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Até o amanhecer.

            O dia terminara de acabar, a planície estava vazia, cheia daquelas árvores cintilantes sobre a luz da Lua. Ela que iluminava plenamente todo o vazio avassalador que se via. Lise sempre fora acostumada a viver em grandes cidades. Todo o dia, acordava ao som do despertador e dentro de não mais de alguns minutos em casa se arrumando já saia para rua. Costumava passar todo o tempo fora e quando voltava era pra dormir, ver um pouco de televisão ou ainda sentar-se e falar ao telefone. Nada mais.
Agora se via totalmente sozinha no topo de uma montanha que não sabia onde ficava. Olhava atentamente para frente, captando todos os detalhes. As minúcias da grama verde com sua textura quase humana e seu balanço suave no ritmo do vento que passava e tranqüilizava tudo ao seu redor. A planície se estendia por mais de alguns quilômetros e nenhuma construção, nenhum ser humano podia ser visto. Apenas a selvageria dormindo.
Sentia-se sozinha pela primeira vez. Pela primeira vez sabia que as cidades por onde já tinha passado eram um estupro a natureza. Todo o caos urbano era uma fenda larga por onde a Terra sangrava. Nós éramos uma infecção que já tinha crescido demais. Não podia conceber que tal beleza devesse acabar para que nascessem nossas magnificentes metrópoles caóticas.
Sim, éramos umas abominações que nenhum respeito prestávamos a nossa terra, ao nosso lar, o nosso planeta. Toneladas de lixo, não só lixo comum mas tóxico e os não biodegradáveis eram lançados nas puras terras que um dia viviam perfeitamente. Sem a intromissão da raça humana tudo seria perfeito, tudo era maravilhoso como ali, naquela paz sepulcral de inicio de noite.
Finalmente se lembrou que tinha que voltar, o seu grupo a esperava para continuar a escalada da montanha. Mal ela sabia que à noite não escalariam e os seus amigos já tinham montado o pequeno acampamento na encosta.
Voltou passo após passo, admirada pela vida selvagem que provavelmente em uns anos estaria toda morta.Destruída para sempre, pelas nossas próprias mãos. Ela agora notara como fora cruel à vida inteira quando jogava lixo em lugares não adequados. Quando sujara ruas com seus lixos corriqueiros. Papeis de bala, latinhas de refrigerante, papéis de divulgação e inutilidades como essa. No fundo sabia que apenas era parte da vida tudo aquilo que fazia.
Pensou que estariam melhores, os homens, se ainda vivessem se subsidiando de coisas naturais, sem nenhuma indústria, nenhuma interferência maior na natureza.
Sim estaria voltando no tempo para épocas remotas, mas naquele tempo o ser humano era de tal forma feliz como hoje também o é. Só pensar que antigamente os seres tinham os mesmos problemas que hoje. Antigamente uma pessoa morria com uma ligeira infecção, mas de que vale a tecnologia se hoje milhões de pessoas morrem de fome sem nada o que comer enquanto olham diretamente a uma exposição gigantesca de comida, que naturalmente são vendidas a preços caros, e os restos? Estragam-se e para o lixo vão. Podia citar milhares de coisas que antigamente eram melhores, mas continuou caminhando sem pensar
Passava pelas trilhas por dentro da pequena mata que terminava na encosta da montanha e ia vendo milhares de pequenos seres trabalhando, toda uma vida sincronizada e perfeita, tudo ia acabar um dia. Subiu mais um pouco até que viu a fumaça, provavelmente de uma fogueira pensou.
Chegou e viu todos rindo, contando pequenos contos, alguns acontecimentos da vida. Viu que todos sorriam e brincavam, alheios de qualquer problema do mundo. Esse era o momento deles. Parou um pouco afastada e se perguntou se algum deles provavelmente já tinha pensado nisso que ela estava pensando, mas provavelmente não. E vivem tranqüilamente suas vidas, suas miseras décadas de vida, enquanto em um todo a Terra ia morrendo de vagar. Todos ignoravam a grandeza da vida. Ninguém tinha consciência de que uma geração não era importante e que com o passar dos tempos as pessoas menos se importavam com aquilo. E tudo isso ia matando aos poucos nossa casa. Nosso lar estava morrendo, e ninguém faria nada para ajuda-lo.


Desde pequena Lise era sensível. Sentia quando uma situação não estava bem, sabia no intimo como uma pessoa era ao olhar e falar com ela pela primeira vez, sabia de coisas e não conseguia explicar como. Sentia-se perfeitamente confortável em qualquer ambiente, sempre se adaptava facilmente a todos os lugares. Algumas vezes se sentia um monstro por saber de coisas que só depois iria se dar conta de que sempre soube. As vezes ficava perturbada com isso.
Sempre foi um ser urbano, quase nunca indo a lugares naturais. Achava isso uma falta de conforto incrível. E se tudo que o homem fez até hoje está a nossa disposição, porque fugir deles, ela sempre se questionava.
Pela primeira vez fora arrastada sem saber para fora da cidade. Não sabia como mas fora parar na mata, não se lembrava muito bem dos últimos dias. Apenas sabia que era terrivelmente vitima de um acidente aéreo. Disseram que fora sobrevivente, mas duvidava dessa versão dos fatos, pois nada tinha de machucados, nenhum arranhão sequer.
Começava a achar que algo estava muito errado, mas como não tinha muitas escolhas, apenas aproveitava pela primeira vez a natureza e seguia seus “amigos” pelas trilhas. O pior é que não sabia até onde iria. Não sabia onde estava. Não sabia nada sobre sua vida recente, somente se lembrava das coisas anteriores há uns anos atrás. Mas certamente os últimos dias eram meros borrões em sua mente.
Resolveu que era melhor dormir, pois os dias vinham sendo pesados para ela. Nunca tinha se exercitado tanto assim. E vinham subindo a montanha rapidamente, há uns dias que não paravam muito durante a subida e as noites eram curtas.
Foi se deitar, era uma das ultimas a entrar para dormir. Cada um dos sete integrantes do grupo tinha sua própria barraca, que era levada nas costas durante o dia. A comida ia acabando aos poucos e sabia que para atravessar a montanha não tinham comida suficiente. Isso era um problema a ser encarado.
Entrou na barraca e ficou deitada olhando para cima, olhando o teto. Nada demais havia ali, apenas pensava em tudo que vinha vivenciando. Tudo que vira aqui era a essência da vida, todas as arvores selvagens, toda a vida livre e sem interferência humana, isso era a vida. Nas cidades tudo estava muito manipulado, tudo havia sido estipulado e não tinham escolhas próprias. Tudo que faziam desde o nascimento até a morte estava traçado. Cada setor da cidade fazia sua parte como deveria ser feita e acabou. A cidade era a falta de liberdade, com uma falsa liberdade em nós embutida.
Foi adormecendo aos poucos. Correntes de pensamentos passavam por sua mente, ia se desligando deles aos poucos até que nada mais passavam em sua cabeça e finalmente adormeceu. Profundamente. Aquela noite não veio recheada com sonhos como normalmente é e num piscar de olhos ela já estava sendo acordada. Precisavam avançar o mais rápido.
Abriu os olhos e estava com uma dor de cabeça infernal. Os ossos no corpo lhe doíam por completo e seus músculos não lhe respondiam muito bem. Estava exausta. Precisava de uns anos de descanso para se recuperar. Viu-se de novo naquela situação insólita e resolveu levantar.
Levantou de pressa e foi arrumando suas coisas enquanto via todos os outros fazendo a mesma coisa. Nada de café da manha. A barriga roncava mas tinha que se conformar em comer só mesmo quando fizesse a pequena parada para um medíocre almoço.
Olhou em volta e tentou se lembrar dos nomes deles, quem eram essas pessoas? Não sabia muito bem, não tinha conversado muito com elas, achava isso meio ruim, e pensou em resolver isso, hoje ela iria falar com alguém.
Começaram a caminhada não muito tempo depois de acordarem. Lise ia olhando ao redor e ia reconhecendo alguns dos outros que andavam. Elaine a garota loira, não mais de vinte anos, se destacava na caminhada como uma das lideres. Sempre na liderança junto com Carlos. Carlos era moreno, alto, meio feio. Com um ar selvagem ele sempre era o que tomava as decisões, ou tinha sido assim desde que ela se lembrava.
Roberta sem duvida era a que mais sofria. Ela era meio gorda e sofria com as caminhadas longas, e a constante falta de comida que sofriam. Parecia estar sofrendo bastante. Já a flagrara-a algumas vezes chorando, mas como nunca fora boa em conselhos se manteve afastada. Marcio era totalmente a comédia do grupo, um homem de meia idade com estilo “executivo mimado” e não sabia nada da vida pratica. Reclamava de tudo e conseqüentemente todos riam dele.
Os outros três integrantes eram irmãos e viviam juntos para onde quer que fossem. Não tinham muitas opções entretanto viviam juntos nos cantos. Eram eles André, Fabrício e Rodrigo. Três adolescentes que pareciam pedir pela mãe a cada hora de sofrimento. A expressão no rosto de cada um mostrava que apesar de serem diferentes todos eles estavam com medo.
E é lógico que todos estavam com medo. Não sabiam onde estavam. Estavam dentro de uma floresta que levava ao topo de uma montanha. Só isso sabiam.
A montanha ficava cada vez mais íngreme e difícil de se escalar. Não sabia por que não podiam contorna-la. Perguntava-se qual o motivo de escalar até o topo. Olhava para cima e não conseguia vê-lo. Ficou preocupada, pois sabia de um jeito obscuro que todos iriam morrer. Carregava isso consigo o tempo todo e nada falava.
A caminhada tinha lá suas dificuldades mas ia encarando tranqüilamente a subida. Sabia que estava fraca mas sabia que não podia desistir.
Finalmente começou a conversar com alguém.
_ Roberta, onde estamos ? – olhou-a de um jeito que a deixou meio sem graça.
_ Não sei. Só sei que estamos perto de onde temos que ir. – respondeu num tom de confissão.
_ Mas não estamos indo atravessar a montanha ? – perguntou assustada, pois foi uma surpresa arrebatadora para ela.
_ Shiii. Fala baixo. Não estamos não. Estamos procurando um local sagrado.
_ Como assim um local sagrado?
_ Olha não posso dizer. Vamos continuar e por favor, faça silencio. – Pediu em tom de suplica.
Continuaram andando por mais umas horas no total silencio. Agora entretanto Lise se perguntava para onde estava indo? Sabiam todos desse pequeno segredo? Seria mesmo a versão do acidente verdadeira?
Milhões de hipóteses e conjecturas fluíam pela mente de Lise e nada saía de definitivo. Nenhuma conclusão. Estava ficando nervosa. Nunca tivera em situação semelhante.
Fizeram uma pequena pausa para o almoço. Todos se acomodavam. Procuravam sombras para descansar. Tinham mais umas horas de caminhada antes do cair do sol. Todos pareciam normais. Alguns rindo. Mas Lise sabia que algo estava errado e começou a perceber isso claramente depois da breve conversa que tivera.
O descanso foi breve porém bastante proveitoso, conseguiu recarregar as forças para mais escaladas e caminhadas. À medida que ia subindo ela ia percebendo um platô, uma pequena planície na encosta da montanha. Como se alguém tivesse cavado ali e alisado perfeitamente. Era terrivelmente contra tudo que vinha vendo até agora. Achou que a intervenção do homem tinha se manifestado ali também.
Do outro lado desse chão tão bem nivelado ela podia ver a entrada de uma caverna. Não uma caverna comum. Era sombria e cheia de nervuras como se fossem pedaços de pele dobrados. A visão daquilo a enjoava. E parecia que perturbava a todos também.
Foi devidamente interrompida por Carlos falou com sua voz portentosa.
_ Todos agora deixem as coisas aqui, não precisaremos delas lá dentro. Quero que todos prestem atenção no que eu vou falar. – todos se enrijeceram com as palavras sérias e firmes de Carlos – Estamos para entrar em um templo. Um templo não muito comum. Não sabemos de quem é ou o que encontraremos lá dentro. Viemos atrás de respostas e podemos sair sem elas, então todo cuidado. Muitos já falaram que essa é uma experiência única. Fiquem todos juntos e me sigam. Estejam prontos para tudo.
Todos largaram seus apetrechos no chão, tudo em um monte só perto das árvores que ali estava. E começaram a andar em direção a caverna.
Lise tinha certeza que aquilo não eram rochas e que tinha quase certeza de que era um tecido qualquer, não humano mas muito similar. Sabia como sabia o que as pessoas sentiam, ou como adivinhava onde coisas perdidas estavam. Era um dom que às vezes era bom, já  outras era completamente inconveniente. E o fato aliado de ser médica e ter estudado tão profundamente sobre isso a fazia ter uma certeza perturbadora de que o que ela via não eram rochas. Não poderiam ser.
Ao entrarem pelo buraco sinistro da caverna começaram a ouvir cânticos. Vozes profundas e pesadas. Elas atravessavam a caverna em direção a eles como que fossem feitas somente pra eles. Essas canções eram incompreensíveis, parecia uma língua alienígena pois não tinha nenhuma seqüência, nenhuma forma definida. Apenas vinham os sons em formar amorfas. Ninguém conseguia compreender nada, o que fazia o ambiente ficar tenso. Pairava um ar denso e úmido, um certo odor pútrido vinha das profundezas dela. Um vapor começava a ser notado.
Iam adentrando a caverna e cada vez mais as paredes iam se umedecendo. Parecendo com mucosas e se prestasse bastante atenção poderiam ver secreções saindo delas. A sensação de estar dentro de outro organismo era sufocante, o grupo começa a duvidar da autoconfiança e duvidavam se iriam até o final disso, mas já tinham enfrentado muito para chegar aqui e com exceção de Lise todos sabiam que não poderiam retornar agora, tão perto da verdade. Mas algo estava quebrando a barreira mental deles. Algo estava vencendo a vontade e entrando nas profundas reentrâncias do seu ser.
Lise teve certeza que alguém estava dentro de sua cabeça. Sabia que tudo estava sendo vasculhado. Começou a se lembrar de quando era pequena quando sua mãe adivinhava o que ela estava pensando. Sim, se lembrava de sua mãe. Viu sua mãe de relance mais à frente, mas sabia que nada tinha lá. Sabia que era uma ilusão.
Mas era tão perfeita, aquela mulher alta, morena de cabelos cacheados caindo aos ombros. De um corpo esbelto, um pouco magro, mas belo. O rosto, era tão perfeito que quase caiu de joelhos para receber o seu abraço. Com força conseguiu fugir um pouco daquela visão e se viu livre por um tempo do encanto.
Olhou para os lados. Todos os outros estavam com um olhar perdido, como se tivessem mergulhado em lembranças. Logo concluiu que algo estava fazendo isso com eles. Algo real, mas impossível de imaginar. Esta coisa estava mexendo em suas lembranças e seus pensamentos. E cada minuto ali fazia eles mergulharem mais em suas perdições, suas lembranças. Todas elas ruins, todos pediam perdão por atos que nunca suportaram lembrar e agora vinham à tona. Lise era uma das poucas que não sofria tanto pois realmente não tinha coisas com que se preocupar. Sempre fizera tudo o mais certo possível, mas começava a se culpar pelo o que tinha pensado. Começou a ver que o mundo esta assim por nossa culpa, era culpa dela também. Não podia se perdoar por ver aquelas paisagens naturais tão belas e saber que em alguns anos nós as destruiríamos.
Por um momento chegou a ver sua mãe andando no escuro da caverna de novo, a chamando. Dizendo que se viesse em seus braços tudo estaria bem, tudo iria ser perdoado.
Começou a andar lentamente em direção a ela.
Olhou para os três irmãos e eles corriam atrás da mãe como se fossem três zumbis. Corriam para o nada. Buscavam a ilusão. Carlos ainda estava meio consciente do que fazia, mas já estava perdendo o controle.
Elaine estava sentada em um canto chorando. Estava aos prantos com as mãos ao redor do rosto. Segurava os cabelos firmemente. Parecia que estava perdida dentro de si, sentia muita dor. Era visível.
Roberta nada mais fazia do que ficar estática, parada. Olhando para o nada e contemplando algo que não estava ali. Ela não se movia. Parecia uma doente mental.
Já Marcio vagava a esmo como se tivesse perdido a razão de viver. Os seus olhos estavam vazios e sem vida, estavam opacos. Ele sem duvida era o primeiro a perder todo o seu controle.
O braço de Lise já estava estendido procurando a mão de sua mãe quando teve um vislumbre terrível. Viu atrás de sua mãe um ser disforme. Era fora de qualquer parâmetro que tinha visto até então. Quase negou o que via mas isso só iria fazer mal.
Piscou varias vezes e sua mãe sumiu. Imediatamente viu vários seres encapuzados com mantos pretos e adereços dourados. As roupas eram longas de tal forma que não se via nenhuma parte do corpo dessas coisas.
Eles iam agarrando e puxando para dentro da caverna todas as pessoas lentamente à medida que elas iam aceitando. Todos falavam coisas desconexas chamando mães ou pais, pedindo perdão, choravam, estava em transe.
Lise era a única que permanecia com controle de si mesma, e resolveu que ser levada seria melhor pois não daria conta de enfrentar todas aquelas criaturas juntas.
Ao virarem para andar, Lise viu nas costas dos mantos escritos bizarros que provavelmente foram escritos a sangue. Não conseguia achar algo equivalente aquilo para tentar decifrar.
A caverna era um horror só. Cada passo em direção ao interior era mais difícil. O odor de enxofre era mais enjoativo. Os sons que ouvia eram terríveis. Gritos vindo de dentro da “terra”, gritos de agonia, terror e desespero. Chegava a ver no chão manchas escuras duras que pareciam ser de sangue, mas não sangue humano. Chegava a ver nas paredes rostos aprisionados. Era um lugar macabro.
As criaturas balbuciavam algo entre si e começaram a andar mais rápido. Escoltando todos para o interior daquele pesadelo. Lise se concentrava no chão para não perder a concentração com toda aquela situação insólita. Sabia que seu cérebro não poderia suportar mais aquilo e ficava visível que sua mente ia se perdendo no caminho. Ia achando tudo normal e esse era o problema.
Durante a caminhada analisou a situação. Estava em um lugar onde não conhecia ninguém. Não se lembrava de onde vinha ou onde morava. Não sabia se tinha família viva ou marido ou qualquer coisa do gênero. Tinha ido parar naquela situação com um grupo de loucos que sabiam o que provavelmente iria acontecer. E tinha ainda aquele sentimento de morte iminente que sentia o tempo todo desde que se lembrava, pelo menos dos últimos dias.
A forte iluminação quebrou sua onda de pensamentos. Olhou para frente e viu o ambiente em que estava. De algum lugar vinha uma luz tremendamente forte que ofuscava sua vista, mas lentamente foi se adaptando. À medida que ia enxergando ia percebendo o quão, mais insólito ainda, era o novo local.
Foi percebendo que a luz não existia no sentido real da coisa. Ela via a luz como uma parte de si mesmo, um prolongamento de sua mente. Sentia-se parte do todo. Tudo ali era uma coisa só. A luz vinha do ambiente. Como todo o resto também.
Logo viu que um ritual tinha iniciado. Os seres encapuzados estavam levando Marcio para o centro de uma estranha pintura em tom avermelhado que se encontrava no chão. Bem no centro da forma vermelha existia um altar. Pequeno mas assustador. Ele não tinha uma forma definida e isso era o que mais incomodava. Visto de vários ângulos ele tornava formas
variadas e bizarras. Era aterrorizante olhar para algo que não tinha forma. Como que poderia conceber algo sem forma com forma?
Estavam começando a despir Marcio. Em poucos segundos ele estava deitado de costas no altar. Rapidamente aqueles ágeis seres pegaram as ferramentas e começaram suas tarefas.
Enquanto um grande contingente deles ficava cantando os cânticos malditos e indecifráveis um pequeno grupo ia destruindo o corpo de Marcio.
Todos eram obrigados a olhar direto para o ritual, que se dava de uma maneira que ninguém perdia nem uma parte dele. Mesmo tentando olhar para outros lugares uma certa vontade irresistível fazia com que virasse e assistisse a inominável brutalidade.
Foi uma experiência horrorosa. Primeiro eles começavam arrancando lentamente os membros externos. Mãos e pés foram arrancados brutalmente com grandes ceifas. Rapidamente o sangue se espalhou por todo o altar. Os berros de Marcio eram sufocados pela musica entoada pelos que ali estavam parados, fixos, entorpecidos pela sanguinolencia.
Em golpes rápidos e certeiros o peito do homem no altar foi aberto e todos os órgãos ali contidos foram sendo pegos um por um, pulmões, estomago, fígado, intestino, todos um a um foram sendo consumidos pelos que ali se apresentavam diante do altar. Era horrível e indizível o nojo de se ver explicitamente tais atos. Algumas pessoas do grupo chegaram a vomitar em asco. Todos os órgãos foram retirados e ingeridos.
Todos, menos o coração. Coração e cérebro perfeitamente conservados foram deixados intactos. O pior ainda estava por vir.
Deixados a esmo todos eles, agora com a falta de um, assistiam imóveis a continuação do ritual. Nenhum deles estava preparado para o que viria a seguir.
Das profundezas da caverna, algo vinha se movendo. Algo pegajoso e asqueroso. Os cânticos cessaram. Todos olhavam atentamente para o ser que vinha. Ele era indecifrável, algo de surreal, ele não existia mas era visto.
Tudo que nós representávamos estava ali contido naquela criatura. Todas as faceta escondidas estava ali diante dos olhos de todos. Os mais instintivos e sensíveis progressos estavam agora reduzidos a brutalidade do tribal ao olhar aquele ser que ao mesmo tempo sabia tudo e nada sabia.
Devaneios começavam e terminavam em um piscar de olhos que eram como séculos de experiências. Lise sabia que seu cérebro não ia suportar tanto indizível conhecimento e prazer. Era uma agonia prazerosa. Saber o que ninguém sabe e saber que não iria conseguir conter tanto conhecimento. Tudo era telepático. Tudo vinha e ia como vento na mente, uma dor aguda começava em todos à medida que o tal ser ia se aproximando do altar.
Por um momento todos perceberam que na verdade aquela não era a forma do monstro, e sim um disfarce para se tornar aceitável. Todos compreenderam o limite da mente humana e sabiam que não podemos aceitar o que não conseguimos conter. Aos poucos ele foi chegando perto dos restos de Marcio e pegou levemente o coração. Nada mais era dito, o silencio imperava no lugar sagrado daqueles seres encapuzados. Lentamente o coração foi comido. Tudo era paz, silencio e tranqüilidade.
De repente uma forte dor veio no peito. Lise caiu gemendo de dor, seu coração iria estourar, ia morrer sabia disso. Nada mais era sentido somente o coração latejando dentro do peito. Dor e morte eram os limites agora. Estava a beira da morte e compreendia o quão poderosa era a vida, mesmo de qualquer ser, não importava, viver era precioso e morrer uma tristeza indizível. Só queria viver e mais nada, lutava ferrenhamente por isso com tudo o que possuía.
Aos poucos a dor foi passando. Cessou completamente em poucos segundos e tudo estava como antes. A caverna estava em paz, todos levantavam e estavam bem, os restos de Marcio ainda jaziam ali na frente de todos, o sangue já secava e endurecia. Todas as agonias pararam por um segundo.
Agora o ser brutal levantava o cérebro de Marcio e encaminhava lentamente ele a sua boca.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Código do texto: T30348
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz