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Um brinde ao meu amigo


     Fernando sempre exerceu uma forte atração sobre o inusitado. Seu estranho magnetismo agia à revelia de sua vontade e as coisas simplesmente aconteciam. Sua vida acidentada sempre foi assunto em nossas festas e churrascos. E mesmo que às vezes se apartasse de nosso convívio seu nome jamais era esquecido se resolvíamos fazer uma festinha. A dramaticidade de suas narrativas em primeira pessoa acabava por reunir todo o grupo ao seu redor. Nada era exatamente planejado, mas após algumas cervejas alguém puxava pela língua do infeliz:
     — E aí, Fernando, como andam as coisas? O que tem feito da vida?
     — Ah, pessoal, dá sossego! Pra quê falar de coisa ruim? Estou tão bem aqui no meio de vocês, tomando minha cervejinha, falando mal dos outros... Larga isso pra lá que a vida está muito boa para ficar falando do passado.
     — Que é isto, Fernando? Somos amigos ou não somos? – sempre há um cretino no meio para dizer algo assim – Conta.
E Fernando contava, arrancando as lembranças do fundo da alma, como se expurgasse de si alguma dor oculta. Tomava mais um gole, limpava a garganta e começava:
     — Todo mundo me conhece e sabe que bebo um pouco. Não que eu seja alcoólatra daqueles que precisam atravessar a rua para não passar diante de um bar. Eu passo em frente mesmo. Quer dizer, nem sempre eu passo. Às vezes é preciso dar uma parada apenas para cumprimentar os amigos e tomar uma rodada. Foi numa dessas que me dei mal na semana passada...
     Fernando fez uma pausa solene, tomou mais copo de cerveja e manteve o olhar distante enquanto nós aguardávamos em silêncio. Não adiantava tentar apressá-lo porque ele possuía seu próprio ritmo. Pareceu-me que ele buscava forças dentro de si e por pouco não deixei que ele prosseguisse, mas a curiosidade é quase sempre mórbida ou amoral. Também eu estava querendo saber qual era a última aventura de meu amigo. Suas palavras seguintes causaram em mim um estranho mal-estar. O gosto da cerveja em minha boca tornou-se mais amargo quando ele abaixou a cabeça e continuou:
     — Que merda de vida! A gente faz amizade com as pessoas, vira quase irmão pra depois ter que sofrer. Isto não está certo... A vida é mesmo uma merda e a gente não vale nada. Amanhã ou depois morre e tudo fica por terminar. As coisas que fizemos ou sonhamos... Que vida!
     — Está falando do quê? – perguntou um dos presentes.
     Ele olhou em volta como se quisesse o amparo de algum olhar.
     — É o que eu estava contando. Sexta-feira passada eu passei naquele bar da esquina, perto de casa. Ninguém faz melhor tira-gosto que o Argeu e foi lá que arriei o corpo, cansado da semana. Fui logo pedindo minha cerveja, uma pinga e um tira-gosto. Sentei com um pessoal lá e comecei a jogar conversa fora. O tempo foi passando e eu ficando tonto. Não notei nem um e nem outro. Quando a gente faz o que gosta não fica prestando atenção nestas coisas. Foi quando apareceu um filho da mãe agourento e resolveu estragar minha noite. Logo de cara foi me dizendo que o Paulinho tinha morrido. Puxa vida, logo o Paulinho! Aquele sujeito era mais que um amigo. Era um irmão para mim; era quase meu sangue de tanto que eu gostava dele. Aí eu não agüentei mais e a tristeza tomou conta de mim. Veio junto o cansaço e a bebedeira, tudo de uma só vez. Fiquei tão desolado que saí até sem pagar – mas o Argeu nem quis ir atrás e pendurou minha conta.
     — Continua, Fernando. Desabafa que é bom...
     — Então! Saí do bar e fui direto para o hospital, tonto de dar dó.  Queria ver o Paulinho de qualquer jeito e vocês sabem: Ninguém segura um bêbado quando cisma de fazer algo. Arrumei o maior escândalo na portaria até alguém me dizer que o Paulinho não estava mais lá, que já havia sido levado para o necrotério. Quiseram me segurar no hospital, no mínimo para me aplicarem uma glicose, mas acabei escapando de lá. Fui pela rua afora, andando e chorando...
     — Você quer dizer andando na calçada, não é? – perguntou uma amiga.
     — Deixa de ser burra, mulher! Onde é que você já viu tonto conseguir andar em calçada? Cheia de poste, de gente e de degrau... Fui pela rua mesmo, com motorista elogiando minha mãe e tudo. Fui chegando perto e meu coração se apertando cada vez mais. Gente, essa coisa de morte dói demais! Dói até mais em quem não morre. Mas eu fui lá. Era o Paulinho, meu amigo e irmão. Tão logo cheguei diante da porta a coragem sumiu. Olhava aquele caixão lá com vela pra todo lado, gente chorando, gente rezando... E aquilo foi me dando uma angústia, uma tristeza que dava até um nó na garganta. Não tinha muita gente no salão e não vi nenhuma cara conhecida, nenhum amigo para me dar coragem. Sentei na primeira cadeira vazia, logo perto da porta. Os olhos já estavam até inchados de tanto que chorei e a cabeça doía. Aquilo martelava lá dentro. Abaixei a cabeça e tentei rezar. Mas não saía nada. Não lembrava nem o Padre-nosso e só me lembro de ter rezado para que o Paulinho não tivesse morrido pela bebida.
     — Como é? – Perguntei.
     — Ele aprendeu a tomar seus goles comigo. Se a causa da morte fosse bebida eu iria ficar remoendo aquilo para sempre na consciência. Aí eu perguntei a uma mulher que estava saindo qual tinha sido a causa da morte. Ela respondeu que tinha sido o coração fraco. Teimei com a mulher, dizendo a ela: — Que coração fraco o quê? Morreu de bebida e a senhora não quer contar, com pena de mim. Pode falar, dona! Todo mundo já deve saber que a gente saía para beber, voltava tão tonto que precisava dar banho um no outro e colocar na cama. Pode falar...
     — E a mulher disse o quê? – a esta altura todo mundo já havia notado que o Fernando havia aprontado das suas no velório. Cada qual imaginando as caras de reprovação das pessoas no necrotério. Fernando nunca falou baixo na vida. Bêbado então ele dispensaria alto-falante em comício.
     — Ela falou que foi o coração mesmo. E saiu de lá com uma cara brava que só vendo... Mas nem liguei. Resolvi tentar rezar de novo. Na verdade eu estava mesmo era arrumando uma desculpa para não chegar perto do caixão do Paulinho. Só de pensar já me dava arrepio. Não gosto nem de ver passarinho morto, quanto mais um amigo meu, quase um irmão. Aí fiquei lá, olhando para a parede onde havia um quadro com alguma oração que eu não conseguia ler de longe. Fiquei quieto, olhando pra ontem, lembrando dele. E quanto mais lembrava, mais eu chorava. E aquilo deve ter incomodado bastante porque todo mundo começou a me olhar meio estranho. Eu sei que estava bêbado, mas lembro de quase tudo. Devo ter ficado por lá quase uma hora, chorando e lembrando... Mas deixa pra lá.
Foi uma revolta geral em nossa roda de ouvintes. Todos nós esperávamos pelo final da história.
     — Aí não, Fernando! Começou, termina!
     — É isso mesmo! Termina de contar.
     — Vocês, hein? – continuou ele – Gostam mesmo de ver a desgraça dos outros.
     — Que desgraça? – argumentei – Desgraça foi a de seu amigo que morreu. E não a sua. Quem é que está sentado aqui com cervejinha na mão? Você ou ele?
     — É porque vocês não estavam lá. Gente, eu estava sofrendo. Comecei a falar sozinho, lembrando das coisas que a gente fez juntos. Porque nós cansamos de jogar nossas peladas sábado de manhã. Cansamos de jogar baralho juntos... E era disto que eu estava falando quando o cara me agarrou.
     — Que cara?
     — E eu sei? Eu dizia assim: “Nunca mais vou poder entrar numa pelada sem lembrar. Acabou nosso buraquinho...” Foi aí que o sujeito me agarrou pela camisa e disse para mim: — “Escute aqui, ô safado! Em respeito ao ambiente e ao momento eu não vou lhe partir esta cara de bêbado e sem-vergonha. Faz o seguinte: Você vai até aquele caixão ali e se despeça. Depois você some da minha presença, se não quiser que eu lhe arrebente”.
     — E você foi?
     — Fui. No princípio pensei até em brigar, porque eu tinha direito também. O Paulinho era meu amigo. Mas olhei o sujeito enfezado e ele parecia mesmo disposto a acabar comigo. Olhei em volta e todos me olhavam com raiva. Respirei fundo, levantei-me da cadeira e fui direto ao centro do salão, tremendo de tanta ansiedade.Não queria olhar para um Paulinho morto, deitado num caixão cheio de flores, mas precisava. Aí, meus amigos, é que foi a verdadeira desgraça. Quando bati o olho dentro do caixão, cadê Paulinho?
     — Como assim “cadê Paulinho?” – perguntamos.
     — É o que estou dizendo. Não era o Paulinho, mas uma velhinha de uns setenta anos, coitadinha... Foi só então que me dei conta de que entrara no velório errado, mas já era tarde. Engoli em seco, fiz o sinal da cruz diante da velha e saí de lá sem saber se ria ou se chorava. Quando cheguei perto da porta ainda ouvi alguém dizer: — Bem que eu desconfiava que esta velha não era benta.Vê se pode? Enchendo a cara e dormindo com um menino dessa idade? O mundo ta perdido mesmo...
     —E o Paulinho? Achou o velório dele?
     — Achei nada... Achei foi outro bar aberto. Quando acordei no dia seguinte eles já tinha enterrado o Paulinho. Agora vejam quanta ironia: pertinho da sepultura da velha... E está na hora de esquecer esta coisa de morte e fazer um brinde ao meu amigo Paulinho... Viva o Paulinho!

Poeteiro
Enviado por Poeteiro em 22/10/2007
Código do texto: T704395
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Sobre o autor
Poeteiro
Santos Dumont - Minas Gerais - Brasil
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