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Descobrir e esquecer

A porta estava agora aberta. Escancarada.
Arremessada, a chave quedara-se algures, por aí, sabia-se lá onde.
Um dia viriam a encontrá-la. Como tinham encontrado os tesouros escondidos no quintal dos avós. Ou os segredos ouvidos pelas frinchas das portas trancadas.
Afinal, nem os tesouros nem os segredos lhes tinham servido para nada. Ou talvez sim. Mas não lhes tinham trazido riqueza nem sabedoria. Tinham ficado esquecidos, em pouco tempo, entre as bonecas de limbos fragmentados e os carros sem rodas. Nos sótãos ou águas-furtadas; nos baús ou malas velhas; nas gavetas atulhadas de ninharias ou nos vãos de escadas com teias de aranha.
O que restara fora um sentimento ainda sem nome. E a curiosidade de continuar a descobrir e a esquecer.
Descobrir e esquecer...
E o sentimento sem nome era menos real porque não tinha nome.
A porta estava agora aberta. Escancarada.
Para aprenderem. Para saberem dar nomes a sentimentos e emoções. Para saberem muito mais do que tinham aprendido na escola e nas casas de portas cerradas onde se ouviam o eco de passos pesados e o sussurro de vozes sem brilho.
Os professores e os pais a chamarem-lhes lorpas e eles a esforçarem-se, com o suor frio nas têmporas a escaldar, as mãos contorcidas, e um esgar patético nas faces lívidas. Sem compreenderem. Sem terem nome para o que sentiam.
Esforçaram-se.
Tinham decorado as leis da Física; os tratados da História; as montanhas e rios de todo o País; os teoremas da Matemática.
E os professores e os pais a chamarem-lhes parolos. E a rirem-se.
E eles sem compreenderem. Sem terem nome para dar àquilo que sentiam. Sem terem nome para dar àquilo que os pais e professores faziam e diziam.
Esforçaram-se.
Tinham equacionado os números; tinham resolvido os problemas geométricos; tinham aprendido os mistérios da Fé; tinham seguido à risca o catecismo.
Sem saberem para quê.
Sem perceberem patavina.
Mas não tinham desistido.
Para essa persistência e resistência ainda não havia nomes.
Quando mostraram conhecimento, à força de tanto marrar, os professores continuaram a chamá-los imbecis. Os pais mostraram indiferença. Pediram-lhes mais.
Lá tinham as suas razões. Também para elas não havia nome.
A porta estava agora aberta. Escancarada.
Desafiando todas as leis e regras. Da física e outras. O importante é que estivesse aberta para receber aqueles que viriam ensiná-los. De verdade. Mas a Verdade também não tinha nome. Ou tinha vários.
Já estavam fartos de decorar.
Queriam perceber.
Queriam dar nomes àquilo que sentiam.
Os pais a dizerem-lhes para fecharem sempre a porta. Os estranhos eram o inimigo.
O perigo vinha de fora.
Queriam lá saber agora!
Havia uma chave algures, não havia? Por aí... Mas havia.
As leis da Física, as equações matemáticas, a religião....Elas teriam decerto a resposta… Para isso tinham estudado, ou não?
A chave! Bastaria a chave para lhes dar descanso quando estivessem cansados. Ou fartos. Ou desiludidos.
Ah! A desilusão!
Esse fora um dos sentimentos sem nome e, por não ter nome, era como se não tivesse existido. Sentimentos sem nome não são reais.
Tudo tem de ter um nome.
Assim tinham aprendido.
A porta estava agora aberta. Escancarada.
Por ela entraram muitos. Desconhecidos sem rosto ou sem corpo. Mãos frias; bocas sedentas; almas em farrapos; corações vazios.
Sufocava-os ou libertava-os.
E eles que tinham pensado que a liberdade era aquela porta aberta. Aberta e sem chave.
Os pais e os avós fecharam sempre as portas. Trancavam mesmo.
Para os protegerem, diziam.
Ou talvez por medo. Medo de quê?
O medo...Isso sabiam eles o que era...Desde sempre. Mesmo sem terem um nome para lhe dar. Não sabiam se o tinham aprendido. Sabiam que existia neles. E nos outros. Nuns mais do que noutros.
Os professores não tinham medo.
Moviam-se altivos, riam-se muito, tinham gestos largos. Não choravam.
Os pais choravam às vezes. À beira dos leitos onde eles ardiam de febre, em convulsões.
Tinham medo. De os perder? Da morte? Ou medo de terem sido castigados por um Deus a quem tinham causado a ira?
Medo de não voltarem a ser felizes?
Falavam muito sobre a Vida.
O que era a Vida?
Nunca tinham visto a Vida!
A porta estava agora aberta. Escancarada.
Para a Vida entrar.
A vida é madrasta.
A vida é ruim.
A vida é difícil.
A vida não presta.
No hospital, tinham visto os avós de corpos enfezados, olhos baços, rostos inexpressivos. Silêncio. A máquina ligada aos corpos, a fazer aquele barulho esquisito.
Tinham ficado especados ali. Esquecidos.
Quiseram brincar com os tubos. Os pais saíram do transe em que estavam e fizeram cara de zangados. Disseram para se irem embora.
Fecharam a porta.
Em casa, continuaram esquecidos. Os pais falavam, em vozes gastas.Voltavam a falar da Vida. De repente, parecia que a Vida se tornara importante. Já não era ruim.
A Vida era preciosa.
Desligar aquela máquina estranha com a qual eles não tinham podido brincar, era apagar a Vida. Para sempre.
Então a Vida estava dentro de uma máquina?
Que confusão!
A porta estava agora aberta. Escancarada.
Para aprenderem o que era a Vida; onde estava a Vida. Para que outros viessem e lhes mostrassem o que deveriam fazer para poderem brincar com a máquina, sem a estragarem.
E brincaram muito com a Vida, depois de ficarem a saber que, fizessem o que fizessem, ela se estragaria. Mesmo que não fizessem nada, ela se estragaria. Afinal, não estava guardada numa máquina. Estava por todo o lado.
A Vida chegou-lhes, de várias maneiras, pela porta agora aberta, escancarada.
Foi assim que começaram a fazer a aprendizagem dos nomes para definir aquilo que iam sentindo, à medida que iam brincando com a Vida.
Quando os aprenderam, deixaram-se ficar silenciosos.
Tanto tempo tinham esperado por aquele Saber que julgavam os iria fazer felizes e, afinal, para quê?
Os nomes só tinham servido para os assustar ainda mais.
O medo voltara. E com ele a prisão.
A porta estava agora aberta. Escancarada.
Já não havia guardião. Contudo, eles eram prisioneiros.
Eles eram os seus próprios carrascos.
Os nomes tinham complicado tudo.
Agora eram eles a rirem-se de si mesmos. Agora eram eles a acharem-se sem valor.
Envergonhavam-se do que sentiam porque lhe conheciam o nome. Enquanto não souberam nomes, eram livres e felizes. Mas como não sabiam o que era ser livre e feliz, tiveram de descobrir. E deixaram de o ser.
Foi então que, pela porta aberta, entrou a Simulação. E com ela o Parecer.
Era tempo de encontrar a chave algures, por aí. Não importava já que fosse a original. No fim de contas eles tinham agora os meios para forjar uma.
A porta ficou fechada. Trancada.
Passaram a arrastar-se por corredores de portas cerradas. Passaram a cobrir-se de adornos para mascarar o que sentiam. Passaram a usar palavras afectadas. Passaram a rir sem gosto. Passaram a procriar sem desvelo.
Descobrir e esquecer.
E no Parecer passaram a Viver.




Julieta Ferreira
Enviado por Julieta Ferreira em 11/11/2007
Código do texto: T732821

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Sobre a autora
Julieta Ferreira
Portugal, 65 anos
9 textos (292 leituras)
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Julieta Ferreira