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Nem pensar em férias


     Aconteceu que o velho coveiro de tanto presenciar mortes e mortos, sepultamentos e pessoas chorando de tristeza e saudade, nunca teve tempo para pensar em sua própria morte “Quem tem tempo pra morrer com tanto trabalho pra fazer?”, dizia. Por isso ocupava seus dias, desde o amanhecer até a noitinha, em cavar e cavar túmulos profundos de paredes sem asperezas, como se sua pá tivesse se acostumado depois de tantos anos a fazer aquela tarefa à altura dos mais experimentados. E não só as paredes mostravam o resultado da eficácia. As medidas dos poços eram perfeitas, os ângulos, simétricos e o fundo sobre o qual descansaria o caixão, de uma pulcritude divina: nenhum torrão a mais, nenhuma fissura, nenhuma poeira acumulada.

     Bem poderia se dizer que seu Raul Paixão, a quem todos chamavam de seu Raul “Caixão”, era o coveiro perfeito e ninguém tinha dúvidas de que seguiria sendo-o por muito tempo. Afinal de contas ele tinha anos de experiencia suficiente como para ser o melhor e... O único!

     Mas, a morte chegou, e o encontrou trabalhando para os outros sem sequer ter escolhido um canto para sua sepultura, além do mais por esses dias ninguém aspirava a ocupar seu lugar. Assim que, o corpo inerte do coitado do Raul, teve que permanecer mais de quatro dias numa habitação à espera de ser enterrado.

     Numa manhã, depois do quarto dia, rumorejou um vento cálido que fez as folhas das árvores bambolearem em seus talos, e o sino da igreja, soar com aquele som de quando alguma criança acabava de nascer. Os vizinhos murmuraram sobre tão estranhos acontecimentos e correram da igreja à praça, do campo à igreja e finalmente foram até o cemitério. Ali viram o seu Raul cavando e resmungando “Não falei?, quem tem tempo pra morrer com tanto trabalho pra fazer?” Ao seu lado a morte, acanhada, concordava de cabeça baixa certa de que, também ela, nunca poderá descansar.
Manilkara
Enviado por Manilkara em 01/11/2007
Código do texto: T719136

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Sobre a autora
Manilkara
Argentina
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