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Acasos e contemplações em torno do Senhor Dario

O Senhor Dario caminhava sempre pelo mesmo passeio, falando com os seus sete botões, cada um em cada dia da semana.

Olhava de lado desconfiado quando passava pelo velho no dia em que falava com o quinto botão, só porque o encontrava no terceiro dia, dava-lhe azar antecipar rotinas. O velho estava sentado, de lado, num banco de jardim no lado errado do passeio. Tudo isto o fazia desconfiar.

O Senhor Dario suscitava a atenção dum condutor de camião, que tinha um pescoço mais largo que um cilindro de betão. Tinha medo, muito medo, sobretudo quando o colosso se ria e antevia que o Senhor Dario iria dar a voltinha do costume, pela Avenida, sempre pelo mesmo sítio, deixando atrás de si as marcas acentuadas, os indícios que os larápios, escondidos, iam tomando nota, para mais tarde o assaltarem.

- Senhor Dario, o que o traz por cá?
- Dona Felismina, sussurre, não posso falar alto, os botões estão na sesta...
- Ah desculpe ... e veio para meditar?
- Sim, mas agora cale-se. Agora não posso falar, implantaram-me a coisa, viscosa e nem sei, nem sei...

Um dia o azedume regressou, a virtude enegreceu, a vontade simplesmente desapareceu e o Senhor Dario, com a coisa viscosa dentro de si, deixou de dar a volta à Avenida. Abandonou o seu único hábito.

Verificou-se uma grande consternação entre os larápios, e também entre um grupo que se formara para estudar o caminho diário do Senhor Dario.

A própria polícia abria-lhe caminho, sempre de forma subtil, para ele não se aborrecer e mudar os hábitos. Impunha-se uma disciplina férrea entre os fanáticos do caminho do Senhor Dario, a vida fervia de emoção àquela hora do dia. Até ao fatídico dia.
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Mas ele fechou-se em casa, amargurado, envelhecendo dois dias num só, como nas promoções do supermercado que visam despachar os restos de colecção ou apenas comoção.
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E na Avenida logo houve quem fosse reconstituir os últimos passos dados pelo Senhor Dario antes do desaparecimento da sua célebre rotina.

Até a polícia, até os larápios se comoveram com a sua ausência e caminhavam perdidos, de lenço na mão, enxugando as faces enrubescidas, a tristeza acumulada pela ausência do Senhor Dario. Ter-se-ia evaporado?
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Enquanto isso o Senhor Dario ia-se deitar, sonhar com um rio transparente, deserto de poluentes, algo longe da Avenida. Ia à janela do seu sonho e via todos abraçados. Os carros abandonados e uma nuvem de fumo a querer cobri-los e ele a sonhar. Ia-se deitar no seu sonho, para sonhar ainda mais, pensando que um balão sem ser de decoração apanharia todo aquele fumo e deixaria num aprumo os pulmões dos abraçadores ganhando vida em doses substanciantes.
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E na Avenida todos chamavam pelo Senhor Dario que num acidentado corolário apareceu em pijama vindo directamente da cama para consolar o clube de fãs, os amigos, os polícias e os perdidos na fé, os larápios e os sem-abrigo.

A Avenida encheu de novo e o Senhor Dario, embalado com a situação deitou-se de novo no chão mesmo em cima do quente alcatrão. A polícias abriu alas, algumas pessoas assomaram às janelas, fizeram-se apostas e sentinelas para proteger o Senhor Dario das invejas e urubus sem bico. Outros houve que lhe acompanharam o gesto, deitando-se no chão como se fosse a ordem do patrão, gerando uma enorme confusão porque era dia da eleição do Presidente da Junta da Avenida e que trazia escondida uma cueca calção, para grande decepção do chefe da casa de apostas que investira umas notas num maillot e duas botas de salto alto.

Mas o Presidente era um machão e primo do Senhor Dario que entretanto estava a entrar no quinto sonho dentro do primeiro sonho, tentando corrigir uma grave situação do quarto sonho.

E o coração, cansado de tanta excitação pediu uma explicação rápida em forma de ataque. E como se não houvesse resposta parou, em jeito de reclamação, e o Senhor Dario passou rápido ao sexto sonho, de que depressa se cansou.

Viu a luz e a redenção e ao sétimo sonho cansou!
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 17/09/2007
Reeditado em 20/09/2007
Código do texto: T656146

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
548 textos (58974 leituras)
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Manuel Marques