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A Última Caçada

Severino apanhou sua espingarda atrás da porta. De hoje o vira-lata não passa. A noite está estrelada, com algumas poucas nuvens. As casas ao lado do cemitério já se encontram com as luzes apagadas. “Filho da mãe!”. O cemitério está extremamente silencioso. Ainda não há nenhum sinal do vira-lata. Algumas folhas caem. É uma noite fria. Dione pediu a Severino que esquecesse a história, afinal era só um cachorro. Bastava enterrar de novo e pronto. Mas Severino insistia, queria pegar o animal. Pelo menos nas tumbas ele não mexia, afinal não tinha força e nem como fazer isso. Só cavocava o jardim e tirava o corpo rasgando as roupas dos cadáveres.
Severino sentou-se embaixo do cajuzeiro de onde podia se ver quase todo o jardim. Com a aba do chapéu bem levantada não desgrudou os olhos um minuto sequer. Sua Emengarda ficou a mão o tempo inteiro. Um zelador não podia deixar um cachorro de rua qualquer fazê-lo de bobo.
Nesta noite, o cão não apareceu. Severino acha que o bicho é bem esperto. Deve tê-lo visto e por isso não veio. “Um dia, esse cão vai ver, com certeza”.
Adriana e as amigas estão saindo da boate. Ela está toda empolgada. Júnior teve que ir embora mais cedo, mas finalmente ele percebeu que ela existia. Cristina diz que ela agora tem que dar uma de difícil, senão vai acabar perdendo o cara. Já Aline diz que o melhor a fazer é aproveitar, “afinal, homem está tão difícil...”. Denise só ria. “Difícil pra ela que é feia...” Ria e pensava no Gustavo. “Como dança bem!”
— Vem comigo Adri, eu te deixo em casa!
É o Thiago. Cristina, morta de ciúmes, apanha as chaves do carro na bolsa e puxa Aline pelo braço.
— Deixa ela ir com ele...
— Nada a ver, é só meu amigo...
— Não sei por que ainda tenta explicar, Adri. E se não fosse, o que é que ela tem com isso?
— É que é chato...
— Vai lá, aproveita a carona do seu amigo. Eu vou com meu primo, mesmo. Garanto que vai estar em melhor companhia.
Adriana e Thiago se conhecem há três anos e desde então são amigos inseparáveis.
— Finalmente, heim, gatinha!
— Ai, nem acredito.
— E eu pensei que ele fosse um bundão... Não, era cegueira mesmo. Precisava de um empurrãozinho.
— Nem sei como te agradecer. Muito obrigada, Guinho. Vou ficar te devendo essa.
— Que isso, você já fez tanto, esquece!
— E a Cris, heim?
— Você sabe que é difícil, né. Eu gosto dela, mas eu não consigo esquecer a Jú. Ficar com ela é fácil, mas um relacionamento... ainda é muito complicado pra mim.
— Mas já faz seis meses. Tá na hora de você sair dessa, tentar de novo.
— Vamos mudar de assunto, vamos? Que tal o seu aniversário sábado que vem?
— Sabe, eu tava pensando em fazer lá em casa mesmo. Assim eu chamo só umas poucas pessoas. É mais tranqüilo.
— 18 aninhos... Cuidado, heim, já pode ser presa agora.
— Bobo! ... ui...
— Que foi?
— Esse cemitério. Ele me dá arrepios. O pior é que eu tenho que passar por ele quase todo dia.
— Qual é!? Eu tenho mais medo dos vivos. Os mortos já estão bem enterradinhos, não podem fazer mais nada.
— Cuidado!!!!!!!!!!!
Não deu tempo de avisar. O carro de Thiago foi parar em baixo da carroceria do caminhão que voltava de ré sem a luz acesa. Thiago está na UTI. O tio de Adriana colocou no jornal anunciando que o velório e o enterro da sobrinha será nesta quinta-feira às seis da tarde.
Severino acordou faz pouco tempo e pode ver quando o caixão de Adriana, dezessete anos, foi colocado na cova. “Pobre menina!”. “É a vida!”.
Severino novamente pegou sua Emengarda, companheira velha de guerra. Nos seus tempos de juventude já caçou muito tatu e preá com ela. O vira-lata não engana o zelador esta noite, se depender dele. Esconde-se atrás de uma das tumbas e pra não afastar o bicho, fica em completo silêncio, apenas com seu ouvido bem atento a qualquer ruído.
O zelador deve ter ficado umas cinco horas naquela posição acompanhando as luzes se apagando e o vento calmamente tomar conta do cemitério. Já fazia alguns dias que o cão não aparecia. Com certeza deve tê-lo visto no cajuzeiro. Severino se lembra da primeira vez, quando no fim da noite, em seu passeio de rotina, viu algo grande largado no meio do jardim. Quando se aproximou mais viu o corpo de uma moça com a roupa toda rasgada e sua cova aberta. O pior é que o cachorro atacou mais umas seis, sete vezes. Severino dava tudo pra pôr a mão no desgraçado.
Um barulho vindo do jardim chama a atenção do zelador que aos poucos se levanta, apanha a Emengarda e vai à caça como nos velhos tempos.
Agachado sobre o corpo de Adriana, está um homem, de cerca de seus trinta e poucos anos, roupas pretas, unhas sujas de terra, com uma pá ao lado. Baba de contentamento ao mesmo tempo em que retira o pênis pra fora e com movimentos fortes arromba o cadáver.
Só deu tempo de ouvir o tiro.
No dia seguinte um jornaleco policial dava a notícia: “Cadáver de menina virgem é estuprada e zelador do cemitério que tentou impedir o meliante é morto com um tiro no peito.”
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 26/10/2005
Código do texto: T63806
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Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
21 textos (1713 leituras)
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David Scortecci