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VINGANÇA ESTRANHA

         Eu acabava de sair do hospital onde minha filha (agora de alta), ficara internada oito dias com uma doença chamada pielonefrite aguda, infecção gravíssima nos rins contraida não sei como, na praia de Guarapari onde passávamos as férias.
Eu a levei para casa ainda muito débil e frágil, com instruções médicas de completo repouso e muitos cuidados. Estava (acho até desnecessário dizer), um farrapo, me sentindo super frágil. Havia passado esses oito dias em claro ao lado dela, sobretudo pela minha falta de estrutura, preocupação, pois nunca havia me visto numa situação tão delicada! Nunca uma filha minha tinha sido internada num hospital!

Aquelas enfermeiras trocando soros e dando remédios à noite toda, não deixavam minha filha dormir e, eu é claro nem cochilava com os olhos pregados naquele tubo fininho do soro com receio que acabasse e pudesse entrar ar na veia dela,ai, era um martírio, não sei como agüentei!
          Agora precisava ficar ainda mais forte porque ela iria precisar muito de mim.
Chegando em casa, percebi que precisava comprar alguns leçóis e fronhas bem bonitos. Ela deveria receber muitas visitas. Fui à loja do meu bairro e comprei tudo de que precisava sem pesquisar preços ou Pechinchar como era meu costume,pois tudo era de suma impotância e urgência.
Sai da loja carregando vários embrulhos nos braços, quase não agüentando o peso por conta da minha fraqueza, parecia que tinha sido eu a doente. De fato o sofrimento da minha filha, a falta de estrutura e o desassossego foram muito fortes para mim. Minhas pernas estavam bambas e minha cabeça meio tonta. Enfim eu estava mesmo um "farrapo", mas precisava reunir muita força para cuidar da minha filha. A resposabilidade agora era só minha. Não haveria médicos e nem aquelas enfermeiras "chatas" que não nos deixavam dormir, agora era somente eu mesma
             Quando estava quase chegando perto do meu carro estacionado a algumas quadras da loja, um homem com um saco nas costas, de cor negra, me escarrou no rosto! Fiquei sem ação, estarrecida. Minha vontade era de largar  os pacotes no chão e partir pra cima dele e...MATÁ-LO!!! SIM! MATÁ-LO!!!! mas não tive forças, estava quase desmaiando com o esforço feito pelas compras e pela pouca distância percorrida. Como teria condição de enfrentar aquele louco? Pensei em pedir ajuda, gritar, mas não consegui.
Cheguei com muito esforç ao carro, joguei os pacotes no capô e, chorando comecei a procurar um pano para limpar o catarro que, nesse momento escorria, misturado às lágrimas que não conseguia deter! Oh! que coisa horrível; não encontrava a flanela que sempre carregava no porta-luvas do carro. Peguei a ponta da saia e limpei com nojo e raiva aquela agressão inexplicável.
              Não contei nada em casa, já estavam bastante abalados com toda aquela situação.Isto ia chocá-los ainda mais. Entrei no chuveiro e abrindo a água no máximo, escaldante, comecei a esfregar o rosto como se quisesse arrancar o ódio e a pele que me faziam tão mal!!!
               Passei vários dias sem me alimentar. A lembrança daquela coisa, escorrendo em direção à minha boca, me revirava o estômago. Precisava me fortalecer e esquecer tal cena. Comecei a me alimentar mas de VINGANÇA. Somente a vingança e o restabelecimento  rápido da minha filha, me  mantinham de pé.
Vingar, vingar, vingar, passou a ser o meu objetivo. Não via a hora de realizar esse meu "sonho": encontrar aquele homem horrível e despejar uma "cusparada" no seu rosto, ou cara, como ele havia feito comigo! Seria bom demais, minha felecidade total! Oh! meu Deus, quando chegaria esse dia?Poderia passar anos, eu haveria de encontá-lo....
Semore que me era possível eu voltava àquela loja, no mesmo local do incidente com a esperança de encontrar aquele monstro que me havia feito conhecer o pior sentimento do mundo  que é o ÓDIO!
O tempo foi passando e esse ódio que cada dia aumentava dentro do meu coração permanecia...precisava dessa vingança para amenizar um pouco esse sentimento louco.
                Não foi preciso muito tempo. Minha filha já estava completamente curada, sem nenhum resquício da doença que não deixou seqüela nenhuma. Ela era maravilhosa, como era inteligente! Estava formando em química industrial no segundo gráu e ainda não tinha feito quinze anos...eu estava "quase feliz"...
                Era um sábado. Eu gostava de fazer compras naquela mesma loja. Na volta, ao sair da loja avistei  a uns dez metros de mim o Monstro! Sim.. era ele!
Fimei a vista para me certificar  se realmente eu não estava enganada, se era realmente o rosto daquele monstro que me torturara tanto tempo, até nos meus sonhos, ou melhor pesadelos quase me enlouquecendo! Sim era ele meu Deus!...comecei a suar frio....MONSTRO!!!MONSTRO!?????? Pensava....mas  o que significa monstro? Por que eu não reagia? Por que eu não realizava meu único "sonho"? Por que continuava olhando aquele rosto  daquele homem que me escarrou na cara e me fez conhecer o ódio? Estaria com medo de fazer o que tanto tempo eu havia esperado? Que teria acontecido com o "meu" ódio tanto tempo reprimido? Por que essa sensação de piedade, de  dó? Não! Não poderia deixar passar essa CHANCE. Chegara  o momento!...Comecei a ficar tonta como naquele dia...pensamentos estranhos começaram a me  perturbar, como por exemplo: será  que aquele homem tinha uma filha? Será que ela estaria  formando em Química Industial?
         Será que já teve "pielonefrite aguda? Terá tido o mesmo tratamento que o da minha filha?
Por que eu pensava  em tudo isto? Por que de repente essa pena, esse dó?
Ah! O ódio! Eu tinha que buscá-lo. Onde? Eu não o encontrava!
                   Sem saber o porque, abri a minha bolsa e retirei de lá cinqüenta reais, todo o dinheiro que eu tinha , e se tivesse mais eu o daria .Olhei bem nos seus olhos enquanto entregava a nota, quase que ele percebeu as minhas lágrimas...de que? Pena?
Sei lá! Ele se afastou intrigado com aquela nota de tanto valor nas mãos. Talvez nunca tenha recebido um óbulo de valor tão alto....(nem sei se era um pedinte)....
                    Cheguei em casa me sentindo diferente, leve! Tudo parecia alegre e eu me sentia feliz....
O tal do ódio, me aparece de vez em quando, mas muito rapidamente e nunca com intensidade! Ele se confunde com a sensação sentida há muitos anos, sensação de pena, dó que tive por aquele homem tão estranho, iguais a nuitos homens que existem neste mundo também tão estranho! Estranho como a própria vida!!!!



dezinha
Enviado por dezinha em 27/08/2005
Código do texto: T45656
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Sobre a autora
dezinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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