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O sortilégio de Dante

(Este texto, surreal, torna-se mais proveitoso numa leitura de viés psicanalítico)

Dante acostumou-se de tal maneira com seu apelido que, caso alguém o chamasse pelo nome de registro, é provável que nem desse atenção, devido à falta de costume de ser chamado Carlito.

Sem pai nem mãe já a partir do terceiro ano de vida, Dante fora criado pelo tio Sobrinho, o qual tinha o hábito de engolir alguns fonemas ao falar, e sustentava um clichê muito próprio. Era comum entre uma fala e outra dizer: dante disso, num posso fazê nada; dante de tamanha disorde, me arretirei; dante dessa situação, já me vu. Enfim, o tio Sobrinho foi o responsável pelo apelido incrustado no garoto Carlito desde os quatro anos de idade. Dante dessa fatalidade, Carlito assumiu-se Dante.

Por mais uma série de razões, Dante cresceu um garoto muito dependente. Um parente distante, querendo ajudar o garoto a ser gente e preocupado com o seu futuro, mandou uma carta mostrando-se disposto a cuidar do menino, levando-o da roça para um centro com melhores condições: Belém.

O tio Sobrinho já estava começando a caducar quando entregou Dante aos cuidados do parente distante. Um vizinho levou o menino ao porto. Seguiria de Santana num pequeno barco até Belém. Assim que a embarcação zarpou, o tio Sobrinho morreu. Dante tinha doze anos.

Ao desembarcar em Belém, Dante foi atraído por um senhor idoso que segurava uma plaqueta na qual estava escrito: seja bem vindo, querido Dante, você nos alegrará e será feliz. Dante daquele apelo, Dante dirigiu-se ao homem e o cumprimentou timidamente: Boa Tarde! Sou Dante...

O senhor idoso estava acompanhado de um homem jovem e saudável. Era seu motorista. No carro, aquele olhava o garoto com meiguice. Dante, que naturalmente era desconfiado como um bom matuto, sentiu-se bem à vontade na companhia do velho. Desceram em frente a um casa que, mesmo de aspecto novo, não tinha arquitetura moderna.

Dante sentiu-se aconchegado ao novo lar. Todos o tratavam como alguém familiar. Tinha uma leve impressão de que tudo aquilo e aquelas pessoas o aguardavam havia muito tempo. Dona Ágata era a esposa do senhor idoso, que se chamava Domiciano. O casal tinha uma filha madura com ares de moça velha chamada Nágela. Havia na casa uma empregada mocinha de nome Tereza. Esta e o motorista Ernandes viviam como agregados da família. Todos eram muito unidos e de modos graciosos uns com os outros.

Quando se estava em frente à casa, não se tinha noção do quanto ela era grande e nem se imaginava que o quintal era praticamente um bosque a perder-se de vista. Isso porque a frente se mostrava tão cheia de árvores, plantas e flores que a casa mais parecia o portão de entrada para uma pequena floresta.

Dante ali vivia feliz e alegrava a família com sua presença. Ia  à escola, ao cinema, ao teatro, ao shopping, etc. No fantástico bosque da casa, matava a saudade da roça: contato direto com a natureza, bichos, ar puro; preso a uma grande árvore ficava o balanço de Nágela, no qual Dante também balançava-se, e o excelente córrego no meio do bosque era sua piscina. Tudo na casa era relíquia, dos móveis aos pequenos objetos de decoração, mas tão bem conservado que tudo figurava como novo.

Faltando um mês para completar dezesseis anos, Dante, sempre muito obediente, pediu permissão para trazer um amigo pra passar o final de semana com a família. Todos o olharam esquisitamente e negaram a permissão. Ernandes, que sempre o levava e o trazia dos lugares, percebendo que o garotão estava meio confuso com o primeiro pedido negado pela bondosa família, chamou-o em particular e deu-lhe a seguinte explicação: o dia que você teimar em trazer algum estranho aqui, não mais nos alegrará e deixará de ser uma pessoa feliz.

Dante não estava cansado de ser feliz nem de ser um garoto bonzinho. Todavia aquela família maravilhosa não o deixava partilhar sua felicidade com mais ninguém: no dia de seu aniversário de dezesseis anos, prepararam-lhe uma linda festa, mas, como era costume, não havia convidados. Por isso, mesmo com todo o carinho e atenção que a família lhe dispensava com mais generosidade nesse dia, Dante mostrou-se indiferente. A família foi dormir entristecida. Na manhã seguinte, após o desjejum, Dante voltou a insistir para trazer uns amigos em casa. Dessa vez a família consentiu unânime. E pela primeira vez chamaram-no Carlito, o que este nem percebeu.

Ao sair do colégio, Carlito estranhou que Ernandes ainda não o aguardasse no carro, visto ser ele extremamente pontual. Como o motorista demorou além das contas, Carlito resolveu voltar de táxi, levando um amigo junto. Rodou quase Belém inteira e não encontrou a casa. Deixou o amigo numa esquina e seguiu com o motorista à procura de sua casa sem nada encontrar.

Ao receber o valor da corrida, o motorista nota que a nota é desconhecida, por isso sem valor comercial. Assim, Carlito foi parar na delegacia. Sem condições de pagar fiança, ficou esquecido por lá uns dias. Até que chegou um delegado amável que lhe deu confiança e foi com ele procurar a casa, isso já um tanto desconfiado, pois ninguém fizera procuração do ente sumido.

Chegaram ao suposto lugar onde Carlito afirmava estar a casa. Mas lá era um bairro nobre que comportava só edifícios imensos e bem modernos. O delegado, fingindo acreditar em Carlito, foi com ele à biblioteca do estado, onde, curiosamente, encontraram registros da existência da casa e da família Domiciano, a qual fora uma gente ilustre do início do século XVIII na província do Pará. Dante dessa descoberta, e apesar de ficar sabendo que essa família estava na sua genealogia, Carlito, para sobreviver, aceitou constrangido o convite para trabalhar como bom office-boy particular do delegado, despindo-se conflituosa e estupidamente da mágica inocência que o vinha alienando até então.

Janete Santos
Enviado por Janete Santos em 30/09/2007
Reeditado em 11/07/2012
Código do texto: T675048
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Sobre a autora
Janete Santos
Campinas - São Paulo - Brasil
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Janete Santos