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O Censor de Madeira


Todos, até a vovozinha, pularam desesperados e se puseram à frente daquele sofá. Estavam perplexos! Ele praticamente acabara de cuspir uma almofada, acertando-a na televisão, com força para mudar de canal ou até ejetar um homem de setenta quilos, se estivesse sentado ali.
Daquela saleta ampla, confortável e bem mobiliada era o móvel mais bem conservado. Afinal, dificilmente se aproximavam daquele estofado escorregadio, e além de sua cor branca ser alvo fácil para a sujeira, seu tamanho perturbava também. Fora projetado parecia que para uma pessoa e meia. Se dois resolvessem sentar-se nele, tornava-se claustrofóbico. No entanto fosse uma pessoa apenas a sentá-lo tornava-se solitário refúgio para o desavisado, que chagava ser aconselhado pela família até a aconchegar-se no chão, lugar onde estaria a salvo daquele angustiante aborrecimento.
Assim, uma espécie de vacina foi sendo desenvolvida pela família e ministrada para que ninguém, fossem visitantes, fosse recém-incorporado ao clã, tivesse de confiar àquele trambolho o seu inocente descanso.
Que ele nunca fora espuma que se sentasse, todos sabiam, mas que modos eram aqueles? Já tinha custado caro, pagaram à vista por ele, enfim, foi um péssimo negócio. E agora mais essa: tinham trazido um inimigo para dentro de casa. Não, aquilo tinha sido demais. As crianças estavam aos prantos, inconsoláveis, a mãe nem conseguia encará-lo de frente, e o pai estava furioso e indócil, decidindo se com facadas ou a pontapés que daria cabo naquela armadilha.
Só a vovozinha ficou ao lado do réu, pondo-se à sua frente e prometendo não deixar que ninguém fizesse nada contra ele. Que tinha seus defeitos, isso todos sabiam, e quando ia se pôr a elogiá-lo, ele a engoliu, como que não querendo deixar que ela continuasse a falar, nem a viver.
Aí o pai perdeu o controle e o senso do ridículo. Esqueceu-se das duas Copas do Mundo que passaram juntos e lançou-se naquele móvel, como se estivesse diante de um jacaré faminto, e lutou contra ele, ao mesmo tempo que pedia para sua mulher pegar um serrote, no quartinho da bagunça, dentro da caixa de ferramentas.
Quando ela voltou com o que o marido pedira, tremendo da cabeça aos pés e com as crianças à tiracolo, ele ainda lutava com... aquilo. Serrou a parte correspondente ao abdômen do sofá, e uma enxurrada de espuma começou a invadir a sala, onde já não havia mais espaço para excentricidades. Tentando consertar o que fez, o marido tapava com uma das mãos o corte, e com a outra, lentamente ia serrando o braço esquerdo do sofá, para que ele não percebesse. Imaginava serem os braços o ponto fraco daquilo. A mulher conseguiu sentir-se útil novamente: foi correndo para a suíte, sem as crianças agora, pegar agulhas de tricô e lã para costurar aquela bocarra insaciável.
Quando voltou, demorou muito pouco, a tempestade de espuma tinha cessado, e as crianças estavam assistindo à televisão descontraidamente. Ia se aproximando da parte do sofá que estava cortada quando de dentro dele foi cuspida uma aliança, um relógio de pulso masculino. Definitivamente, eram de seu marido. A dentadura que veio em seguida, acertando no teto da sala e se espatifando no chão, era de sua sogra. Um arroto com cheiro de serragem arrematou o absurdo.
A mulher ficou tão perplexa, sem saber o que fazer, que começou a chamar pelo marido, procurando uma brecha por onde pudesse comunicar-se com ele. Não conseguia encontrar. Resolveu então colocar as crianças para dormir e sentar naquilo mesmo para assistir à novela das oito. Apesar da confusão, daria para pegar o final do capítulo ainda. Intervalo comercial. Mais uma daquelas irritantes vinhetas da loja de móveis e eletrodomésticos que vinham estressando tanto aquele pobre sofazinho, velho e órfão.
Ficou tão furioso que tombou para trás, com a mulher em cima dele. Ela rolou, sem se machucar, mas se injuriou tanto que não conseguia parar de arranha-lo e proferir-lhe palavrões. Com alguma força, reposicionou-o em frente à TV e aguardou pelo último bloco do capítulo. Não adiantava, aquela novela nova não prendia sua atenção como a que passava antes. Tratou então de tramar outra vingança contra o sofá.
Foi até a área de serviço, pegou seus três gatos e colocou-os em cima do lugar onde sempre sonharam em afiar suas garras: no próprio! Por isso ficavam presos na lavanderia. Esbaldaram-se, rasgaram-no todo, mas desta vez, não reagiu às agressões.
As crianças acabaram acordando e vieram correndo devido à presença proibida dos gatos na sala de estar, e queriam brincar com os bichanos. A mãe não conseguia mais impor ordem, ou ter idéia de como organizar aquele pardieiro. Sentou-se, ou melhor, deitou-se naquele sofá como que se entregando, pedindo trégua. Nem ligou para os arranhões dos gatos nem para os pisões dos filhos em sua barriga.
A novela acabou, subiu o letreiro e a próxima atração foi anunciada. Logo após, o primeiro reclame, o de sucos de fruta. Em seguida, o segundo, de margarina. O escaldado móvel, sabendo, prevendo pela repetição da seqüência qual seria a próxima propaganda, começou a tremer. A mulher percebeu e imaginou que todo aquele peso e aquela bagunça em cima dele ia fazer com que vomitasse o marido e a sogra.
Realmente, ele não estava enganado. Começou o reclame das Casas Bahia, mas não aquela vinhetinha, versão com dez segundinhos. Era aquela outra, a mais temida por ele, impresenciável, insuportável versão com um minuto de duração!
Nos primeiros cinco segundos, perturbado pela voz daquele ator, o sofá abocanhou dois gatos e um dos filhos, o maior. Parecia que mastigava desta vez. A mãe, agilmente, agarrou-se a seu filho menor, que imitava o apresentador do filme publicitário, e aos quinze segundos, o terceiro gato estava sendo devorado.
Para desespero da corajosa mamãe, seu filhinho conseguiu soltar-se no momento em que ela, com o pé, tentava alcançar o controle remoto, constatando que havia alguma relação entre a TV e o surto do sofá. O menino ficou em pé e repetia os gestos daquele vendedor de móveis enlouquecedor. Trinta segundos de comercial já haviam se passado e mais outros trinta torturantes e fastidiosos segundos ainda viriam pela frente com aquele chato saltitante.
Não teve escolha: engoliu a mãe também, por quem sempre nutriu certo desejo e ciúme, uma espécie de amor impossível, mas isso não vem ao caso. Chupou-a, degustando cada contorno, cada curva de sua silhueta carnal, e tentou passar uma rasteira no menino. Restavam quase vinte segundos ainda de agonia, e o móvel não conseguia fazer nada contra o moleque. Isso porque a imitação que fazia em frente à TV tornava-o tão repugnante quanto a interpretação daquela mala-sem-alça, e isso imobilizava, paralisava aquela mobília, que só estava se rebelando contra a chatice daquela propaganda, para não dizer da falta de criatividade das campanhas publicitárias em geral.
Aproximou-se então do garoto, hipnotizado por aquela performance débil diante de seus olhinhos, e engoliu-o também, para fazer companhia aos demais, que não tinham morrido, nem nada disso.
Restavam ainda dez segundos. Segurou com um dos braços de madeira o controle remoto e mudou de canal a tempo de não ver o desfecho daquela mediocridade – o final, aliás, era a parte que mais o desesperava. Por fim, decretou:
– Enquanto esse pentelho apresentar as Casas Bahia, ninguém vê televisão nesta casa!

Marcos Ba˘
Enviado por Marcos Ba˘ em 18/08/2005
Cˇdigo do texto: T43478
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Sobre o autor
Marcos Ba˘
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
26 textos (2501 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 03/12/16 17:53)
Marcos Ba˘