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Peta noctívaga

     Ela. A mulher de tranças nos cabelos cor de trigo desperta de um sonho noctívago. Abre os olhos e, cambaleando, se olha no espelho da sala. Não sabe ao certo quem é. Sua face enrugada denuncia os longos anos de espera. Uma espera quase eterna pelo cavalheiro que outrora se fora e não regressara. Ela, de hálito fresco, boca madura e olhos amendoados. Busca no fundo do baú da memória velhos desejos escondidos pela farsa do tempo. O relógio devastador que a ninguém perdoa. A máquina mortífera.
   Ela. Uma donzela quase esquecida renasce das cinzas como a fênix e procura nos abrigos da alma uma luz de esperança. O abajur do quarto revela detalhes nas paredes, retratos empoeirados, quase abandonados. Flores frescas à espera do viajante que nem sequer enviou uma carta de despedida.
   Ela. A senhora da noite. Dama da alta corte. Sociedade dominada pelo patriarcado. Petrificada diante do espelho se enxerga. Acaricia os cabelos, desce lentamente até os seios, todavia, ainda pontiagudos pela brisa que entra através das persianas semi cerradas.
   Ela. Disfarçada de anjo mau. Metade mulher. Metade sereia. Revive as cenas cinematográficas dos beijos compartilhados no homem que amara. (Re) lembra cada instante, desenha o nome dele com os dedos no ar. Ansia pela vinda que talvez nunca chegue ou tarde o suficiente para sufocá-la nas águas da agonia.
   Ela. Sim. Ela mesma. Não obstante mais madura. Perdera o vigor da sensibilidade juvenil. Tem medo de morrer só; quase morre de medo que os ventos do norte não movam moinho. Sente medo das sombras, da luz que divaga nas paredes do seu quarto.
   Pois é ela. Samira. A bruxa que encantou metade da cidade na época da mocidade. Esbraveja que a vida fora ingrata. Tão incerta sua passagem como a lira dos anjos que já se foram. Seu íntimo, puro tormento. Sequer consegue mirar uma réstia de sonhos desenhados a quatro mãos. Sequer canta aos colibris. Os olhos marejados de lágrimas a espantam. Causam estardalhaço em sua mente confusa.
   Ela vive só. Em meio às montanhas do sul. Na direção dos ventos. Esquecera seu nome. Traços refletidos no espelho lhe trazem nostalgia. Para onde partira o homem que ela chamava de seu? Uma bela noite, depois de um rápido desenrolar na cama, ele saiu a cavalo para comprar cigarrilhas para sua dama e não mais retornara.
   E ela até hoje se pergunta. Para onde? Com quem? Por quê? Tantas tempestades, ventos e sussurros de lembranças não puderam trazer à vida o semblante do amado. O tempo se incumbiu de apagar os seus rastros. Nem sinal de pegadas; nada. Um vazio profundo se arroja nas entranhas. O revés do destino lhe pregou uma peça; um truque barato.
   Ela desfaz as tranças. Os olhos iníquos querem derrotá-lo onde quer que esteja presente. Sua presença já não se faz mais importante. Prefere a morte impressa nas linhas tênues das horas. Prefere a solidão ao abandono. A dor ao desatino. Prefere se esconder nas tramas das nuances. Na embriaguez da opulência.
   Ela. Quem um dia fora princesa. Amada pelos homens poderosos da Corte, se despede num gole único de absinto e decide partir. Salta nua da janela do 21º andar. Estilhaços de vidro, o desfecho para a dor é a cólera. E não fosse o infortúnio, um anjo de longas asas negras a toma nos braços e a coloca sobre a cama.
   Desperta ofegante e em pranto. Angustiada. São três horas da madrugada. Fora um sonho. Ufa! As mãos escorrem, de suor e desespero. Silenciosamente ela ouve o som da respiração de alguém.  Vira para o lado e, à sua esquerda, na cama, dorme como um anjo seu amado. As cigarrilhas estão sobre o criado mudo. Rosas vermelhas e frescas repousam na jarra e, uma faixa de luz tépida pousa suave sobre os lençóis de seda. Luz da lua cheia (e branca) no infinito celeste, próxima ao caduceu. Reina a paz. O pesadelo partira.
Verônica Partinski
Enviado por Verônica Partinski em 07/11/2007
Reeditado em 07/11/2007
Código do texto: T726746

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Sobre a autora
Verônica Partinski
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Verônica Partinski