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Da paixão à morte

Toda vez que abro meu editor eletrônico de textos sei que uma parte de mim vai ser desprendida e através do arranjo dessas pequenas palavras farei sentido e colocarei significado na mente daqueles que se aventurarem a degustar o apresentado.

E é através das palavras que tenho essa intimidade com a alma, o espírito e a essência das coisas, desnudando-as e moldando, ao meu ver, o único sentimento concreto que podemos ter quando alcançamos elevado nível espiritual, o amor.

É sobre ela que ele atua, através de mim.

Ela passa toda hora pela rua. A qual, ponho os olhos sempre que me debruço na janela e fico admirando a passagem das pessoas, o trânsito de carros, o movimento da vida... Mas em especial aquela presença, pequena, insignificante, mas tão especial para mim.

Ouvi outro dia alguém dizer que a vida é bela. Bela é ela, carregando, para lá e para cá, suas encomendas. A vida não tem beleza alguma, ela apenas é. Querer embutir beleza na vida é querer ser especial. Não somos especiais, somos normais. A vida está longe de ser bela, não como ela, não como ela.

Entro no banco, um depósito precisa ser feito, aquela porta giratória já demonstra como faço com minha vida, giro, giro e nada sai do lugar, apenas mudo um pouco a perspectiva com que olho para o mundo. Indizível incapacidade de viver. De amar.

Amo-a desde o primeiro momento que a vi, e olha que nunca a vi em minha vida. Mas precisa-se ver alguém para se apaixonar? Se quero me apaixonar, me apaixono, escolho a pessoa e passo, com toda a simplicidade do mundo, a me enamorar dela, aos poucos, observando, cuidando, querendo. No fim, é isso que é se apaixonar, escolher e se entregar.

Hoje com aquela roupa, calças jeans e uma blusa de alcinha sobreposta sobre uma de manga com uma bela flor dependurada no cabelo, estava adorável e poderia amá-la para sempre, se estivesse ao meu lado. Mesmo que fosse muda. Não precisaria de nenhuma palavra para me entregar àquela pessoa.

Ótimo era que eu vivia lotado das suas palavras. Escritas, por mim lidas. Lindas, mas cheias de risos, alegrias, que depois, quando vistas por qualquer um, poderiam parecer sem graça, sem motivo. Todos eles estavam dentro de mim, dela também, e não precisava da opinião de ninguém sobre o assunto.

Afinal é assim que acontece, quando cruza o olhar, aquela mágica, presente somente nos olhos, dá sinal de vida, o calor se espalha lentamente, ou extremamente rápido dependendo do ponto de vista, pelo corpo e tudo fica distorcido.

Uma vontade de correr para a janela, contar os carros até ela passar, única, medíocre, humanamente linda. Assim que se aprecia alguém, amando sua mundanidade. O sorriso, o jeito de olhar para trás, a continuação do calcanhar para a perna e toda a sua estrutura se movendo levemente. Como se estivesse correndo em um campo de algodão gigante. Suave.

Um dia irei descer até a rua e falar com ela. Encará-la e mostrar todo o meu sentimento. Este que se reparar bem, pode perceber que é grande e palpável, quase escorre de mim deixando um lastro. Como sangue, quente, vermelho, intenso. Mas se deixar muito tempo fora de mim, acaba, endurece, escurece, perde sua vivacidade.

Sempre me pergunto o porquê dos anjos não poderem amar. É tão sublime, quente, inimaginável. Anjos devem ser tristes, guardando por nós, sem sequer sonhar com a nossa profunda e incomparável capacidade de amar. Morram de inveja.

Queria, dos anjos, ter as asas. Assim poderia voar daqui e encontrar-me com minha amada, amável e admirável, queria um mundo novo, com novas tecnologias, uma delas, pelo menos, me fizesse andar.

Andar ou voar, desejos impossíveis. Impossíveis, pois são desejos. Se fossem obstáculos seriam transponíveis. Isso! Tenho que ter um objetivo e essas coisas passariam apenas a ser meros obstáculos e não desejos, idealizações.

Só me resta descobrir o objetivo. Amor? Não! Muito romântico, muito ilusório. Ela anda todos os dias com um objetivo. Trabalhar, ganhar, construir. Não tenho objetivos a não ser amar. Que não deveria ser objetivo de ninguém, pelo menos enquanto não for remunerado. Quem consegue viver amando? Ninguém.

Dias e dias passam e minha janela continua sendo meu único contato com ela. Do meu quarto escuro, quente, úmido, sinto que estou desabrochando e um dia poderei me apresentar, me desvencilhar dessa amarra e ser alguém.

Não mais que uma idéia, presa e impossível de ser concretizada. Geralmente idéias são impossíveis de serem concretizadas, elas vivem na mente. Ações concretizam idéias, mas essas já deixaram de ser idéias quando viram ações.

Preciso agir, tirar meu corpo mole, ter um corpo, imaginar ter um pelo menos. Sentir. Não tenho um corpo para sentir, viver, experimentar. Por essa razão que considero meu amor verdadeiro e minha paixão por ela indizível.

Seres normais são induzidos pelo corpo, a carne, o coração saltitante deixando a impressão do amor real, físico, hormonal. A mim resta apenas o amor incondicionalmente verdadeiro, o da alma.

Não sei como é ser materializado. Sentir. Algo que poderia experimentar e tenho a certeza que iria passar séculos da minha existência saboreado o sentir. Tudo, de cada vez, prazerosamente. Tantos seres com essa capacidade, quase nenhum pratica, usufrui de seu dom mais precioso, sentir! Desde que me tornei isso já não me lembro como é o sentir. Humanos...

Banalizam seus corpos injetando drogas, hormônios, substâncias. No fim não se sabe mais o que é realmente sentir. Tudo fica embolotado. Quando não se tem um corpo, percebe-se o quanto desperdiçam, os humanos, de seu potencial. Poderia ser uma linda convivência. Uma troca de experiências. Mas é um conturbado progresso. Uma competição pelos piores sentimentos.

Sentimentos! Todos para ela. Lá vai a mais graciosa de todas com suas pernas reais. Consigo sentir a intensidade de seu andar. É absolutamente individual e única. Desejaria me lembrar de como é ser oprimido pela pressão do ar, encher os pulmões com ele e ao me aproximar de sua boca sentir aquele calor em forma de... Espere!

Não seria para eu me lembrar de tais coisas, ter esses desejos. Não sou como todos. Mas desejo, cobiço, tenho lembranças. No meu nível a coisa era para ser mais sensível, mais compreensiva e menos emocional.

Ainda permaneço ao lado de meu corpo físico. Ele não estava muito satisfeito, creio eu. Não sei como, mas ele se matou. Não ter as pernas é desesperador, mas agora como ser imaterial eu não sinto, ou era para não sentir, mas esse amor continua comigo. Agora posso me mover, pensando. Vasculho os cantos do quarto, mas nada encontro, ou se encontro nada posso tocar.

Estou incorporeamente preso aqui nesse quarto, com possibilidades de ir a qualquer lugar, mas qualquer lugar não me é desejado e a única coisa que quero fazer se faz impossível, já que ela nunca vai me ver agora.

Amor, essencial e único. Já não tenho mais aquela carne para ser retesada nem pêlos para enrijecer, ficando somente com minhas idéias e minhas lembranças. Essas que vão sumindo aos poucos, assim como o tempo vai me distanciando da minha contraparte física.

Até finalmente só sobrar o amor bruto, sensível e que não quer dizer mais nada. Pois, já não a desejo e meu amor passa do indivíduo para o todo. Aquela evolução lógica das coisas. Morto, descarnado e ainda amando. Serei único em minha condição?

Acho que não, acredito que nesses corpos ambulantes e nessas mentes vagantes exista um resquício do amor universal, aquele que nos permeia sem a carne, sem o desejo, sem a posse. Sem a posse....

Não mais desejo nada, nem mesmo estar aqui, ter meu corpo de volta. Nessa hora todos meus vínculos com esse mundo já se perderam e até meu amor se tornou calmo. Não sei como, nem mesmo assim pode-se saber, mas ficamos mais calmos e entendemos muito do funcionamento universal. Mas é indizível em palavras, é uma compreensão agigantada.

Temo não mais poder escrever, já nem sei como as palavras estão sendo materializadas e sinto que minha hora por aqui terminou, estou me esvaindo, voltando para a composição de todos os seres. Não consig...........
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 06/08/2005
Código do texto: T40724
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz