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ERA UMA VEZ...

Hoje vamos conhecer uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. Não vou lhes dar o nome, pois me foi pedido encarecidamente para que não divulgasse detalhes que pudessem atrair gente. Primeiro, a população local não é muito chegada em levas de forasteiros curiosos. Gente que venha de fora, para passear ou visitar, certamente será bem recebida. Agora, se for para fofocar e bisbilhotar, ai a coisa vai pegar. Segundo, recebi telefonemas do Prefeito, do Presidente da Câmara de Vereadores e até do Sr. Padre, todos neste sentido. Terceiro, até uma moça muito simpática e bonita, moradora local, me mandou uma carta, na qual desculpou-se, mas insistiu que eventuais divulgações dos acontecimentos passados não poderiam dar nenhuma pista dos envolvidos ou do município, posto serem, hoje em dia, todos, pessoas de bem, estabelecidas na região e com famílias para cuidar. Não ia ficar bem uma eventual divulgação de seus nomes. A verdade verdadeira é que o que vai aqui ser narrado pode até ser lenda, mas por via das dúvidas é bom que de alguma maneira o caso seja registrado, até para estudos sociológicos e históricos, mesmo porque eventuais estudos histéricos já devem ter sido feitos e, portanto, desses não vamos tratar.
Mas, como dissemos, sem mais delongas, vamos conhecer o tal município e sua peculiar sucessão de acontecimentos.
Estamos na década de 50 do século XX. Estabelecido o marco temporal, não vamos dizer nem o ano nem o mês, para dificultar levantamentos e outros tipos de atitudes não combinadas préviamente. Então... nesta época, os jovens tinham poucas atividades lúdicas e ainda não havia chegado nenhum canal retransmissor de televisão na região. Era um outro Brasil, por assim dizer. Naqueles dias, o que se podia fazer era trabalhar pesado, rezar, passear em redor da praça, isto só aos domingos, e jogar bola aos sábados. Um fazendeiro local mandou roçar uma área na qual fizeram as marcas de cal e instalaram as traves. Às vezes vinha até um time de fora para duelar com os locais. Alguns destes “derbis” ficaram famosos até na Capital, não só do Estado, como também do Ceará, que é ali pertinho. Mas deles não poderemos falar, por óbvia e já explicada razão.
Voltemos ao campo. Na verdade estava em terras do já mencionado fazendeiro, portanto, um pouco longe da cidade em si. Todos os sábados a turma se reunia e caminhavam juntos até lá, para aquelas memoráveis partidas de futebol, algumas das quais até entraram para a história.
Certa manhã, Jesus (nome fictício, inventado de bate pronto, neste minuto), que era um garoto espevitado, meio magrela e mais alto do que a média, saiu mais cedo de casa do que de costume. Meio que perdeu a paciência de esperar os amigos e meio que foi na frente com a certeza de treinar tiros a gol sem ser importunado, de modo que quando os outros chegassem pudesse contar alguma vantagem. Como era também o mais velho da turma, ele levava, sempre, sua enxada muito bem afiada, para eventuais reparos que pudessem se fazer necessários no chão de terra batida daquele lugar. Jesus era o responsável por destruir os chamados morrinhos artilheiros e tapar os buracos de coruja.
Jesus chegou ao campo quase junto com os primeiros raios de sol e levou o maior susto. Tinha um cadáver na grande área, bem na marca do pênalti. Desesperou-se, gritou, pulou e esbravejou. Chegou a chutar o morto e blasfemando perguntou-lhe do porque ter ele, o morto, resolvido morrer logo ali. Será que não tinha outro lugar? Para a sua surpresa o cadáver falou: “Olha, meu filho, se me fosse dado escolher aonde morrer, certamente não seria aqui e sim nos braços de uma bela potiguar...” Jesus, a par de sua estupefação, concordou. O morto tinha razão. O sujeito, não contente em desafiar todas as leis da natureza, continuou: “Veja, a única coisa que lhe peço é um enterro decente, cristão e, tenha certeza, saberei ser grato...” Jesus perdeu a compostura: “Olhe aqui seu sei lá o que, filho do demo ou coisa que o valha, a sua sorte é que estou de bom humor, mas aqui o senhor não vai poder ficar não. Hoje tem jogo e além de ser importantíssimo, o jogo, se é que o senhor me entende, vamos ter de ficar dando explicação para todo mundo. Fora a encheção da Montada.” O morto tentou argumentar, mas Jesus estava irredutível, queria-o fora de lá. Ficaram ali, um olhando para a cara do outro até que o morto, que além de tudo não queria se identificar, teve uma idéia. “Olhe, meu filho, me enterre ali, debaixo daquela trave, na direção do poente, que eu só permitirei gol de seu time e nunca contra vocês.”
Já que tudo estava combinado, Jesus pôs-se a trabalhar para enterrar o cidadão. Fez uma cova rasa e rolou o cadáver para o buraco, tapando-o em seguida.
Quando a turma chegou, Jesus estava suado que nem sei lá o que, e mal havia fôlego para explicar que a terra fofa atrás do gol tinha a sua origem no fato de que ele teve de retirar terra daquele local pois desta feita tinha tido muito buraco de coruja para tapar. Alguns desconfiaram, outros não, e a maioria acreditou no Jesus, pela importância da partida daquele dia. Os outros acabaram se esquecendo da terra fofa no desenrolar da partida e seus gols inusitados.
Durante o jogo tudo transcorreu como fora combinado e o time do Jesus protagonizou uma sonora goleada em seu arqui-rival, do município vizinho. E assim foi durante anos. Primeiro o Jesus entrava em campo junto com seu time e depois ia lá perto daquela trave e rezava, mostrando ao defunto qual uniforme ele deveria privilegiar. Naquelas traves bola adversária não entrava e, portanto, o time só tinha que se preocupar com a defesa em metade do jogo. Em compensação, quando atacavam em direção àquele gol, tudo entrava, até pensamento e cruzamento mal feito. A bola parecia tele-guiada, se bem que, naquela época, disso nem se sabia.
Um dia, muitos anos depois, Jesus recebeu uma carta de um tio seu, chamando-o para a Capital, para ajudar no comércio que estava em expansão. Feliz da vida, sequer lembrou de seu morto predileto e se mandou no primeiro trem. Não ia perder a chance de estudar e de viver numa cidade maior, ainda por cima por ser beiramar, coisa que Jesus adora até hoje.
Os anos foram passando e os jogos de bola ficaram cada vez mais raros até que o campinho foi abandonado. Na década de setenta, ainda por cima, a televisão chegou ao local, mudando hábitos e criando novas necessidades. A cidade cresceu naquela direção e os herdeiros do fazendeiro decidiram pela construção de um núcleo de casas naquelas terras. Nas costumeiras escavações dos alicerces, encontraram a ossada e foi o maior bafafá. Teve imprensa e tudo o mais que cabe nestas ocasiões. Com o passar do tempo, somado à incompetência generalizada do poder constituído e aliado à falta de recursos adequados o caso foi esquecido e arquivado como morte sem solução. Afinal, como bem lembrou o Sr. Promotor da região, sequer se soube se se tratava de crime ou não. A ossada foi removida e, muitos anos depois, acabou numa faculdade de medicina qualquer.
Jesus, hoje, é próspero comerciante e seus netos se deliciam com as suas narrativas dos jogos, dos seus gols inusitados e dos milagres acontecidos naqueles tempos. Suas noras é que não gostam muito do “velho” enchendo a cabeça das crianças com estas estórias absurdas, de feitos heróicos e estapafúrdios. Heróicos do ponto de vista futebolístico, é claro.




Este conto foi escrito a partir de uma idéia original e valiosas contribuições de Gladys Ferreira
Ocirema Solrac
Enviado por Ocirema Solrac em 24/08/2007
Reeditado em 25/03/2010
Código do texto: T621655
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ocirema Solrac
São Roque - São Paulo - Brasil
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