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Em boa companhia

Eu e meu cão Harrier saimos para  pescar e caçar lebres no pasto. Anedotas do destino. No cimo de uma ponte cinabre, atravessamos sobre o rio. A paisagem é deslumbrante. Cheia de flores no caminho. Pássaros das mais diversas espécies. Borboletas e cigarras. Faz um anejo que não passeamos. A vida urbana londrina ocupa por demais o nosso tempo. O pobre caozinho já não aguentava mais. O ar puro, sem dúvida, lava os pulmões e a alma. Nos faz renascer de novo. Sinto um anelo cioso pela mulher que se fora. Desta para outra. No fundo do arco-íris. Será que é lá que ela mora? Não sabemos. Nem eu, nem meu cão de olhos tristes. Ou ela reside nas mansões do inferno? Dizem que lá há liberdade de expressão para se fazer o que quiser. Seguir os instintos da carna, desnudar-se por inteiro. Mergulhar numa orgia sem limites. Não quero nem pensar. Eu enfrentaria Lúcifer para vê-la ou faria um acordo com o todo poderoso para salvá-la. Será que, por ventura, ela estaria no céu? Preciso ter uma resposat do Senhor de branco. O que há no céu? Flores, ambientes claros e perfumados? Frutas maduras no pé? Mas será que há liberdade? Será que a serpente não está espiando atrás da moita ou aguçando os cinco sentidos para o pecado? Acho que viver no céu à direita ou esquerda de Cristo deve ser tedioso. Eu prefiro nem tanto o céu, e nem tanto o inferno, prefiro a terra. Bem, distancio a minha mente dessas divagações e procuro no chão fioritas entre as pedras. E me pergunto, por quê esta harpia se foi de repente? Que ventos a levaram e para onde? Será que foram os cata-ventos? Mares do sul ou do norte? Ou a própria morte latejante de desejo a consumiu e tornou-a cinzas? Ventos uivantes no inverno, pétalas arrastadas pela brisa cálida na primavera, sol de estrelas em pleno verão e folhas rasgadas forrando o chão no outono. Já faz um anejo que ela se fora. Quatro estações. 365 dias de inglória. Meu coração devastado. A alma em prantos. O que posso fazer? Se ela ainda me rasga por dentro... Me rasga fundo. Meus olhos apontados para o céu disfarçam as lágrimas. Hastes de flores espalhadas pela estreira estradinha me levam até o outro lado do rio. Sento-me a beira do riacho e contemplo a chuva fina que começa a cair atrás das montanhas verdejantes, misturadas em tons azuis, brancos e amarelos. Os ipês estão graciosos. Imperiosos dentro da mata fechada. E atrás do horizonte, um arco-íris desponta. Será que ela me aponta algum sinal? A natureza é dadivosa, penso eu. Talvez a beleza da vida me faça penar menos. Talvez. Essa mulher. Qual é mesmo o nome dela? Amarílis? Gabriela? Ana Bela? Cinderela? Tantos nomes. Nomes de flor e de mistério. Nomes da noite. Nomes de guerra. Ela se foi e eu fiquei. Triste assim. Eu e meu caozinho  Drexter, da raça harrier. Ele me olha mudo e abaixa as orelhas, encosta em meu colo, como que quisesse dizer: - chora meu amigo. Chora. A estrada de volta é longa e você nem sabe o nome dela e o fim que a levou. Choro copiosamente. Lavo a alma e convido meu Drexter para uma bela pescaria quase solitária. Ela me acompanha abanando o rabo como que quisesse me dizer: - vamos embora meu amigo, porque o melhor remédio para a recassa de um amor mau correspondido é uma bela pescaria com um cão amigo numa tarde esplêndida de verão. E lá vamos nós. Faceiros. É, meu amigo. Melhor só do que mau acompanhado. Ou melhor, quase só. Em boa companhia.
Verônica Partinski
Enviado por Verônica Partinski em 17/11/2007
Reeditado em 22/11/2007
Código do texto: T741518

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Sobre a autora
Verônica Partinski
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Verônica Partinski