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Paradoxo...

   Seria perfeito se pudéssemos regressar de volta para casa, após nos despedirmos neste belo mundo e, ao mesmo instante, devasso e atroz. Um telefonema daquele horizonte sem fim de alguém querido poderia matar um pouco a saudade. Afinal, para onde vamos depois deste vasto mundo coberto de estrofes inacabadas e de sonhos não preenchidos?
   O que existe no mundo de lá? Seriam Cordilheiras? Ventos uivantes? Cantos de agonia? Raios de sol e presença de luas? Seria o mesmo habitat daqui? Ou um cenário devastado, irrequieto e cheio de murmúrios de vento? Uma terra errante. Saturnos de granito. Perfumes escondidos. Flores mortas. A águia da liberdade povoando no vácuo do céu.
   Como diria Gonçalves Dias, “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”! Há palmeiras no mundo de lá? Há areia branca, ilhas desertas e água fresca? Será que eu poderia colocar os meus pés sobre a cadeira e acender um cigarro; apreciar o encantador findar da tarde quando as aves se preparam para pousar em seus ninhos e proteger as suas crias.
   Como seria o mundo de lá? Será que existe céu ou inferno? Ou o meio termo? E os luridos umbrais? Purgatórios? Há luz? Trevas e sombras? O que há? Anjos, demônios? Monstros? Fantasmas? Ou tudo não passa das ilusões da mente? Há escadas para o céu? Odaliscas sensuais? Homens nus e deliciosos? Não sei o que há. Uma incerteza paira sobre nossos espíritos. Liras e fantasias. Um viajante solitário a procura de uma dama. Um violeiro sem rumo certo. O canto de um beija-flor.
   Onde é a morada do Pai? E o paraíso perdido? A chave dos sete portais, o pote de ouro no fundo do arco-íris?  Onde é a mansão de Lúcifer? Vestido de príncipe – em negro e branco e adornos dourados.
   Talvez Osíris, deus da lua e da natureza, pudesse responder. Cultuado como sol poente, deus dos mortos, vinha buscar as almas para serem julgadas na “Sala das Duas Verdades” em seu tribunal. Marido de Ísis, deusa da lua e da transformação, a soberana, senhora da magia; de véus e vestes coloridas hipnotizava a todos através de sua dança. Cultuada e adorada no mundo antigo: Egito, Grécia, Império Romano e tantos outros lugares. Será que Osíris teria esse poder? Já que fora devorado pelo próprio irmão e inimigo durante uma lua minguante. O seu irmão, Seth, - um demônio de um vermelho fugaz e incandescente – espalhou pedaços de seu corpo em toda a cidade do Egito. E, a bela esposa e rainha, encontrou seus restos e, através da arte da cura e da magia, lhe devolveu à vida.
   Tudo é uma incógnita; nada sabemos de onde viemos, para onde partiremos. O trem do infinito nos aguarda. O trem da meia-noite. O anjo da morte, a seta do cupido vinda do norte nos aponta em direção ao coração no dia que o destino reservou a nossa hora da partida.
   Porque a chegada traz tanto júbilo e o regresso tanta dor? O ocidente deveria ter a mentalidade do oriente. A cultura japonesa cultua as suas raízes como fora na época do Egito e da Grécia e realiza rituais para os mortos. Para os japoneses, os dias de verão são mais curtos, afinal, eles esperam o retorno dos mortos para casa.
   Os antigos egípcios também construíram belos túmulos para seus entes queridos, pois acreditavam ser a morada suprema da delícia eterna. Foram construídas mastabas, pirâmides e hipogeus ricamente adorados. Eram feitos para garantir a longa ânsia de espera no relógio do tempo até que a alma voltasse para a vida.
   Onde é a morada dos que partiram? Seria em Hades? Será que os deuses do Olimpo sairiam de seus aposentos e se fariam presentes? Dionísio eufórico, acompanhado de seus bacantes, traria algumas taças de vinho para acalmar o coração dos desesperados? E a deslumbrante Afrodite faria uma visita? Talvez Posseidon se revoltasse. E Hermes a pedido de Zeus pedisse a Apolo - de louro na cabeça - para tocar uma lira. Héstia e Hefesto apareceriam e pediriam harmonia e Hebe se incumbiria de trazer a juventude para as velhas almas abandonadas.
   As bruxas ainda vivem no mundo de lá? Quando os sinos da igrejinha tocam no meio da tarde, será que elas ainda saem para colher morangos no campo? E contemplam as fases da lua se estão tão perto dela, escondidas no meio das estrelas. Tão distantes e tão próximas! Com seus mantos negros a nos acalentar das alturas ou das profundezas? Saudemos a grande deusa que tanto conforta os que foram desta para a outra vida. Que os nossos desejos não sejam quebrados pelos invejosos feiticeiros do mal.
   O mundo de lá é um paradoxo, repleto de detalhes e retalhos de sonhos.
Além dos portais e das sensações da carne, há brisa e acalento? Brio e forças unidas? Há dança em ritmo de espiral? O que há? Poesia? Tristeza? Felicidade? Opulência, embriaguez? E o bairro da “luz vermelha” como em Amsterdã? Os cafés parisienses? Os cabarés das belas damas? Divas se exibindo das janelas de seus quartos como em pequenas cidadelas italianas. Pois não há somente anjos tocando trombetas quando a aurora desperta atrás das cortinas de névoas. A oração do Pai Nosso diz num trecho “Assim na terra com o no céu”.
   Quem governa as leis no mundo invisível? O velho sábio peregrino, de barba branca? A senhora que comeu as maças no início do mundo? Os Serafins com suas tochas de fogo no azul celeste? Os Querubins, mensageiros dos mistérios do divino?  Ou os faraós imortalizados pelos homens?
   Porque os corpos apodrecem? Será que o negro Anúbis, o deus com cabeça de chacal, “Senhor das necrópoles” é o responsável de velar os túmulos e transportar para o outro mundo as almas perdidas com promessa de renascimento? E é o próprio Anúbis que reconstitui o corpo de Osíris, embalsama-o e envolve-o em bandagens, nas quais Ísis, transformada em falcão, inscreve fórmulas mágicas.
   No cais do infinito, o farol ilumina nas águas? A brisa acaricia os cabelos e beija a face? Quem guarda os segredos dos umbrais com estradas sinuosas e hégiras? Os centauros? Prometeu? As ninfas? Narciso? Sim, talvez Narciso conheça bem a vaidade dos homens e possa desvendar alguns segredos das pobres almas pecadoras. Os elfos?  Quem sabe o guerreiro Odisseu e, no apogeu das tramas, tecidas pela verve do amor e da sedução, as perguntas possam ser respondidas.
   Talvez Zeus pudesse explicar. E como seria o seu rosto? Parecido com o de um átropo? Ou de um rei? Não obstante, onde é a morada dele? Seria em Alfa e Ômega? Torre de babel forrada de damascos, damas-da-noite e açucenas? Onde as musas inspiradoras despertam os súditos nas altas madrugadas. Adjacências... Prazer e pranto. No íntimo, a célere e doce nostalgia do mundo daqui. E no mundo de lá, o que se passa?
Verônica Partinski
Enviado por Verônica Partinski em 06/11/2007
Reeditado em 07/11/2007
Código do texto: T726085

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Sobre a autora
Verônica Partinski
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