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Nilo

Foi o Marcão que o trouxe. Havia conhecido-o no banheiro, e em seguida o arrastado para nossa mesa, sorrindo estupidamente na antecipação de contar sua novidade quentíssima. E ela, claro, não demoraria a vir.

- Gente, esse aqui é o Nilo. Uma figuraça!

- Nilo que nem o rio? - perguntou inconvenientemente Marcinha, pra variar.

- Nilo de Danilo - respondeu o recém-apresentado, de modo simpático.

- Senta aí, Nilo - disse Marcão, ainda com o sorriso bobo na cara. - Diz pra eles o que você faz da vida!

Assim era o Marcão. Não importava onde a gente marcava pra beber, ele sempre arrumava umas figuras esquisitas pra trazer para mesa. Era o extrovertido da turma, o cara que fazia os contatos. A noite nunca era monótona quando ele estava junto, apesar de algumas vezes ele exagerar na dose, e tornar uma noitada promissora num inferno constrangedor.

- Sou contador - disse Nilo, causando um silêncio incômodo na mesa. Contador? Tinha emprego mais chato que esse? Olhei de soslaio para o Marcão, já antecipando mais um desastre em seu currículo.

- Que legal! - soltou Marcinha, acho que sem pensar.

- Não é isso, tonta! - berrou Marcão, rindo. - Conta o que você me disse no banheiro!

Nova expectativa. Todos olhamos para o rapaz, que parecia um pouco tímido ao ser forçado daquela maneira por Marcão. Era um cara comum, daqueles que sumiriam na multidão, mas tinha um semblante agradável, até mesmo bastante sociável.

- Sou um assassino em série.

Novo silêncio. Mas este durou menos que o anterior, pois todos dispararam a rir como loucos. A Rê até engasgou com a bebida, quase molhando minha calça. Mas o cara continuou na dele, somente aguardando as risadas terminarem, educadamente.

- Não falei? - disparou Marcão, empolgadíssimo - Uma figuraça!

Pronto. O Marcão conseguira de novo. Imediatamente começaram as perguntas.

- Você matou uma pessoa? - disparou Marcinha, meio apreensiva. Marcão tirou o copo de perto dela.

- Uma só não, né, ô cabeçuda! Ele deve ter matado pelo menos umas cinco, pra poder ser considerado assassino em série - novas risadas.

- Na verdade foram quatorze até o momento - explicou Nilo, sem perder a pose.

- Nossa! - espantou-se exageradamente a Rê. Pensei em retirar seu copo também, mas eu sabia que ela não gostava desse tipo de brincadeira. - E nunca desconfiaram de nada?

Nilo, ainda sorrindo, sacudiu a cabeça negativamente.

- E como você escolhe suas... vítimas? - perguntei, entrando finalmente no jogo, já que havia percebido que não haveria mesmo outro assunto aquela noite.

- Nada é ao acaso. Estudo cada vítima minuciosamente, sigo-as por dias, estudo suas rotinas, parentes, amigos, etc. Em alguns casos, chego até a conhecê-las pessoalmente.

- E qual a sua técnica preferida? - perguntou Marcão. - Quero dizer, pra matar.

- Faca de caça. Já experimentei estrangulamento, mas faz muita sujeira. Sabia que uma pessoa estrangulada perde o controle dos intestinos antes de morrer? É asqueroso. Revólver é muito impessoal, e barulhento também, mesmo usando silenciador. A faca é mais divertida.

- Mas também faz sujeira, não faz? - perguntei, tentando apontar uma contradição.

- Só se você não souber o que fazer - respondeu ele, erguendo uma sobrancelha. - Estudei um pouco de anatomia, e sei de alguns pontos que, mesmo sem sangrar muito, podem ser fatais. Além do mais, eu normalmente executo minhas vítimas em casa, onde forro o chão com jornal e plástico.

- Você estudou anatomia? - perguntou Rê, quiroprática. - Mas você não disse que era contador?

- Por profissão, sim, mas isso não me impede de ler livros, não é? E você não sabe o que dá pra achar na internet quando se sabe o que está procurando.

E ele continuou sua aula de psicótico. Detalhou minúcias, relatou casos difíceis, explicou que, por ser contador de uma empresa química, tinha acesso a diversos tipos de ácido, que roubava com o intuito de dissolver os cadáveres de suas vítimas (“Sem corpo, não há crime”, esclareceu). Reclamou que ácido sulfúrico, apesar de ser bom para dissolver as vísceras, era péssimo com os ossos. Recitou um nome macarrônico de um outro ácido que usava para o esqueleto. Disse ainda que despejava o caldo resultante no rio, e que ninguém nunca suspeitou de nada.

No final da noite, sua presença já era natural na mesa. Fora o papo de maluco, era um cara simpático, afável e divertido. Sabia discutir religião (“Sou ateu não praticante”), política (“Michael Moore não é tão inteligente, e nem Bush tão burro”), futebol (“Nasci em Piracicaba, e sou Quinze de berço. Mas gosto bastante do Corinthians”) e até mesmo literatura (“Leio de tudo, de Sófocles a Paulo Coelho, de Nietzche a Código DaVinci”).

Após aquele primeiro encontro, Nilo começou a sair freqüentemente com a turma. Era uma companhia agradável, sempre com um assunto interessante na ponta da língua. Marcão, meio enciumado, perdeu o controle de sua criação, e tentava desesperadamente chamar a atenção para si, algumas vezes até tirando barato de Nilo descaradamente (“Matou alguém hoje, Sr. Assassino em Série?”), mas eram tentativas patéticas, e rapidamente retornávamos nossas atenções para Nilo, que era muito melhor papo.

Certo dia, estávamos apenas eu, a Rê e o Nilo na mesa. Conversávamos sobre a influência do impressionismo alemão em comparação à nouvelle vague francesa, quando a Marcinha chegou.

- Alguém viu o Marcão? - ela parecia aflita. - Ele não dá sinal de vida há três dias.

Confesso que levei bons cinco segundos pra me tocar, e os olhos arregalados de Rê ajudaram bastante. Senti o estômago revirar, mas estava tão assustado que nem me mexi.

- Não o vimos, Marcinha, desculpe - disparou Nilo, sem perder a pose. - Fique sossegada. Tenho certeza que ele aparecerá cedo ou tarde, com uma história perfeitamente plausível. Sente-se, por favor. Acabamos de pedir uma dose de Glenlivet, pois descobrimos que eles servem com gelos redondos.

- E daí? - perguntou Marcinha, obviamente não entendendo a referência literária. - Que diferença faz?

- Você só entenderá se nos der o prazer de sua companhia.

Marcinha ruborizou. Olhou para os lados, com certeza procurando por Marcão, mas agora sem a real intenção de encontrá-lo, aparentemente. Eu e Rê ainda não havíamos conseguido nos manifestar.

O uísque chegou, e erguemos os copos, num brinde.

- Ao Marcão - disparou Nilo, sorrindo. - Figuraça!

Bebemos. Nem me lembrei de verificar se o gelo redondo realmente fazia alguma diferença ao Glenlivet. Nilo continuou seu ataque à indefesa Marcinha. Depois de quinze minutos de conversa, ele já a havia convencido a irem pra sua casa, e se levantaram rapidamente. Nem eu nem Rê tentamos impedir, e eles saíram acenando.

Quando não estavam mais em nosso campo de visão, olhei finalmente para Rê, que bebericava seu uísque. Minha boca abriu e fechou algumas vezes, mas nenhuma frase acompanhou o movimento. Estava espantado demais pra ordenar as idéias. Rê, percebendo minha confusão, ajudou a sintetizar o que ambos pensávamos, mas que só ela teve coragem de assumir:

- Ninguém vai descobrir nada mesmo...

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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 08/03/2005
Reeditado em 05/04/2005
Código do texto: T6042
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia