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O trambolho

– Você pode sair do caminho, por favor?
Era a terceira vez que pediam isso, mas ele não conseguia encontrar um ponto em que ficasse invisível. Queria que o notassem, tinha muito o que dizer a eles. Mas não disse. Terminaram o que tinham de fazer, comeram engolindo, e deixaram a casa às pressas. A louça suja ficou por sua conta.
Pensou em chorar, aproveitando que ficara sozinho, mas não chorou. Sentiu raiva de todos e de si próprio, por sempre se sentir fraco e inútil diante da presença deles. Que ao menos na ausência daquela corja fosse forte então, e não choramingasse como de costume.
Queria gritar, muito alto. Mas se fizesse isso, com a intensidade que desejava, iam interfonar da portaria, os vizinhos iam querer saber “o que a aberração estaria aprontando”. Correu para um dos banheiros, levantou a tampa do vaso, e gritou lá dentro, com toda a força, fazendo a água e a porcelana vibrarem com seu desabafo.
Foi para a cozinha, o refúgio predileto daquele garoto de dezesseis, dezessete, não tinha feito dezoito ainda. Abriu a geladeira e deparou-se com a única coisa capaz de o consolar: comida. Doces também. Abriu o congelador, tirou o sorvete e alimentos semiprontos. Ia cozinhar!
Isso, claro, não impediam que ele fizesse, aliás, incentivavam-no como sendo “a única coisa que sabia fazer direito”. Ligou o forno para pré-aquecê-lo e acendeu as bocas do fogão. Do armário debaixo da pia, tirou seis panelas e duas assadeiras.
Completou com água as duas panelas maiores, outras duas com óleo, e outras duas com um pouco de azeite. As assadeiras foram untadas com margarina.
Abriu três pacotes de macarrão e despejou na panela maior, com água. Tinha tirado um quilo de capelete congelado, e pôs para cozer também.
Fritou quibes, coxinhas, empanados de frango, de legumes, batatinhas também, adorava! Nas panelas com o filete de azeite refogou alho, cebola, tomates picados e partiu para a preparação dos molhos, enquanto vigiava o cozimento das massas e controlava a fritura.
Quando já estava tudo sob controle foi preparar bolinhos de chocolate, recheados com pequenos tabletes de chocolate também, para acompanhar o sorvete. Era fascinado por petit gateau!
Para descontrair o ambiente, ele, uma pequena bola de pouco mais de um metro e sessenta de altura e largura, foi dançando grotescamente até a adega e de lá tirou quatro garrafas de vinho tinto, mais quatro de branco e quatro de frisante, que precisavam gelar. Gostava tanto de vinho frisante que, com muito custo, abriu uma garrafa, quente mesmo, e em poucos goles deu fim a ela. Ligou a vitrola para dançar com um ritmo concreto, e intuiu que um licor de cacau faria um belo par ao recheio dos bolinhos de chocolate.
Lavou muito bem lavado as folhas verdes, tomates cereja, picou champignons e mussarela de búfala, temperando com um molho secreto, que nunca revelou a receita simplesmente porque nunca perguntaram qual era. Esse sigiloso tempero era a base de sua culinária, consagrada por todos que dela provavam.
Costumava comer tanto que habituou-se a preparar o que ia comer à parte, por ordem de todos e, obviamente com ingredientes menos sofisticados, já que ele “comia pela quantidade, e não pelo gosto da comida”. Não fez diferente, um quilo de capelete ao sugo seria a sua entrada e seu prato principal,  com apenas parmesão para guarnecer.
O banquete estava quase pronto. Não provou absolutamente nenhum dos pratos; salgava e adoçava tudo apenas com sua intuição. Além do mais, queria deixar tudo, tudinho para o deleite dos ilustres convidados: seus queridos parentes, famintos e muito, muito exigentes!
Para chamá-los, nem chegou a cogitar um convite sincero, pois certamente, com franqueza recusariam, e mandariam que ele parasse com frescuras e terminasse de arrumar suas tralhas para poderem entregar o apartamento, que ele tinha que entender: “está em inventário”. Mas fazia tanta questão da presença honorável de todos... Usaria uma isca para atraí-los, resolveu ser esta a melhor forma de tê-los ao banquete.
Um cofre havia no quarto principal, isso não era novidade. O que nem poderiam supor é que o segredo para abrí-lo, e estavam prestes a alugar um maçarico para isso, era justamente ele quem sabia. Sempre soube. E resolveu contar.
Precisou apenas de um telefonema, contar uma vez só a novidade, que eles cuidaram de espalhá-la por ele e, em quinze minutos, lembrando que morava cada um de um lado da cidade, estavam todos lá, interfonando para subir e pedindo “licença” para entrar...
Recebeu um por um com uma nota de cem, e se quisessem mais cem daquelas, que se sentassem à mesa e deliciassem aquele estupendo banquete, feito especialmente para eles.
Já iam sentar-se à mesa quando ele trouxe os aperitivos que tinha preparado. Eles preferiam ir direto ao jantar pois não dispunham de muito tempo ali. Ele respondeu que a cada desfeita, dez notas de cem tiraria de cada um.
No mesmo momento, já estavam todos descontraídos e espalhados pela sala, petiscando os salgadinhos e degustando o vinho, mas não adiantou: eles infringiram pela primeira vez uma das regras do jogo. Anotou aquela falta numa lousa improvisada na parede da copa, com uma beterraba cortada em palito servindo de pincel atômico.
O respeito assim estava imposto, e pôde dar seqüência à sua programação. Conversava com todos eles de uma forma que sempre desejou, falando sobre os mais diversos assuntos, como política, por exemplo. Ele até que entendia das coisas. E todos, que começaram dissimulando espontaneidade, passaram a descontrair-se de fato, com real empolgação, com o auxílio pertinente da bebida e das notas de cem que iam recebendo de vinte em vinte minutos.
Colocou uma caixa de lenços descartáveis na mesa de centro da sala, mandou que todos assoassem o nariz e colocassem o papel sujo numa vasilha, que era passada de mão em mão.
Anunciou que o jantar seria servido e que todos, agora sim, se sentassem à mesa sem se demorar. Foram agraciados com uma nota de cem, debaixo do guardanapo.
Serviram-se de salada, que acompanhava pequenas torradas com alho e azeite. Elogiaram o tempero que ele usou, completamente embriagados, e estavam “ansiosos” pelo prato principal. Pela pressa que demonstraram, descontou oito notas de cada um na lousa improvisada.
Fez questão de que todos bebessem o vinho frisante que acabara de abrir e trouxe a enorme travessa de capelete ao sugo, e outra tão grande quanto, de espaguete à putanesca.
Serviu-se de uma vez só, com todo o capelete e fez questão de servir o prato de cada um com o espaguete. Apesar de assombrados com a gula do anfitrião paquiderme, deram a primeira garfada elogiando sua massa.
– Que bom que estão gostando. Você, que vai ao banheiro: está proibido de dar a descarga, e isso vale para todos. Aliás, quero revelar o segredo desse espaguete. Coliformes fecais refogados.
Alguns quase cuspiram o que mastigavam mas conseguiram, por sorte, conter o asco; e ele emendou:
– O desperdício de qualquer prato implicará na desclassificação instantânea de todos, sem atenuantes.
Isso significava que teriam de repetir, mesmo já estando todos absolutamente satisfeitos e enojados. Disse que essa segunda rodada era ele mesmo quem serviria novamente, adicionando a cada prato um empanado de cento e cinqüenta gramas, acompanhado de fritas.
Todos estavam com medo, tanto de explodirem como de aliviarem-se no banheiro, pois isso claramente seria usado contra eles em algum momento. Mas, como queriam todo o dinheiro, comeram.
– Espero que ainda haja espaço para a sobremesa. – lambendo seu prato.
A mesa toda estremeceu de pânico. Pegou aquela vasilha com os lenços assoados, pediu para que, em seqüência anti-horária, enfiassem a mão nela e retirassem um, e que colocassem sobre o prato de sobremesa. Trouxe os bolinhos de chocolate, ainda quentes, e servia dois para cada, colocando três bolas de sorvete bem em cima do lenço assoado.
Suaram frio, mas não gorfaram. Lisonjearam tudo, ainda por cima. Comentou que não esperava que se portariam tão bem, e com três notas de cem foram presenteados.
– Estou muito contente com vocês. Tanto, que vou adorar revelar um outro segredinho: a louça. Notaram?
– Chinesa? – acharam que não podia ser outra coisa.
– Não, é nacional. E é exatamente a mesma que vocês usaram no almoço e não lavaram. Só passei um paninho umedecido com a água da pia, que vocês entupiram por não jogarem os restos de comida no lixo.
– Desculpe-nos. – notava-se uma lágrima no olho de quem disse isso.
– Não tem de quê. Vocês me deram uma ótima idéia. Processei tudo no liqüidificador o que consegui tirar do ralo, então adicionei à massa dos bolinhos de chocolate.
– Isso já foi demais! Dê logo o que nos é de direito e pare com essa palhaçada.
– Mas falta o café ainda. – com a voz embriagada.
– Coado com merda? Divida o que resta do dinheiro e se mande daqui, sua tralha.
– É... Como é prazeroso sentir o poder de agredir nas mãos. De mandar, de controlar. Eu senti isso hoje. E vocês, engolindo toda essa nojeira à força, sentiram na pele o que é a minha vida. Consigo agora entender porque me desprezam, não tem nada a ver comigo. Se sou feio, gordo, relaxado, não faz diferença. Fazem isso comigo por que é bom, e é mais gostoso ainda porque não engorda e é de graça. Basta que alguém permita. Vou pegar o dinheiro de verdade, as réplicas coloridas acabaram.
Correu para o quarto principal e, quando ia se trancar, avisou:
– É melhor que chamem os bombeiros. Em alguns instantes, uma tragédia vai acontecer.
Trancou-se no quarto e abriu o cofre. O segredo era 1234, como viera da fábrica. Pegou todo o dinheiro de verdade, pôs no bolso e tentou subir no parapeito da janela, enquanto faziam de tudo para arrombar a porta. Estava carregando o seu brinquedo favorito, um autofalante, quando notou que os bombeiros chegavam.
Picotou uma parte do dinheiro e jogou pelos ares, à medida que ia mastigando a outra, em enormes bocados. Glutão dos bons.
Os bombeiros se prostraram equipados, antecipando a tentativa de suicídio. Ele acompanhou a tudo muito concentrado, até a hora que armaram aquela frágil cama-elástica para amortecer sua queda tonelar.
Gargalhou bem alto com o autofalante em punho e pulou, não pelo impacto de sua morte, mas apenas pelo trabalho que daria pra limpar a sujeirada que o saco humano de comida ia fazer assim que se espatifasse no chão.
Marcos Ba˘
Enviado por Marcos Ba˘ em 03/09/2005
Reeditado em 03/09/2005
Cˇdigo do texto: T47208
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Sobre o autor
Marcos Ba˘
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
26 textos (2501 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 05/12/16 15:05)
Marcos Ba˘