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O Espelho dos Sonhos

Era uma tarde de abril, Susan abriu o envelope que estava sobre a mesinha de cabeceira de seu quarto, em frente ao velho espelho de bronze que comprara anos antes e encontrou uma longa carta escrita em letras negras e bastante expressivas. Era um detalhado relato sobre os rumos de uma vida e uma antologia de pensamentos prolíferos, sobre um mundo que, ao que parece, está em eterno movimento, mas nunca sai do lugar.
A casa, tomada pelo silêncio do pôr do sol, parecia um lugar aconchegante, por alguns instantes, esquecido pelo mundo. Apenas se podia ouvir o som do vento tocando as folhas das árvores e em algum pensamento, um sino emudecendo.
Ela olhou ao redor e pensou, pela primeira vez naquele dia, que todos aqueles móveis eram supérfluos e que a ideia de que muitas árvores haviam sido cortadas para a fabricação dos mesmos, era inefavelmente triste num mundo que a cada dia se tornava mais e mais cinza.
 “Me perdoe...”, era o que dizia na primeira linha da carta anônima. Lendo isto, ela pensou em quantas vezes não havia pedido desculpas em toda sua vida, e quantas outras não permitira que lhe pedissem perdão. Por quê? Ela se perguntava. Orgulho? Medo? Não! Talvez fosse algo mais profundo e mais simples.

 “A vida é o sol nascendo num vale deserto, onde, de manhã, as flores florescem; ao meio dia, a chuva cai; à tarde os pássaros cantam sob um arco-íris; e a noite a lua embala o mundo ao sono. E onde ficamos nós nisto tudo?”.

Boa pergunta, pensou ela, buscava coerência nestes pensamentos desconexos e ininteligíveis. Em sua mente, viu a si mesma numa praça arborizada numa tarde chuvosa de sábado. De repente, olhou no espelho que pendia à sua frente e lá estava a imagem que pensara, como se seus pensamentos estivessem sendo refletidos e, havia uma sombra ao seu lado, que segurava sua mão e olhava diretamente em seus olhos. Meneou levemente a cabeça com os olhos fechados e, ao abri-los de novo, viu que o espelho voltara a mostrar apenas a ela mesma: cabelos negros e longos, tez branca e olhos inseguros e tristes.
Desviou os olhos do espelho e prosseguiu a leitura:

 “Um espelho reflete exatamente aquilo que não somos. Todo reflexo é dúbio e sofista. No âmago de um espelho a realidade se torna uma pantomima muda, inescrutável e falaz.”.

Releu este pensamento duas vezes, incrédula. Parecia que as palavras iam sendo escritas no exato momento em que ela as lia. Olhou de soslaio para o antigo espelho de bronze, atônita e confusa. De uma hora pra outra, o universo era um imenso teatro e as galáxias, um elenco de atores mascarados.
 “A única certeza que tenho é que absolutamente nada neste mundo é perene. Tudo começa e acaba. O dia, a noite, a vida, talvez até a morte, a alegria e, também, a tristeza, mas sempre deixam seus rastros no solo de um dos vários mundos que formam nossas mentes. E no fim, toda a magia se transforma numa lágrima apóstata que cai lentamente, uma leve pluma levada pela silenciosa brisa de julho que passeia nas ruas de uma manhã fria, porém aconchegante.
Às vezes, as palavras ultrapassam todos os tipos de barreiras, às vezes, elas mesmas criam essas barreiras. Às vezes, o silêncio nos ensina que devemos escutar os sons do dia e os silenciosos ruídos da noite para aprender a viver. E, às vezes, quando, inesperadamente, a chuva cai numa tarde de sol, devemos ouvir nossos corações.”.

E quando não há nenhum som? E quando por mais alto que falem, nós não escutamos? E quando nossos corações estão calados e assustados? Ela pensava em tudo isto, sem notar que seus olhos começavam a verter algumas lágrimas.

 “Uma lembrança é igual a areia de uma ampulheta, muito lentamente ela vai nos mostrando que os segundos nunca param, estão sempre apressados, correndo um após o outro. E tanto as lembranças quanto o tempo, são imutáveis...
Certa vez olhei para o céu numa noite em que a luz do luar parecia ofuscar o brilho das estrelas, e me lembrei de você, Susan. A lua estava radiante e cheia e eu podia ouvir que o vento soava tal qual uma música andina.
São muitas as palavras que um poeta deixa de escrever. São muitas as cores com as quais um pintor deixa de pintar. São muitas as notas que um músico deixa de tocar. Mas toda a verdadeira arte parece perfeita e incompleta.”.

Susan respirou profundamente e pensou em folhas caindo de uma árvore qualquer e refletiu sobre quem poderia ser o autor daquela estranha carta. Agora os últimos raios de sol adormeciam e a lua já surgia no céu, minguante, misteriosa.

 “Neste momento, você se encontra numa estrada deserta. O caminho é longo, incerto, paradoxal. De repente, você encontra um espelho partido ao meio. Quem será a pessoa que você verá refletida nele?”.

A esta altura, ela já não estava mais certa de que veria a si mesma, ou se veria uma outra pessoa, ou mesmo se conseguiria ver algo. O mundo parara de girar, os pássaros dormiam aconchegados em algum ninho e, até mesmo o vento, havia parado de soprar. Quem lhe escrevia uma carta iniciando com um pedido de desculpas? Do que a pessoa queria que ela a perdoasse? Quem ela veria no espelho, afinal?

“Quando o mundo parar de girar, você vai ver que a aurora é mais do que um mero momento. Quando os pássaros deixarem de cantar, você vai perceber que o universo parecerá mudo. Quando o sol não mais brilhar, você vai dormir e sonhar com todas as cores, sons e movimentos que haviam lhe abandonado no fatídico momento em que aquele espelho se partiu.”.

Uma fina garoa começava a pingar sobre o telhado. A noite chorava e Susan também. Sentia-se sozinha. A última pessoa viva no mundo. Todo o silêncio da casa lhe dava a ambígua sensação de paz e vazio.

 “A vida não é um saber inteligível; efêmera, inefável. Tal qual o universo, a vida se liga a dúvidas e paradigmas subjacentes que são escritos dia após dia num livro empoeirado e difuso.”.

 E mais uma vez, só que agora em letras vermelhas: “Me perdoe...”.
 Susan já não sabia em que pensar. Realmente a vida estava muito longe de ser inteligível. Mas não era apenas a vida que ela não compreendia neste momento. Não compreendia também as lágrimas que estava chorando. Não entendia a carta em suas mãos, apenas sabia que todas aquelas palavras estavam deixando marcas indeléveis em sua alma; compondo lentamente um idílio subversivo; esculpindo uma estátua sem face; pintando um autoretrato de um eu latente e misterioso;

 “Outrora nossos pensamentos podiam se encontrar num mundo desconhecido e longínquo. Agora o silêncio perdura no horizonte de minhas noites. Talvez algumas palavras inócuas possam desfazer o mal que o dilúvio de um dia longo e cinzento causou à natureza intrínseca de nossas almas. E talvez, eu apenas possa retratar meus aforismos com um texto prolixo.”.

Não seria a própria vida um livro empoeirado e difuso? Não seríamos cada um de nós apenas um epigrama subentendido num florilégio universal? Susan sentia-se triste. Alguém a havia magoado. Quem ou como ela não sabia. Sentia-se indulgente e sentia que também precisava pedir perdão, mas não sabia a quem.
Não havia nem mesmo um epíteto que denunciasse o autor da carta. A letra, na verdade, não lhe era estranha, mas não podia associá-la a ninguém de quem se lembrasse no momento. A garoa caia um pouco mais forte agora, mas fora isso o mundo era um profundo silêncio.

 “Por diversas vezes lemos as mesmas palavras nas entrelinhas do horizonte. As árvores estão sendo desfolhadas pelo outono. Os raios de sol viajam sem um rumo determinado. A miríade de poemas que redige nossos sonhos jaz silente num livro guardado em uma gaveta. E eu, absorto neste momento, observo o sol nascer. Um novo dia, na mesma vida, mas quem sabe os novos raios de sol tragam uma filosofia inextricável para o mundo.”.

A sentença que encerrava a carta dizia simplesmente: “Me perdoe Susan...”. Ela fechou os olhos e, subitamente, a sombra que havia nascido na imagem do espelho surgira nitidamente em sua mente. Um rapaz de cabelos negros e longos que lhe caiam sobre o rosto, dando-lhe um ar tristonho, algumas lágrimas lhe corriam pelas faces. Susan, naquele instante, pensou sobre a odisséia de sua alma; refletiu longa e profundamente sobre tudo que passara em todos os anos de sua vida. Caminhou até a janela e viu um pequeno fragmento da lua minguando em meios às nuvens. O mundo parecia incerto, a vida infinda, a sabedoria um poço, no qual ela mergulhara há muitos anos. As palavras e as lembranças se fundiam num caleidoscópio utópico e ela sentia-se capaz de indultar todo o universo.
Em algum lugar, quem sabe do outro lado do mundo, os pássaros já cantavam e a vida voltava a florescer. Susan fechara a janela e apagara a luz do quarto, deitando-se preguiçosamente em sua cama. Todos os versos daquele estranho bilhete fixaram-se em seus pensamentos. A vida não era um saber inteligível. O universo era um quadro pintado ao léu. Todo espelho reflete apenas a sombra de um mundo desconhecido e longínquo. E tudo que era real, naquele instante, não passava de um sonho...

Elton Veloso da Silva
Enviado por Elton Veloso da Silva em 25/08/2007
Reeditado em 21/06/2013
Código do texto: T623526
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Elton Veloso da Silva
Pedreira - São Paulo - Brasil, 30 anos
110 textos (7075 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/08/17 12:52)
Elton Veloso da Silva