horas, falamos muito mesmo. Não posso dizer que foi ótimo, mas teve algo de bom. Ela se foi da maneira como chegou, de repente, sem que percebesse sua hora. Levantou, nos abraçamos, ela me olhou com ternura. Caminhamos até a porta e nos despedimos. O elevador chegou. Abriu a porta, soltou um beijo, devolvi, ia saindo, mas virou-se para trás:
   
    - Ah, Nanda! Sabe quem deu notícias?
   
    - Não. Quem?
   
    - Ligou, menina, avisou que a viagem já está acabando, que está entediada com aquele frio, com aquele povo.
   
    - Num sei, Gú. Quem foi? - minha curiosidade a mil.
   
    - Oxi, já se esqueceu, foi? Ela até perguntou por você. Disse que já já chega, que logo logo vai voltar a estas terras... A Felicidade.
   
    E riu. E bateu a porta. E se foi.
   
    E ri. E bati a porta. Fiquei parada, quase perplexa. E fui: "Que venha."
Fernanda Gadêlha
Enviado por Fernanda Gadêlha em 12/11/2006
Reeditado em 14/11/2006
Código do texto: T289575
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Sobre a autora
Fernanda Gadêlha
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
19 textos (652 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 02/12/16 18:12)
Fernanda Gadêlha