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BARREIRINHO

A cidade jamais irá esquecer aquele sábado de agosto de 1.983.

Como sempre faço, abro minha venda bem cedinho e eram por volta das 7 da manhã quando me espantei ao ver Barreirinho, ainda de pijamas, andando de um lado para outro pela rua.

- O que houve, o que aconteceu, Barreirinho? – perguntei

- Eu a vi Nestor, eu juro que a vi, juro por Deus. – Barreirinho estava ofegante, mal conseguia falar, parecia realmente desnorteado.

- Calma, amigo. Viu quem? Vamos chegar... Entre... Acalme-se.

Levei Barreirinho a uma cadeira, ao lado do balcão e tentei acalmá-lo.

- Devagar amigo. – Fiquei um pouco em silêncio e depois prossegui – Você já não tem mais idade pra ficar deste jeito. O que houve de tão grave que saiu pra rua de pijamas?

- Eu a vi... Nestor. Acordei bem cedo e abri a janela do quarto... Quando olhei pra baixo, pra calçada do outro lado da rua, bem de frente pra minha janela... Lá estava ela, com aquele mesmo vestido, ali parada, feito um anjo...

- Espere aí, Barreirinho – interrompi – Não vai começar com aquela sandice novamente né? Não vá dizer que viu sua mulher?

- Ah Nestor, porque você não acredita em mim? Era ela sim, eu juro. Quando a chamei ela começou a andar. Fiquei paralisado na hora, depois abri e fechei os olhos, virei e desvirei, e pude vê-la caminhar até virar a esquina do Osvaldo. Desci imediatamente e corri... Mas não deu tempo de alcançá-la e a perdi de vista. Nem adianta perguntar se você a viu, né?

Mexi com a cabeça um sinal de negativo e ele mal me deixou falar...

- Com licença, vou andando, preciso encontrá-la.

- Espere Barreirinho... – Ele não esperou e saiu caminhando rapidamente.

Como poderia isto acontecer de novo? Pobre homem, por quê agora ? Depois de tanto tempo... – pensei sozinho – Tereza, a mulher de Barreirinho havia morrido já há quase 50 anos. Uma estória muito triste... Foi no dia do casamento deles, logo após saírem da igreja foram pra casa e ela foi ao quarto para se trocar. Barreirinho estranhou a demora. Entrou no quarto e a viu deitada na cama ainda com o vestido de noiva. Achou que ela estivesse desmaiada, logo o quarto ficou cheio de gente e o Doutor constatou que ela estava realmente morta. Barreirinho não se conformou e teve um choque tão grande que nem pôde ir ao enterro. Quando se recuperou do choque já se passavam mais de dez dias do fato.
Barreirinho, então, não acreditava na morte da esposa, e passou a agir como se ela não tivesse morrido. Viveu assim, “com ela”, por uns dois meses e então sua família resolveu tratá-lo. Ele chegou a ficar por seis meses internado em uma casa de recuperação em Três Corações. Mesmo após o tratamento, às vezes ele tinha as visões e saía  caminhando pela rua, dizendo que precisava encontrá-la de qualquer jeito. Exatamente como estava fazendo agora. Foi com muito sacrifício que o fizeram  admitir a morte de sua amada.

E de lá pra cá, Barreirinho nunca teve outra mulher, nem por brincadeira. Em sua casa há retratos dela espalhados por todos os cantos e paredes. Em seu quarto estão as roupas e os objetos dela. A penteadeira no canto continua intacta, como ela a deixara. Em sua cama sempre estiveram dois travesseiros, embora Barreirinho sempre estivesse só. Pode-se dizer que sua casa é um templo em homenagem a uma mulher que sempre foi dona de seu amor. Durante todo este tempo não houve sequer um dia que Barreirinho deixasse de ir visitar o túmulo de sua esposa, chovesse ou não. Realmente um amor muito grande. Tão grande que talvez o fizesse ter estas visões...

Resolvi então ligar para o Dr. Silvério, mas ele tinha saído e só retornaria no final da tarde. Estava pensando numa maneira de ajudá-lo quando Dona Rosa entrou:

- Bom dia seu Nestor. O senhor não vai acreditar no que acabei de ver – disse ela gesticulando – Vi Barreirinho perambulando pela rua de pijamas.

- Acredito sim Dona Rosa, acredito sim.

 - Coitado do Barreirinho, pensa que está vendo a mulher de novo. E ainda... de pijamas na rua. Acho que agora endoidou de vez. – disse Dona Rosa atestando o quadro de saúde do meu amigo.

- Ele não pode ficar andando por aí neste estado. Pode acontecer alguma coisa, Deus me livre. Temos que procurá-lo.

- Tem razão seu Nestor. Vou já cuidar disso.

Graças a Deus, pensei. Pelo menos ele fica com alguém até chegar o médico.
Continuei trabalhando e todos que vinham à venda comentavam o assunto. Todos haviam visto e falado com Barreirinho, mas ninguém sabia dizer onde ele estava. Comecei a ficar mais preocupado ainda. Dona Rosa não voltava pra dar notícias.

Como fui tolo. Deveria ter segurado Barreirinho comigo. Eram quase 5 horas da tarde e eu comecei a fechar a venda, nisto veio Dona Rosa, um tanto afobada.

- E então seu Nestor, como ele está?

- Como assim? – disse já imaginando o pior. - a senhora não o encontrou?

- Não. Mas eu pensei que ele estivesse aqui com o senhor.

- Comigo? – disse surpreso – Mas a senhora não ficou de procurá-lo?
- Sim, eu sei, mas logo depois do almoço encontrei o Tião que me disse que viu  Barreirinho vindo pra cá, então pensei que ele estivesse aqui com o senhor.

- Mas a senhora deveria ter vindo aqui confirmar. Bem, agora não adianta, vou à casa do Dr. Silvério, ele já deve ter chegado...

- Vamos nos encontrar em minha casa então – disse Dona Rosa me interrompendo – Pode deixar, vou encontrar o Barreirinho e o levarei pra lá.

Cheguei à casa do Dr. Silvério e ele ainda não havia chegado. Resolvi esperar, imaginando que ele não demoraria, no que me enganei. Foram duas longas horas de espera. Um amigo meu em dificuldades... Pedia toda hora para que Deus o protegesse. Não podia acontecer nada de ruim a Barreirinho – pensava eu o tempo todo.

Quando o doutor chegou já fui logo o abordando no portão. Agora era eu quem já estava desnorteado.

- Doutor, doutor..., É o Barreirinho... Venha comigo, por favor.

- Calma Nestor, calma homem, o que aconteceu?

- Ele está tendo aquelas visões da mulher novamente.

- Depois de tanto tempo... – disse Dr. Silvério já caminhando comigo – Onde ele está?

- Não sei doutor, vamos até a casa da Dona Rosa. Ela já deve o ter encontrado.

Durante o caminho fui contando os detalhes para o médico e quando chegamos mal podia crer no que via. Uma multidão se amontoava em frente à casa de Dona Rosa. Eu podia imaginar de tudo, menos que ainda não haviam encontrado meu amigo.

- Onde está ele Dona Rosa? – fui logo perguntando – Está lá dentro?

- Não o encontramos Nestor. Nós não sabemos onde ele está – Dona Rosa já parecia ter perdido as esperanças – Parece que a cidade inteira o viu e falou com ele, mas ninguém consegue encontrá-lo ou dizer pra onde foi.

Não tinha palavras... Comecei a rezar...

- E na casa dele? Alguém o procurou lá? – disse o doutor.

Imediatamente todos começaram a rumar pra casa de Barreirinho. A porta da frente, da escada, estava trancada. Acima, a janela do quarto ainda estava aberta. Por um momento olhei pro outro lado da rua, talvez procurando agora Tereza e não Barreirinho. Era bem ali que ele disse que ela estava.

Neste momento percebi que tinha algo errado...

- Esperem um momento... – disse eu olhando para o médico e Dona Rosa – Se ele saiu tão apressado, de pijamas, deixando a janela aberta, desnorteado daquele jeito, não faz sentido ter trancado a porta. Aliás, ele nem costuma trancar a porta durante o dia. E as chaves? Também não me lembro de tê-lo visto com elas nas mãos.

- Tem razão Nestor, vamos arrombar a porta. – disse o doutor já se preparando.

Arrombamos a porta e entramos, Dr. Silvério ia à frente e eu o seguia junto com as outras pessoas. E lá estava, no quarto, deitado em sua cama, Barreirinho parecia gélido. Quando o viu Dr. Silvério já acenava com a cabeça um sinal negativo, se aproximou e tomou-lhe o pulso.

- Está morto! – disse o médico com um ar visivelmente triste.

Enquanto as pessoas se lamentavam, me sentei na beira da cama, ao lado de meu grande amigo. Mal podia acreditar no que estava acontecendo. O Dr. Silvério continuava examinando o corpo. De repente, em uma atitude súbita ele parou, olhou o relógio e disse:

- Nestor, agora são quase 9 da noite, que horas lembra de tê-lo visto pela última vez?

- Eu estava abrindo a venda, era umas 7 da manhã.

- E depois disse que ele seguiu caminhando e encontrou-se com Dona Rosa? – perguntou novamente o médico.

- Sim, exatamente, foi isto que aconteceu. – respondi.

- A senhora, Dona Rosa, a que horas o viu? – Silvério continuava perguntando.

- Logo depois do Nestor, umas 8 da manhã – respondeu Dona Rosa e ainda complementou – e o Tião encontrou com ele na hora do almoço.

- Não pode ser. – dizia o médico andando de um lado para outro, olhando para todos. – Quem foi o último a tê-lo visto?

- Foi a Cristina do João doutor – Disse Dona Rosa prontamente – ela me disse que o viu era umas 6 horas, já tava escurecendo. Disse que o viu lá no cemitério, no túmulo da Tereza.

Após escutar, Dr. Silvério sentou-se na cadeira de balanço de Barreirinho e se pôs a balançar. Tirou os óculos e esfregou as mãos em seus olhos.

- O que há Silvério? – perguntei olhando fixamente para ele.

- Este homem, Nestor – começou a dizer o médico – Este homem está morto a muitas horas, este homem nesta madrugada Nestor, é impossível que tenha sido visto por aí andando pelas ruas, impossível.

A autópsia, mais tarde, revelou que Barreirinho havia falecido entre 04:00 e 06:00 horas da manhã daquele mesmo dia. Antes mesmo da hora em que eu afirmava tê-lo visto.

A cidade jamais esqueceu Barreirinho e sua estória. Pois quem poderia dizer se sua grande amada estava ou não presente em sua vida. E ele então, como se sentia em relação às pessoas que não acreditavam nele?

Por isto, escrevo estas linhas a seguir em homenagem ao meu grande e inesquecível  Amigo.

Barreirinho viu passar, viu passar pela janela
Não podia acreditar que havia visto ela
O sentimento viu voltar de um passado tão distante
Hesitou por um instante mas saiu a procurar

Era ainda muito cedo, mal havia amanhecido
E já estava Barreirinho procurando enlouquecido
Por Deus... que alguém venha dar informação
Não duvidem  da visão de um homem já vivido

Eu a vi com esses olhos que um dia vão comer
Passar na minha frente  quem jurei paixão eterna
Eu preciso encontrá-la custe qualquer preço
Eu mereço nesta vida tudo que luto pra ter

Pobre Barreirinho, agora um velho ignorado
Pensava ele, que por causa do passado,
Quando pelo mesmo motivo foi posto como louco
Novamente vão querer vê-lo internado

Lembrou-se então daquele dia
Quando disseram que seu amor não mais acordaria
Então se revoltou no mais duro sentimento
Da perda do alguém que alimenta nossa vida

Muito difícil aquele tempo
Mas no fundo aguardava ainda a surpresa
De que um dia ela voltaria
E viesse então lhe dar a certeza

De que as juras não foram em vão
E que real sempre fora o seu amor
Toda a dor que tivesse em seu coração
Neste dia seria curada

Como foi bom rever a amada
Mesmo que apenas de relance
Ainda que ninguém acredite
Na verdade agora pouco importa

E após ter tido este pensamento
Barreirinho viu a frente uma porta
Parecia ouvir alguém chamando
Estava ali quem ele estava procurando

E então ela lhe disse:

“Não esqueci do nosso amor e por isto estou aqui
Neste dia especial de poder te reencontrar
Se um dia te deixei não foi eu quem escolhi
Venha comigo agora, temos muito a caminhar.”

Barreirinho deu-lhe a mão
E foi sem nada perguntar
Era o homem mais feliz
Que havia em todo o mundo

Assim termina a estória do velho Barreirinho
Que na manhã daquele Domingo
Teria ele morrido para encontrar o seu amor de todo o sempre
Ou acordado de uma dor para ser feliz eternamente?

PoetadoKaos
Enviado por PoetadoKaos em 02/11/2007
Código do texto: T720519
Classificação de conteúdo: seguro

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