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Alice 1977-1999

             Engraçado pensar que eu bebia e fumava maconha com meus amigos na noite de 7 de janeiro de 77, quando Alice nasceu. Respirava pela primeira vez enquanto eu ria compulsivamente, tentando escapar da mesmice dos dias de colégio. Ria para não chorar. E Alice chorava, aos berros: quando vou voltar para o ventre da minha mãe? O ventre aberto, sangrento, vazio e quentinho. Costuravam-na, tudo certo com a cesária. O pai filmando: sorria para a câmera, Alice. Primeira lição de sobrevivência.
Menos engraçado pensar que eu bebia e fumava cigarros importados (presente do chefe) com pessoas que poderiam Ter mil títulos, menos o de “amigos”, quando Alice morreu, dia 9 de novembro de 99. Parava de respirar enquanto eu sorria hipocritamente, tentando me convencer de que tudo era o máximo: o coquetel, a promoção, meu emprego, minha vida... Já não precisava de um baseado para confundir meus neurônios. E os neurônios de Alice, mortos. Um último impulso elétrico até o coração, a batida final.
Tive a notícia tempos depois, no mesmo dia em que recebi a notícia de sua existência. “Quer a notícia boa ou a má primeiro?” , Deus me perguntou. Escolhi a má e recebi seu atestado de óbito na cara enquanto ia para o trabalho. Li as datas. Li seu nome. Procurei o dono, não achei. Agora te tenho nas minhas mãos, Alice. Toda a sua breve existência resumida em uma folha sulfite... e não sei nada sobre você. Como viveu, gostava de cachorros? Tinha os cabelos castanhos e os olhos verdes? Com quem passou a última noite de Natal?

Como morreu, Alice?

Te imaginei deitada em um caixão, na beleza dos seus 22 anos. Me senti culpado. Um homem de 43 anos que foi levando a vida pelos caminhos mais fáceis e sem graça. Você viveu, Alice, eu não.
Olhei para o papel em minha mão, para o meu terno, para os meus sapatos italianos e para toda a reputação que isso me dava. Não via mais sentido. Abri minha maleta e assisti a todos os contratos e documentos voarem, foi doce. Não fui trabalhar. Não voltei para casa. Quis largar tudo por você.
Agora me encontro sentado na calçada, contemplando um mundo sem Alice. Há um mijo de mendigo do meu lado e milhares de pessoas passam por mim. Minha camisa está dasabotoada e eu penso que a gravata frouxa pode ser uma boa corda de forca. O poste de iluminação a uns dois metros completa o desfecho. Alguns passos, alguma coragem e alguns nós. Quem sabe Deus tem mais algumas notícias para mim.
Dawn
Enviado por Dawn em 15/07/2005
Código do texto: T34677
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Sobre a autora
Dawn
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
19 textos (978 leituras)
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