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Diante de uma Lápide

Aqui estou eu, agachado diante da lápide de minha esposa. Por que faz isso? Que prazer misterioso é esse? Destrói nossa vida de uma hora pra outra apenas pra satisfazer seu ego pessoal, ou porque outro disse ser melhor. Melhor, pra quê? Pra quem? Você nos cria, gera amores e felicidades, e depois, mata, cria traumas, brigas e confusões. Aqui estou eu, agachado diante da lápide de uma mulher a quem amo sem jamais ter vivido uma história com ela. Segundo minhas lembranças, nesse momento minha filha de três anos está com a minha irmã para que ela não sofra a perda da mãe. Só que você, meu Criador, se esqueceu de sequer narrar um único momento com minha filha. Não conheço seu rosto, apesar de minha memória, ou o que quer que seja, me lembrar de momentos alegres, como o seu nascimento, das brincadeiras e das garupas. Sei de minha irmã apenas pelo fato de que está com minha filha. Faz de minha vida o que bem quer. Quem é você? Deus? Ou seria um Demônio insaciável pela destruição e sofrimento. Gera novas vidas, mundos inteiros onde as leis da física, que desconheço, pois não pertencem a esse mundo, são modificadas a seu bel prazer, para depois destruir tudo. Minha esposa, a quem amo, está morta. Sei do que é capaz. Sei que pode com algumas poucas palavras trazê-la à vida. Mas sei também que se isso fizer transformará essa narração em terror. Fará com que ela me mate, ou que eu tenha que tentar salvar a vida de minha filha. Você me matará, mas pelo menos deixará minha filha viva. Não é conveniente matar uma menina de três anos, apesar de saber que você mataria até um milhão se preciso fosse pra te agradar. Com a morte dos pais, você criará um trauma nessa criança e minha irmã terá dificuldades em criá-la. Ou não? É você quem decide, não é? Você pode simplesmente fazer com que eu acorde agora e me depare com minha mulher dormindo tranqüila ao lado e minha filha abraçada a um urso de pelúcia em sua cama. Mas, você tem um senso sádico que me assusta. O acordar pode ser o dormir, pois poderei acordar de novo e descobrir que o que estou vivendo é real. Ou nesse acordar, apesar de parecer tudo tranqüilo minha família pode estar morta e eu não perceber. Ladrões podem entrar a qualquer momento e fazê-los de refém. Cães podem se transformar em animais selvagens, devoradores de carne humana. O mundo em que vivo, ou fui impulsionado a acreditar que vivo, é real pra mim, mas sei que é irreal a partir de um ponto de vista que não é o meu, mas que jamais por senso poderia eu saber. Um olhar que é maior do que essas palavras aqui colocadas. Aqui estou eu, nesse cemitério que já deve ter sido palco de histórias tristes ou pavorosas. Ou nunca existiu e só está aqui de cenário para as minhas indagações diante da lápide da mulher que mais amei em toda a minha vida. Que vida? Mas, que vida? Onde eu comecei? Há vinte e oito anos atrás numa cidade do interior, onde cresci, tive amigos com quem joguei muita bola e brinquei muito de pega e de esconde? Ou na hora que conheci essa pessoa maravilhosa que jaz aqui na minha frente e que linda entrou de branco na capela de meu bairro? Ou foi quando nasceu minha filha, um anjo que adora brincar e que não merece estar passando por tudo isso? Será loucura? Esse vazio, essa angústia, essa saudade, essa vontade de morrer, por algo que não existiu? Mas ao mesmo tempo o desejo de proteger minha filha que não tem culpa do que aconteceu, mas que eu não conheço o rosto. Isso é normal? Será neurose por causa da perda? Minha mente vagueia por sentimentos que pra mim são novos, mas que me dizem não serem, por ter vivido a morte de minha mãe há um ano. Ela que me deu a vida, ou não? Volto à mesma pergunta. Onde começou minha vida? Nas minhas memórias? No que dela sei? No que dela reconheço? Ou foi onde tudo isso começou? Aqui estou eu agachado diante da lápide de minha esposa. Já nasci sofrendo. Minha esposa sequer existe. Minha filha e minha irmã são recortes de minha memória, são menções. O dia é claro, mas bem que poderia ser escuro. Combinaria mais com minha angústia, com essa agonia, com essa dor. Nada sou, senão um marionete nas mãos de um Deus Demônio que cria pra destruir. Sou personagem de uma narrativa que só vai acabar quando o escritor quiser. Esse pode prolongar minha agonia até a morte ou criar fatos e sentimentos que me tirem desse vazio. Pode até terminar aqui e eu virarei mais uma personagem entre tantas que perderam seus amores e não interessa a ninguém a maneira com se livraram da dor. E continuarei num ciclo vicioso a repetir minhas indagações, meus desejos e raivas pra mais um leitor me conhecer, ler e dizer qualquer coisa e me largar aqui às voltas com tudo isso, sempre. Aqui estou eu, agachado diante da lápide de minha esposa, vazio, agonizando em dor. E você... Irônico, pois até a minha voz, até as minhas indagações não me pertencem, não são minhas. É alguém que as escreve, é alguém que diz e ainda me faz acreditar que não. Aqui estou eu...
— Que há com o Júlio, hoje?
— Não faço a menor idéia. Ele está agachado diante daquela pedra já faz mais de horas.
— Deram o calmante dele?
— O doutor Paulo disse pra deixá-lo sem, hoje, pra podermos ter uma noção exata do quanto ele melhorou.
— Pelo visto, ele continua do mesmo jeito. E olha que isso já faz seis anos! Sabe, Oscar, às vezes eu ponho em dúvida se o melhor lugar para um louco é mesmo o hospício.
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 26/10/2005
Código do texto: T63807
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Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
21 textos (1713 leituras)
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