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O tio. Ou fábula à la Truman Capote

Rui foi meu calouro. Quando se formou tres anos depois, tomou rumo diferente do meu. Ingressou na Marinha Mercante e até onde soube, era um brilhante oficial.
Quase cinco anos depois recebo um telefonema dele dizendo que estava em Presidente Prudente e implorava que lhe emprestasse dinheiro para pagar o avião pro Rio. Antes que eu me refizesse da surpresa ele me contou que estava lá pra comprar cocaina e levou um "toco" . Agora os ladrões-traficantes queriam matá-lo. Seu tio, irmão mais novo de sua mãe, havia dado um "cambeque" nestes mesmos caras tempos atrás.
 - Agora sei porque ele me mandou fazer essa "transa"! Ele quer que eu morra!- A voz exasperada de Rui infiltrava medo em  meu cérebro.
 - Rui, não sei do que estás falando -respondi- e também não é a mim que tu tens que pedir dinheiro! Cadê tua familia, tua mulher?
 - Mas é isso, pô! Ele tá afim da Márcia!! Nunca desconfiei quando estava viajando e ele sempre foi muito prestativo, especialmente quando ela ficou grávida do Nandinho. Ando desconfiado que ele "tá comendo" ela!
De repente ouço um urro abafado, alguns soluços e então Rui desaba em choro. Não conheço ninguém que saiba a resposta certa pra uma hora destas. Lembro de minha respiração ficar descompassada e meus pelos eriçarem. O ar pesado de uma tragédia já anunciada, me envolvia.
 - Calma. Calma. - ouvia as palavras sendo ditas por mim basbacamente.
Resumindo; entre soluços Rui desabafou. Desde a aproximação do tio com eles e as primeiras apresentações aos lugares e noites glamourosas do Rio de Janeiro. O ínicio das primeiras drogas em meio ao beautiful people carioca até a cafungada à três, que virou rotina.
O tio de Rui tinha ligação com Livinho Bruni, filho de famosos e famosíssimo traficante,  daí Rui estar levando cocaina pra cidade do Porto ou Roterdam foi consequencia imediata.
Certa vez, Rui trouxe uma semi-metralhadora, encomendada pelo tio. Livinho queria experimentá-la. Com mais um amigo, foram os quatro na Mercedes dele para o Recreio dos Bandeirantes. Quase chegando lá, Livinho viu um mendigo urinando perto de um muro. Ele parou o carro a cerca de cinquenta metros do mendigo e o abateu com uma rajada de tiros.
 - Gasta muita azeitona!- deu meia volta. O teste tinha sido feito.
Rui e a mulher se tornaram dependentes da coca e do tio. Devido ao seu comportamento, Rui perdeu o emprego e sua fama se espalhou. Não conseguia mais emprego e começou a sofrer chantagens de alguns policiais, ao mesmo tempo que virava "mula" do tio.
Rui não notou quando sua mulher começou a traí-lo com o tio. Talvez por sobrevivência. O tio tinha dinheiro, dois carros, apartamentos. O desprezo que ele tinha pelo sobrinho viciado e o estranho modo que ele a tratava sexualmente quando ela necessitava de  sua "paz", o tornava charmoso à obtusa visão dela.
A regra de Marcia estava atrazada dois meses e meio. Rui já não a possuia há muito mais que isso.
 - Tá bom, Rui. Tenho uns trezentos dólares aqui. Vou cambiá-los, comprar a passagem. Me liga daqui à duas horas pra eu te dizer qual a empresa que voce estará vindo. Não esquece, são trezentos dólares. Não quero nada de cruzados quando voce me pagar!
Dois domingos seguintes leio no jornal o brutal assassinato de Rui no restaurante La Mole da Barra da Tijuca.
 - Meus trezantos dólares já eram!- murmurei, penalisado com a morte daquele jovem de 26 anos.
Através da familia de Rui consigo falar com Marcia, por telefone. Após os cumprimentos de praxe e ditas minhas condolencias, pergunto a Marcia o que aconteceu.
 - Rui quando chegou de Presidente foi direto ao apartamento do tio e me encontrou lá. Me chamou de diversos nomes, que o estava traindo e que iria entregar o tio pra policia. rtodou a maior baiana. Rui estava transtornado e não sabia o que estava falando. Eu nunca o traí. O tio dele sempre o ajudou, até quando ele perdeu o emprego por ser viciado. Se não fosse pelo tio, nós não teríamos nada! O pai e mãe de Rui pouco se importavam com a situação nossa. Eles só sabiam recriminar Rui pelo seu vicio de cocaina e nunca nos ajudaram. Só tio dele foi que sempre nos deu a mão! Eu sou muito grata pelo muito que o tio dele fez por nós!
 -Quando Rui se acalmou - continuava Márcia - o tio  nos emprestou o carro e disse pra irmos ao La Mole que ele nos encontraria lá. Ele queria saber mais detalhes do "roubo" que Rui sofrera. Eu e o tio achamos que Rui "cheirou"  tudo e depois fez aquele carnaval todo!
Bom, estavamos sentados do lado de fora, ao abrigo daquela árvore enorme. Rui pediu logo um uisque duplo pra se acalmar. Não sei bem o que aconteceu. Me lembro que vi um cara com o capacete de motoqueiro em pleno salão andando com uma garrafa, das grande, de água mineral junto ao corpo e quando passou por trás de Rui ela estourou sem fazer nenhum barulho, molhando muito mais Rui do que a mim. Depois o tronco e cabeça de Rui tombaram encima da mesa. De repente notei o sangue em volta da fronte de Rui. Comecei a gritar...bom, o resto da história  voce já sabe.
Quem achar esta estória pernóstica, leia Ricardo III de Shakespeare.
Raferty
Enviado por Raferty em 28/10/2005
Código do texto: T64645
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Sobre o autor
Raferty
Santos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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