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Cremilço e Julieta

     - Boa noite, querido!
     Seus olhos se iluminaram, ofuscando o brilho das explosões solares.
     - O que foi...viu um fantasma?
     Não, caros leitores, apenas a deusa idealizada.
     Julieta Strabica Ramos era a reencarnação de Hércules: alta, forte, máscula, empreendedora. Proprietária de um boteco – desses que desmerecem os nobres botequins dos finais de expediente, charmosos e acolhedores – numa rua de subúrbio, Julieta o encantou. Quem assistiu à cena jura a mãe dos outros mortinha que ele quase não bebera até então. Pois quis o destino que essa moça-titã o tivesse seduzido à morte byroniana.
     - Me dá um cervejinha geladinha – pediu, apatetado, em diminutivos emocionados.
     - Tem alguma preferência, lindão?
     Preferia todas a nenhuma.
     - Não... e me traz também uma pitu, no capricho...
     Bebeu não uma, mas quatro ou cinco garrafas e outras tantas doses de sua cachaça preferida. Tomou coragem e perguntou intimando:
     - Quer morar comigo?
     Surpresa, porém julgando ser oportunidade única, nem titubeou:
     - Claro... quando?
     - Amanhã...
     - Amanhã! Mas eu nem sei o seu nome...
     - Cremilço...
     - Como?
     - Cremilço José de Oliveira, seu criado....
     - Oi, Cremilço, eu sou Julieta...
     - Que horas você fecha o bar?
     - Às quatro...
     - Eu espero!
     E esperou... Sentia-se o Bebum mais feliz do mundo. Teria uma companheira de bar, afinal.
     Às quatro e sete saíram, de braços dados, mais de apoio que cumplicidade, rumo ao enlace apaixonado, os amantes que nunca se tinham visto.
     Surpreendentemente a relação parecia dar certo. Por seis dias e noites ele não bebeu uma mísera gotícula de álcool. Estava inebriado, sonhando com sua amada de branco que passaria a chamar-se Julieta Ramos de Oliveira, poética combinação arbórea.
     No início do sétimo dia, Bebum levantou-se às cinco e meia e percebeu que Julieta não estava em casa. Telefonou, apavorado, para o boteco Lis do Lodo, e não houve interlocutor que lhe atendesse a chamada. Arrumou-se rápido e, em menos de vinte minutos, pôde flagrá-la aos... aos... aos sabores do sexo com um quasímodo de menos de metro e meio.
     (...)
     Ontem, seis meses depois, Cremilço, ainda choroso, em estado etílico avançado, foi visto numa praça vazia, declamando para uma estátua de dois metros, que parecia ser a personificação de sua musa, trechos de um poema intitulado Cremilço e Julieta. Quem contou não anotou, mas termina assim:
     “(...)
     Se só tomo pinga com mel,
     É porque você, Julieta bandida,
     Levou embora o dedo e o anel,
     Meu corpo, a alma e a vida.”
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 15/07/2005
Reeditado em 22/03/2006
Código do texto: T34657

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
407 textos (351740 leituras)
2 e-livros (297 leituras)
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Nel de Moraes