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                                                          O sonho 

     Constantino Eustáquio de Seixas é seu nome de batismo, mas “O arrebatador” é como o chamam. Chamam e clamam por sua invejável capacidade criadora, quando ele vem a público para lançar mais um fenômeno de venda de sua fábrica de sonhos: o Bico Ortorrômbico para Medição de Flatos – popularmente intitulado Ortoflatos. Constantino é um forjador de ilusões. 
          Antes dessa nova engenhoca, delírio de criação, o grande mentor de inutilidades já fora o responsável pelo estrondoso sucesso de outra raridade: a Pinça Eletro-estática Auferidora de Sensações, que, à época de seu lançamento, vendeu, em apenas dois meses, duzentas e cinqüenta mil cópias e atendeu, nos dois anos subseqüentes, aos anseios de cerca de dois milhões de outros ávidos compradores, interessados em conhecer “o ritmo de suas sensações”, segundo definição do próprio construtor. 
          Afirmam os detentores de seus exemplares que um simples toque de uma tecla produz uma descarga magnética capaz de aplacar-lhes a ira mais renitente em função, por exemplo, de um chifre bem colocado, ou o atraso de três meses do anúncio do novo salário-mínimo. 
          É notória a necessidade humana de experiências novas, embora alguns ortodoxos ainda resistam a elas em nome de seu passadismo anacrônico. Portanto, o que o hábil Constantino lhes oferecia era um farto arsenal de coisa nenhuma. 
         Percebam, os caros leitores, a sua astúcia: qualquer um que pretenda agradar a grupos tão antagônicos dificilmente logrará algum êxito, afinal os rivais vivem em absoluto regime de guerra não-declarada. Mas ele, ao fabricar e comerciar o nada, conseguia pô-los em igualdade de opiniões, haja vista suas máquinas estapafúrdias não servirem para ninguém. Mereceria o Nobel da Paz. 
         - É isso de que precisam os consumidores compulsivos: comprar sonhos. – responde aos céticos que não crêem em seus idílios. 
         E têm razão o esperto inventor. Os seres que não se detêm diante do inusitado sentem-se atraídos pelo consumo de tal monta que ignoram o bom-senso e arrematam o que lhes propõem todos que neles antevêem um lucro fácil, e o Bico Ortorrômbico era o charme do momento. Inicialmente, pensou-se que seria uma nova tecnologia aplicada à Medicina: um aparelho similar a um tomógrafo, capaz de digerir, com tecnologia, o que as infelizes testemunhas do ato não conseguem com o sentido do olfato. 
         Outros – menos ou mais criativos, não me decidi ainda – sentenciavam que a medição de flatos seria fundamental para conter ou pelo menos controlar a emissão de gases-poluentes, responsáveis pela cratera aberta, e em franco crescimento, na Camada de Ozônio, princípio do fim da vida em nosso planeta. “Quem sabe na Rio+100 os países industrializados não proponham a sua utilização?” – chegou a sugerir um ambientalista igualmente paranóico. 
         Um ou outro tipo de pensamento demonstram que alguns seres precisam de um sonho que os mantenham redivivos nesses tempos de carestia, insensatez e violência. Compram, na verdade, aparelhos ignotos e imprestáveis, mas que não lhes causam quaisquer problemas – nem ao PROCON precisam recorrer. 
         Afinal, ao estarem de posse de uma dessas genialidades absurdas de velhacos como Constantino Eustáquio de Seixas esses cidadãos, abandonados pelo sistema de massa falida do Estado, apenas engrossam as estatísticas que comprovam a incapacidade de se sentirem reais, num mundo sem dignidade, ética e paz. 
         Resta-lhes apenas os sonhos, e isso sim não tem preço.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 09/10/2005
Reeditado em 09/10/2005
Código do texto: T58226

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Nel de Moraes