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O dia em que o veado quis me dar o rabo.

Final de expediente eu sai do trabalho cheio de presa, segunda feira horário de verão já se passavam oito da noite e o calor insuportável de Campo Grande escorria pelo pescoço do povo que transitava no sentido contrário. Apresei o passo e ensaiei pegar na mochila o horário dos ônibus herdado do meu ultimo namoro, alias a maior contribuição da minha ex-namorada para minha vida foi me presentear com os horários dos coletivos que eu posso embarcar.
Tchau para o patrão sem pedir carona, vou pegar o baú ali na Afonso Penna assim leio o meu livro sem nenhum problema, prefiro o coletivo a um carro, primeiro por não saber dirigir segundo pois no ônibus posso ler sem nenhuma interrupção. Conferir o horário do ônibus ficou mesmo no ensaio, pois ao virar da Paraíba para a Afonso Penna avistei o cata pobre que fez que nem me viu correr e disparou quando eu batia na lateral gritando desesperado para que o motorista parasse.
Perdi a merda do baú derretendo por todos os poros, minha mochila grudava nas mangas da camisa enquanto tentava aliviar o suor no canto dos olhos com uma seda que peguei no porta guardanapo do Pastel D’ouro, aquele que o vento não leva. Abandonei a pressa vou descer até a Ruy Barbosa e pensar na minha vida, refletir sobre o ralo que levei do patrão por ter faltado duas vezes seguidas, na sexta estava de porre e deprimido me atei ao sofá e fiquei o resto do dia dormindo. O sábado amanheceu tarde quando dei por mim já não havia chance de chegar, justifiquei minha falta com a boa e velha monografia, fantasma este que me alucina.
Rumo ao ponto passei pelo SESC, ali na frente tinha um japonês com olhar desconfiado, olhar de velhinha olhando pra preto morrendo de medo do assalto. Vai saber o que ele pensava, segui em frente na ginga do meu andar cantarolando um samba que se tornou minha marcha. “Ouvi vi minha nega, como venho quando posso, na boca as mesmas palavras no peito o mesmo remorso...” Passando a pensar nas diversas negas sem um ombro amigo para poder desabafar, sem um afago com que possam contar.
Deixei de besteira e me coloquei à andar mais depressa, quando chegava na praça do Rádio Clube vi na calçada um tipo exótico tiozão aparentando uns quarenta anos com rabinho de cavalo montado numa Falcon. Reconheci na hora era um diretor de teatro medíocre que ministrava também cursos para aspirantes a atores e alguns descolados que vagam desocupados gastando a grana dos pais em algum lugar que possam fumar maconha para executar os trabalhos.
Cumprimentei a figura com toda a educação e ele olhando com um olhar de gavião me chamou apressado, vem cá garoto vem cá, viche essa minha educação exagerado me fudeu de novo. O veado veio cheio que guére guére, na hora que disse que o conhecia ele mentiu que também me conhecia, o filho da mãe nem mesmo se lembrava de quem eu era, mesmo assim dei corda e emendei na lata minha namorada fez um curso no seu ateliê.
A ex voltou a viver, ele porém se mostrou indiferente e insistiu perguntando se eu não gostaria de uma carona, muito obrigado mais tenho de ir na casa de um amigo logo ali na Candido Mariano ele me espera para fumarmos um beck. Automaticamente o veado enxergou a brecha e disparou fuma um comigo, eu perguntei se ele tinha ali e ele disse que ali não mais depois me levaria na casa de meu amigo. Estranhei a pergunta tendo ali a certeza de que ele queria mesmo era dar o jiló, desculpe mais não vou poder lhe acompanhar sou de cumprir os compromissos com os amigos.
Insistiu mais algumas vezes mas percebeu minha indiferença diante dos seus apelos, não tirava os olhos do meu pau nenhum segundo. Um veado no cio com o cuzinho piscando de vontade de dar é a pior coisa que já vi, pior mesmo que uma ninfomania. Não que eu já tenha me deparado com alguma, mas me diga qual mulher não é? Qual mulher resiste a um homem que não para de fornicar?
Virei as costas e me despedi ao perceber que o veado já se desesperava em sua entonação, atravessei a praça do Rádio e fui pela Barão até o ponto na esquina com a Ruy Barbosa. Nem bem parei no ponto avistei o coletivo que não estava cheio para o meu deleite, apenas uma meia dúzia de mulheres de meia idade. Tirei um cochilo no distante percurso do centro até a Santa Carmélia com direito a uma demorada passada pelo Bairro São Francisco.
 Cheguei em casa e fui direto tomar um banho, depois fui desesperadamente devorar a janta, minha mãe que assistia a novela das oito pedia que fosse mais devagar, mas na verdade minha vontade era voar comer o mais rápido possível para enfim poder digitar mensagens de amor a minha amada. Pena ela ainda não saber um dia mando um email que não seja anônimo e que demore mais a chegar, quero gerar a expectativa que a internet me roubou.
Meu quarto ainda mais quente que toda a casa faz com que meu peito batesse acelerado, tenho que tomar outro banho já estou na frente do monitor descascando. Prefiro o carinho da minha mão ao menos não tem nenhuma doença nem frescura alguma, se lambuza toda e não reclama tai descobri o que é melhor para mim, casarei com a minha mão só ela há de me fazer feliz. Bem melhor que comer rabo de veado.
Marco Cardoso
Enviado por Marco Cardoso em 25/10/2005
Código do texto: T63207
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Sobre o autor
Marco Cardoso
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil
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Marco Cardoso