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CONTOS INSÓLITOS E DUVIDOSOS II

 

 

 

Sinhá Clara.

 

 

 

Não sei por que ela se chamava “Sinhá Clara”, mas a verdade é que ela de tão preta que era chegava até a luzir.

Ela era naturalmente e evidentemente muito afro-descendente, com todas aquelas características místicas, assim como todas as negras benzedeiras dessa região.

Sinhá Clara tinha os olhos rajados, tipo jabuticaba, e nós tínhamos medo de encará-la, pois parecia querer nos devorar só com uma olhada.

Ela não tinha uma profissão normal, a não ser a de doméstica, eu acho que ela vivia tão somente das suas benzeduras, pois era muito procurada e acertada, assim diziam os crédulos.

Aqui na minha terra é um local de tempestades violentas, com trovões e raios daqueles que se bifurcam enraizados, e que caem ao mesmo tempo em todos os lugares, causando sérios prejuízos e até perdas de vidas.

Quando se armava uma tempestade dessas, pois ela sempre se armava no oeste com uma cor de azul arroxeado escuro, coisas de fim do mundo.

Prontamente a Sinhá Clara com uma palha de butiá, um ramo santo do domingo de ramos, ela se postava na frente da sua casa, numa pracinha que lá existia e, de lá, ela benzia a ameaçadora tempestade.

Em questões de alguns poucos minutos, a tempestade se desmanchava como se fosse atingida por um vento forte e simplesmente se diluía para o lado leste do oceano.

Essa Negra era perigosa e forte.

Diziam que ela fazia o sino da Igreja Matriz, que distava de sua casa a uns cinqüenta metros, bater somente com as suas rezas.

Virgem Nossa Senhora, essa Negra era medonha!

 

Bom, o meu avô não gostava da Sinhá Clara, dizia que ela tinha parte com o “demo”.

Um dia o meu avô castrou um porco e bichou, o animal já estava deitado para morrer com aquela infecção na traseira, pois não comia mais há dias.

A minha avó com pena do animal, contrariando o meu avô, foi até a Sinhá Clara pedir para fazer umas rezas, a benzedura.

A Sinhá Clara, por sua vez, que também não gostava do meu avô disse:

-Agora eu vou mostrar para o Sr. Custódio, daqui mesmo, quem é a Sinhá Clara, e ele vai acreditar nas minhas benzeduras.

Na mesma hora em que a Negra Clara estava resmungando as suas preces, os bichos caíram mortos do escroto do porco.

Em ato continuo, o animal levantou-se trocando as pernas, e foi comer na gamela como se nada lhe tivesse acontecido.

O meu avô presenciou tudo, se benzeu, tirou o chapéu meio pasmo e como querendo agradecer o dito milagre e, desse momento em diante, ficou com mais medo ainda da Sinhá Clara.

Ele só dizia que a Sinhá Clara tinha poderes, mas não era mais do “demo”.

Acredite se quiser!

 

 

 

 

 

 

 

 

Eráclito Alírio da silveira
Enviado por Eráclito Alírio da silveira em 02/09/2007
Reeditado em 25/09/2007
Código do texto: T635372
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Sobre o autor
Eráclito Alírio da silveira
Imaruí - Santa Catarina - Brasil, 75 anos
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Eráclito Alírio da silveira