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PRIMEIRO BEIJO

Após vários dias de vai, não vai, despedidas, pedidos de perdão, finalmente aconteceu.

Houve neste preâmbulo até uma prova  – submeter-se a cozinhar para cerca de quinze pessoas do clã, ritual por que passavam todas as candidatas a casamento com os homens da família.

Havia uma crença de que moça que trabalhava não era boa dona de casa. Não sabia cozinhar, lavar, passar, limpar,  enfim, não era prendada, do lar, domesticada.

Hoje sei bem o que pensavam de moça que trabalhava. Significava o risco de  conhecer mais do mundo, enxergar o homem um pouco além do seu micro-cosmo, talvez perder a inocência frente a valores mais ampliados.  Relativizar a importância absoluta de conceitos tradicionais. Estudar então, já desqualificava qualquer pretendente casadoira.
Sua mãe perguntou-me a idade. Antes que eu pudesse responder, ele disse que era dezesseis. Poderia dizer até mais, porque eu sempre tive corpão, curvas, volume. Não havia o culto do corpo, as coisas surgiam naturalmente. Quem tinha, tinha. Quem não tinha, usava “enchimento” dentro do bojo. Os modelos sem nada, só o tecido deixando aparecer o biquinho rijo, nem pensar.

Ingenuamente fui fazer o almoço, sem saber que a ocasião estava sendo usada para o teste. O número de pessoas era muito grande e macarrão foi eleito como menu principal. Justo macarrão, minha mãe – mineira – fã  de biscoito de polvilho, pão de queijo, galinha matada na hora, quase não fazia a iguaria italiana.

Eu, então, nunca havia cozinhado. “Afinal, eu trabalhava...”. Tinha lá noções teóricas da coisa. Às vezes mãe chamava para aprender. Cortar frango até que aprendi, olhando, nunca tive coragem de colocar a mão no bichinho, arrepiava só de de ver o sofrimento do coitado. Resultado: a tal massa virou um mingau. Uma das cunhadas veio socorrer-me confessando que já passara por aquilo, era costume a matriarca  aproveitar algum pretexto para testar as prendas das namoradas incautas. Todos se deliciaram e ele – meu primeiro namorado – mentiu atribuindo a mim o crédito pelo almoço.

Numa outra feita ele segredou-me que casaria com a moça que fizesse um bolo de fubá igualzinho ao da sua mãe. Não sei porque, mas a frase caiu como bate-estaca em algum lugar dentro de mim. Não havia ainda, naquela época, as discussões sobre o papel da mulher. Se aconteciam, eram incipientes e não chegavam lá, onde morávamos. Algum lampejo de consciência piscava aqui e ali. Eu, ainda adolescente,  desconfiava, tocada pela observação do que ocorria ao meu redor.

De quando em quando, informações do mundo afora chegavam através de revistas que pai trazia, certamente já desatualizadas. Televisão era artigo de luxo.
Assim, sabia de James Dean – Juventude Transviada, de Soraia -  a Princesa Triste, de Brigitte Bardot e Deus Criou a Mulher, a Guerra no Vietnã. Não sei se estes acontecimentos são próximos, mas permearam uma época.  Lembro-me quando Jânio Quadros renunciou e homens reuniram-se “numa certa casa” para chorar.
Uma vez entrei escondida no cinema com uma amiga mais “corajosa” para assistir a um filme proibido. Apareceu uma artista, acho que era a Brigitte com os peitos de fora. Nossa, estremeci todinha, meu sangue ferveu de vergonha e saí do cinema horrorizada. Ninguém poderia saber que eu vira aquela cena. Ficaria mal falada. Agora percebo... o cinema ficava no ponto principal do bairro...

A casa fervilhava de parentes que entravam e saíam. Houve a procissão do perdão. Meu namorado cutucou-me. Aquele tio orgulhoso chegara e se aproximava da matriarca – a nonna – deitada na cama. Ia declamando seu discurso de homem justo, contra o qual não haveria mágoas nem motivos para perdão.
- Vó, a senhora tem alguma coisa contra mim? – Bem alto, sabem como é idade avançada.
- Tenho sim, lembra aquele dia que você...
Foi motivo para piadas e assunto para antes e depois.

Foi a primeira vez que vi a morte ser levada a sério, com ritual, com cerimônia, quase uma celebração, todos conscientes do que estava por vir, só aguardando a hora. Depois houve choro e saudade, mas o clã viveu a espera de maneira calma, lúcida e responsável.
O desenlace aconteceu. Fomos ao enterro de caminhonete. Estava muito cansada e dormi.

Depois, ele me disse que precisava contar-me um segredo e pedir desculpas. Havia me dado um beijo enquanto eu dormia no seu ombro. Não esbocei reação, só pensei como pode acontecer uma coisa tão importante e eu  nem perceber. Aquele beijo ocupou meu pensamento muito tempo. Ele já sabia como era, ao passo que eu...
Ainda hoje tenho na memória aquele beijo. O primeiro. De muitos que vieram depois. Foi na volta ou na ida do enterro da avó do meu primeiro namorado. Não vi, não consenti, não senti. Sei de ouvir falar, mas nunca mais esqueci dele. O primeiro beijo. Estranha circunstância.

Não casei com meu primeiro namorado. Resolvi estudar. Como ele ia justificar perante seus pais? Para ele próprio, acho que isto já era demais.

Às vezes fico pensando como teria sido, não ser o que sou agora, ter tomado aquele caminho e não o do banco de escola.

A vida é feita de caminhos...e escolhas...




1º/11/2005 – Dia de Todos os Santos – Vésperas de Finados – Saudade dos Vivos
DIANA GONÇALVES
Enviado por DIANA GONÇALVES em 07/11/2005
Reeditado em 07/11/2005
Código do texto: T68215
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Sobre a autora
DIANA GONÇALVES
São Paulo - São Paulo - Brasil
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