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As pessoas e seus lugares (sushis, bombas de gasolina e um disparo acidental)

Sem abertura prévia ou tomadas panorâmicas acompanhadas por trilha sonora, Pandora abocanha um sushi encharcado de shoyo. O molho oriental escorre até seu queixo. Ela abre um sorriso, restos de alga entre seus dentes. O molho escorrido forma uma pesada gota que cai sobre seus enormes seios. Enormes decotes em um vestido vermelho. Os olhos verdes do garoto hesitam. Ele sente nojo. Dali a dez minutos estão rolando no chão. Dali a quarenta minutos Pandora pega seu carro e dirige loucamente, embriagada de orgasmo e saquê. Rindo alto. Restos de alga continuam entre seus dentes. CORTA.

André acorda de seu sono fingido. Vira a garrafa de saquê na esperança de que o álcool apague sua memória. Se sente com cinco anos, cheirando a leite, aveia, merda e sexo sujo. ‘Quando seria um homem?’ se pergunta. Vira-se para dormir sobre o chão de madeira. CORTA.

Rock industrial. Pandora corre pelas ruas, gargalhadas, luzes se fundindo em feixes pelo céu da noite. Quem é Pandora? Onde ela e André se conheceram? O que acontecerá com eles daqui para a frente? Esqueça. Aqui nada faz sentido.
Um barulho no carro. A música pára. Pandora abre a porta e vê que um pneu furou. Entra no carro novamente. Arrasta-o até o posto de gasolina da esquina. CORTA.

Música minimalista. O céu está claro, o sol ascende as folhas das árvores. Um lago, coelho, amoras. Deve haver um casal se beijando atrás da árvore, logo crianças virão brincar de roda. Mas não, ninguém aparece. Estar só assusta. Os passarinhos começam a berrar, desespero. CORTA.

Regina se olha no espelho. Seus olhos tristes, seu corpo fraco. Parecia feita de vidro, frágil e perfeita. Olha para o fundo de sua alma: estava vazia. Dois dias depois a encontram morta, o sangue coagulado pelo chão. Conheceria André dali a uma semana, caso não houvesse morrido. Eles se apaixonariam e seriam felizes juntos. CORTA.

“ Tudo está em seu lugar certo. Tudo está em seu lugar certo. Todas as bombas, homens bombas, homens, mulheres, crianças. Atropelados, esquecidos, desiludidos, Saddam Hussein em seu esconderijo, todas balas perdidas, todas as almas perdidas, todas as placas, todas as lápides, todos os desencontros, todos os tesouros, todos os tesões, todos os pontos de ônibus, vagões de metrô, todas as rimas, todas as remelas de uma noite mal dormida. Durma, meu filho, durma tranquilo porque tudo está em seu lugar certo.”

_ Que aconteceu, dona?
_ Meu pneu estourou, preciso de ajuda pra trocar.
_ Podexá. Dá uma licensinha desce do carro que a gente já troca.
Pandora desce e vai até a loja de conveniências do posto. Lá dentro, um grupo de adolescentes compra guloseimas. Iriam assistir a um vídeo na casa de um deles. Pareciam felizes. Pandora estava impaciente. CORTA.

O frentista com cara de bobo e pose de quem se acha esperto ergue o carro com um macaco, quando um homem fantasiado de urso aparece.
Pandora sentada num banco de madeira ao lado da máquina de óleo. O homem fantasiado de urso senta ao seu lado e tira a cabeça de urso. Suspira. Você quer saber por que um homem está fantasiado de urso num posto de gasolina às duas da manhã. Sua curiosidade só será saciada caso Pandora pergunte a ele, ou caso ele comece a falar espontaneamente. Silêncio. Silêncio e constrangimento.
_ Que mal lhe pergunte...- Pandora fala muito baixo, o homem fantasiado de urso não escuta.
_ Bonita a noite, não? Estrelas...
Pandora olha para cima e se esforça para achar alguma. Nenhuma. Risinho (acompanhado do resto de alga entre os dentes).
_ Que mal lhe pergunte...- o volume da voz aumenta, mas ele não escuta novamente.
_  Sabe, eu sou um cara meio sonhador, romântico... (o rosto de Pandora se vira delicadamente para o outro lado). Desculpa se te incomodo, moça...
_ Que mal lhe pergunte – o homem-urso finalmente ouve – Por que você está fantasiado de urso em um posto de gasolina as duas da manhã?
_ Ah, isso? Há há há, é uma longa história. Foi assim...
Frentista invade o enquadramento.
_ Dona, dona, desculpe interromper. A senhora tem estepe no porta-malas?
_ Tenho, aqui a chave.
O frentista volta ao carro e abre o porta-malas. Sobre o estepe há uma caixa de papelão lacrado. Com ar de enfado, tenta levantar a caixa . É pesadíssima. Tenta novamente. Levantando, levantando com força... a caixa cai no chão, arrebentando o lacre. CORTA.

Os adolescentes que saíam da loja congelam os passos. A conversa sobre a fantasia é interrompida. O frentista perde a respiração. O frentista número 2, que abastecia um carro ao lado, tenta correr para um telefone. Antes que pudesse discar 190, Pandora aponta uma metralhadora em sua direção. Há mais três iguais à essa dentro da caixa, além de um estoque enorme de munição. CONGELA.

O frentista número 2 larga o telefone e coloca as mãos na cabeça, mudo. O homem fantasiado de urso tenta sair correndo, mas logo a metralhadora se aponta em sua direção.
_ Não quero ver a cara de ninguém se contorcer enquanto balas perfuram seu corpo. Façam o que eu mandar ou atiro. CONGELA. Uma música um tanto engraçada, eram patéticas as caras de pavor. Em close, uma por uma.

A música decresce até sumir completamente. Altiva com a metralhadora em punho, Pandora ordena:
_ Formem uma linha na minha frente. À esquerda, vocês do posto, depois a menina de blusa branca, o carinha de boné, o de jaqueta azul com a namorada, por último esse fantasiado de urso.
Posicionaram-se.
_ A brincadeira é assim: eu pergunto, vocês respondem. Vou começar da esquerda pra direita. Uma pergunta pra cada um. Começando... (Pandora dá dois passos sorrindo. Volta a apontar a metralhadora com ódio) Qual sua comida favorita?
_ Batata frita.
_ Chorou vendo ET?
_ Chorei.
_ Último cd que comprou?
_ Do Nirvana.
_ Número do sapato?
_ 41.
_ Você gosta de fazer boquete no seu namorado?
_ Gosto.
_ E agora você, a figura mais interessante de todas... me diga... por que você está fantasiado de urso em um posto de gasolina às duas da manhã?
BOOM. O posto de gasolina explode. CORTA.

Jonatan era seu nome, 22, sua idade. Era policial há três meses. Fazia ronda de viatura com um colega quando viu a estranha cena no posto de gasolina. Influenciado pelos filmes de policial que assistira desde criança, imeginou que esse seria seu momento heróico. Desceu do carro a passos determinados. Puxou seu revólver em câmera lenta, respirou fundo e mirou para a cabeça de Pandora. Acertou uma bomba de gasolina. Queria ser herói. Será lembrado como um idiota. CORTA.

“Tudo está em seu lugar certo. Tudo está em seu lugar certo. Todos os cretinos, todos os estranhos, todas as pessoas felizes, meus avós enterrados, minha tia morrendo em um hospital, a solteirona vendo TV, Bush vestido de marinheiro no Natal, Willyan fudendo Ana, amigos fudendo com sua vidas, todos os encontros, todas as despedidas, a garota morta ensanguentada, André acordando com dor nas costas, intrigas, mentiras, apostas... Na foto panorâmica da humanidade há lugar para todos, e tudo está em seu lugar certo.”

CORTA.
APAGUE.
VÁ EMBORA.
Dawn
Enviado por Dawn em 15/07/2005
Código do texto: T34679
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Sobre a autora
Dawn
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
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