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Supremo Tribunal da Consciência

                             


- Está aberta a sessão deste tribunal.
A voz do serventuário da justiça ecoou forte quebrando o silêncio da sala do júri.
O meritíssimo juiz emendou logo a seguir:
- Que o réu se levante para ouvir a sentença.
Um sujeito de terno e gravata do meu lado me cutucou e disse em voz baixa:
 - Levante-se, Sr Da Silva. Não ouviu o Juiz?
Levantei-me num impulso, meio atordoado, como saído de um sono profundo.
O juiz prosseguiu.
- O réu foi considerado culpado de todas as acusações e  deve levar pena máxima prevista pela lei.
- Como culpado? De que estou sendo acusado?
Falei mais para mim, ainda envolto em surpresa.
- Senhor advogado de defesa (disse o juiz), queira me fazer a gentileza de refrescar a memória de seu cliente que parece estar acometido de súbito e conveniente surto amnésico.
O sujeito de terno e gravata ao meu lado me puxou pela manga da camisa e me disse em tom irritado:
Sr José da Silva, se continuar com esta atitude vai complicar muito sua situação.
- Mas é verdade. Não sei o que está se passando. Que tribunal é este?  De que sou acusado? Pelo amor de Deus me ajude.
O advogado de defesa parece ter sentido sinceridade na minha fala. Chamou o advogado de acusação e ambos se aproximaram do meritíssimo Sr Juiz e confabularam por um breve tempo. Ouvi quando disse:
- Sr Juiz tenho razões para crer que algo de grave se passa com meu cliente, sugiro um breve recesso para tomarmos pé da situação.
- Se o advogado de acusação não se opor ... (começou o Juiz).
- Nada contra, meritíssimo, visto a gravidade da acusação e da natureza deste tribunal temos que deixar prevalecer mais do que nunca o amplo direto de defesa.
O Juiz enunciou com voz solene.
- Este tribunal entra em recesso por quinze minutos.
Numa saleta ao lado da sala do tribunal, meu advogado de defesa foi logo ao ponto.
- O que está pegando, Sr Da Silva, vai fraquejar logo agora?
- Não é nada disso, me explique esta história toda deste o inicio.
- O.k. (começou meu advogado pacientemente), Durante todos estes anos você vem acusando a justiça de morosa, burocrática e até corrupta às vezes, se lembra?
- Claro, é isto mesmo que acredito e venho combatendo.
- Pois então, a sua propositura de uma justiça rápida e sumária foi aceita e é isto que está em julgamento. Você está tendo a oportunidade de defender sua posição para a criação STC - RS, que é o Supremo Tribunal da Consciência de Rito Sumário. Você está tendo a honra de ser o primeiro réu do novo sistema e a oportunidade de provar que sua tese é viável.
- Mas logo eu tenho que ser o primeiro réu? Qual a acusação que pesa sobre mim?
- Há de convir que alguém tem que ser o primeiro e nada mais justo que quem teve uma idéia tão luminosa tenha também o direito de colocá-la à prova. Quanto às acusações você vai ter que ouvi-las no tribunal. Segundo esta nova proposta todo homem é culpado até que possa provar sua inocência, mas vamos que o recesso terminou.
O Juiz pediu ao relator que lesse de novo as acusações que pesavam sobre mim, lembrando antes que minha própria memória seria minha testemunha de defesa e acusação quando fosse projetada pelo Psicoprojetor sobre a tela gigante que ficava ao fundo da sala.
- O réu é acusado e fazer acusações insistentes e sem provas contra a justiça dos homens.
- O réu é acusado de declarar como culpados, homens corruptos, antes que a justiça dos homens tenha transitado em julgado.
- O réu é acusado de não ter puxado saco de ninguém e de não ter se aproveitado das oportunidades de se beneficiar pessoalmente, quando elas passaram como um cavalo arriado à sua frente.
- O réu é acusado de silenciar muitas vezes quando atos indevidos, degradantes e quando ações de corrupção ativa e passiva lhe chegavam de forma privilegiada aos ouvidos.
Enquanto o relator lia as acusações as imagens da minha memória, projetadas no telão gigante não me deixavam mentir. Lá estava tudo detalhado e gravado para posteriores recursos e para registro da Consciência Coletiva com vista ao Julgamento Derradeiro.
Após a leitura das provas dos autos o Juiz perguntou em alto e bom tom:
- O réu se declara culpado ao inocente das acusações?  Lembre-se que sua declaração vai ser considerada a sentença definitiva deste tribunal e que está em jogo a propositura principal para a criação deste tribunal especial.
Longos segundos se passaram enquanto, mentalmente eu repassava os fatos e avaliava as circunstâncias que redundaram naquele julgamento.
- Eu me declaro culpado de todas a acusações, meritíssimo, e peço a pena máxima.
- De acordo com as provas dos autos e como manda minha consciência declaro o réu, Sr José da Silva, culpado de todas as acusações que pesam sobre ele e determino como penalidade e como manda lei que ele seja condenado a vagar por entre linhas, papeis e teclados de computador, e dedicar sua vida a provar sua inocência. Declaro também que está inaugurado e em pleno exercício o Supremo Tribunal da Consciência e Rito Sumário. Tenho dito e cumpra-se.

João Drummond













João Drummond
Enviado por João Drummond em 27/08/2007
Reeditado em 27/08/2007
Código do texto: T626244
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Sobre o autor
João Drummond
Sete Lagoas - Minas Gerais - Brasil, 64 anos
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João Drummond