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Contagem Regressiva

Tadeu acaba de chegar de viagem. Quando tira a chave da ignição se sente tão bem de ter chegado em casa, que permanece no mesmo lugar. Até que no final das contas, o carrinho agüentou bem. Foi bom ter seguido os conselhos do pai e feito a revisão.
Dois minutos de contemplação ao vazio foram suficientes. Saiu do carro, levantou a porta do bagageiro e pegou sua mochila de camping. Largou-a em cima da cama, pegou uma toalha limpa no armário, retirou a nécessaire e foi para o banho.
Miriam foi um doce. Era o que dizia a si mesmo, enquanto ensaboava a cabeça. Estavam juntos fazia duas semanas e aquela viagem improvisada foi, sem dúvidas, um elixir para a relação. O Vítor, amigo de anos do Tadeu, virou para os dois na sexta, no boteco, depois do trabalho, e perguntou:
— Que tal vocês dois irem comigo e a Dione pra praia? A gente vai passar o final de semana na casa do primo dela...
Toparam. Os dois.
Ao sair do banho e abrir a gaveta atrás de uma lâmina nova, ele encontra um pacote de viagra. Droga... Merda... pensa. Meu pai fez de novo!...
Já não era a primeira vez. O pai de Tadeu, seu Agenor, há anos dizia para o filho ter inveja dele. Pois o filho tem uma casa que ele jamais conseguiria comprar em sua vida, principalmente depois do divórcio, porque a mãe de Tadeu, dona Lúcia, devora, palavras de seu Agenor, todo o seu dinheiro.
Um dia, voltando de um feriado prolongado, Tadeu encontra duas camisinhas amarradas jogadas no lixo do banheiro e os envelopinhos rasgados no criado-mudo do quarto. Achou estranho, mas antes de pensar na polícia, resolveu perguntar para o Caio, seu irmão, se não havia sido ele. Quando este disse que havia sido o pai deles, Tadeu decidiu que na próxima vez teria que ter uma conversa muito séria com o velho. Deixou passar, nem comentou com seu Agenor, apenas ficou interpelando o Caio para tentar descobrir um pouco mais sobre a nova namorada do seu Agenor.
Ao ver o viagra, não hesitou, jogou a cartela inteira no lixo do banheiro. Foi para o quarto, desfez a mochila, guardando o que não havia sido usado, colocou o mesmo pijama da viagem e levou o restante das roupas para a área de serviço.
Quando passou pela cozinha, na volta, seu estômago o lembrou de que estava com fome. Abriu a geladeira e viu uma lata de atum aberta, maionese, um pouco da sopa de sexta, leite, ovos, margarina e algumas poucas frutas e verduras. Pegou o atum, e ao sentir o cheiro ficou incomodado, acabando por jogar a latinha no lixo da pia. Cheirou a sopa e percebeu que dava ainda para comê-la. Apanhou a panela, colocou no fogo e dali uns minutos estava sentado diante da televisão com um pedaço de pão caseiro, que sua mãe fizera e que mesmo depois de dois dias continuam fresquinhos, e um prato cheio de sopa de feijão com macarrão.
Amália chegou por volta das seis da manhã, e como toda segunda-feira foi primeiro se arrumar. Tirou a roupa nova e colocou uma mais velhinha. Pôs a mesa, esquentou o leite e fez café. Foi até a padaria na esquina e comprou três pães franceses, um para ela, que comeu junto com um copo, desses de geléia, cheio até quase a boca de café, quer dizer, metade era açúcar.
Tadeu acordou, passou no banheiro e se arrumou. Foi até a cozinha, disse bom dia para Amália e ouviu, enquanto tomava o seu café-da-manhã, que precisava comprar algumas coisas no supermercado, porque a despensa estava começando a ficar vazia. Ele, então, deixou dinheiro com ela e seguiu para o seu trabalho.
Amália arrumou a casa como de costume, inclusive ao tirar o lixo. Ela pegou um saco preto e colocou todos os lixos dentro, depois levou para a árvore que fica em frente à casa, já que toda segunda e quinta o caminhão de lixo passa.
Um gato cinzento sente o cheiro do atum e resolve se aproximar do saco de lixo para tentar descobrir onde estaria a deliciosa guloseima. Com as garras, ele abre uma pequena fenda e consegue se lambuzar com o peixe.
Momentos depois, uma imensa ratazana se aproxima do mesmo saco preto de lixo, mas ao contrário do gato, o que lhe chama a atenção são pequenas pílulas azuis que ela abocanha rápido e sai correndo porque o lixeiro acaba de chegar.
Ricardo chega cansado do trabalho. Aline, sua esposa, sai do carro, lhe dá um beijo e vai até a cozinha ver se prepara algo para eles comerem. Duque sai correndo, abanando o rabinho e mostrando a seu dono o que ele havia acabado de pegar. Ricardo se assusta. Na boca de Duque, uma imensa ratazana morta. Ele pega um saco plástico e retira o bicho da boca de seu animalzinho, e depois o enrola em jornal. Por último, coloca em outro saco plástico e joga no imenso latão que eles compraram há alguns meses para acomodar melhor o lixo.
Ricardo abre a porta da despensa, apanha um pote de veneno de rato, mas antes que ele pudesse começar a distribuir, ouve um berro de sua esposa chamando pelo Duque. Com o susto, ele devolve o pote aberto no armário e vai correndo ver o que era que estava acontecendo.
Duque estava puxando a toalha da mesa e mesmo Aline ameaçando-o com o chinelo, ele não parava. Mas, bastou chegar o Ricardo que o cão largou a toalha, se deitou de bruços no chão e ficou olhando de soslaio para os seus donos. Ricardo e Aline não conseguiram ficar mais bravos e começaram a rir.
— Amor, talvez ele esteja com fome e por isso esteja chamando a atenção. Acho melhor pegar a ração dele.
Ricardo foi até a despensa e ao pegar o pacote de ração não percebeu que este derrubara o pote de veneno recém-aberto no chão.
Os dois jantaram e resolveram ir namorar na sala assistindo a um bom filme. Amanhã, antes de sair, Ricardo lavaria a louça.
Duque, expulso da sala para que seus donos ficassem mais a vontade, foi fuçar a redondeza. Seu focinho captou algo novo, no chão da despensa, e como precisava testar o paladar daquela coisa diferente, abocanhou um bom bocado do veneno.
No dia seguinte, Amália preparou o café de Tadeu como sempre. Ele acordou sossegado. No dia anterior conversou com Caio e descobriu algumas informações adicionais acerca da namorada do seu Agenor. O irmão ainda não a conhecia, mas como passava mais tempo com o pai, disfarçadamente conseguia obter algumas informações preciosas.
Depois do café, apanhou a pasta, as chaves do carro e foi para o trabalho.
Ricardo levou mais um susto com Duque. Dessa vez, ao vê-lo no chão da cozinha, deitado, tremendo e com uma poça de vômito ao lado dele. Pegou alguns panos, forrou uma caixa e colocou o bichinho dentro. Apanhou as chaves do carro e nem esperou mais, foi correndo levar Duque ao veterinário.
Jeremias estava atrasado. Quando viu o gato cinzento atravessar a rua na sua frente, só deu tempo de apertar o freio. Porém, como o carro estava em alta velocidade, acabou derrapando e ficando atravessado no meio da pista.
Tadeu conseguiu frear a tempo. O carro ficou a apenas alguns centímetros do de Jeremias. Retirou o cinto pra sair e ver o que estava acontecendo, mas não deu tempo. Seu corpo foi arremessado contra o pára-brisa e sua cabeça ficou extremamente ferida. Os paramédicos não conseguiram chegar a tempo. Tadeu já havia falecido.
Ricardo ainda estava psicologicamente catatônico. Duque não agüentou a viagem. Estava morto no banco de trás. E a frente do seu veículo completamente amassada. O freio não funcionou e ele agora se sentiria culpado o resto da vida pela morte do cachorro e de um estranho.
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 25/10/2005
Código do texto: T63293
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Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
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