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SILÊNCIO DE RADUAN

SILÊNCIO DE RADUAN

cheguei ao porto de onde não há mais retorno, lia compulsivamente, lia, dia e noite, noite e dia, enquanto comia, no almoço, o prato requentado do jantar do dia anterior, ou quando ia ao banheiro, em longas sessões de dores abdominais e intestino preso, ou mesmo quando me deitava um pouco na réstia de sol que entrava pelo vidro da janela, estava seco, absolutamente seco, queria apenas a solidão do pequeno apartamento da rua formosa, bem no centro de são paulo, longe e perto de todo o lufa-lufa do cotidiano paulistano, em mim perdido no entanto de toda a loucura das ruas, sem sair, sem botar sequer o nariz para fora da porta já há mais de quinze dias sem tomar banho, a pele escorregadia, limosa, o ar poluído de cigarro e cheiro de comida podre que de vez em quando vinha trazer o entregador do mercadinho lá de baixo  e então eu lia, só me restava esse sentido, o da visão, embotados todos os outros pelo lodo do ar, pelo sabor de peido de peixe, pela audição de dejetos caindo de cloacas de baratas tontas a rodear cada migalha de minha boca emudecida, loucos os sentidos todos, embaralhados e molestados, e eu lia tudo o que havia nas paredes cobertas de papel, um apartamento todo feito de troncos e galhos, também eles podres, e letras, letras de todos os tipos, até a cama onde refestelava as costas ardentes era feita de poemas, de trovas, de canções de rolando e outras gestas, furiosos e ardentes arroubos de pierre-louÿses masturbatórios, de enlevos agostinianos em orgasmos de santas teresas, em quixotes de espadas vermelhas e rombudas a matar rocinantes de veludo nos palácios de reis ignotos, aventuras de capa-e-espada e trombudos detetives de ross macdonald em voragens mortais de cagadas de sartre ou de joyce carol-oates, e nada daquilo me dizia o que fazer do meu destempero desastrado, desatinado, destrambelhado, da roda a mentir para mim cada vez que virava uma página de letras miúdas, o papel bíblia desfazendo-se na gordura de meus dedos, camões e o kama sutra, oceanos de gozos a receber rios de cassandra, marte em clima de pesadelo, romanos e chineses de chinelos de xangai, a rua a tentar vazar o vidro da janela, tudo me levava à busca, à busca de uma só palavra, de esperança ou de tristeza, eu queria uma só palavra daquele universo de sons mudos que enrouquecia minhas cordas vocais e estrebuchava no meio da sala, onde acendia uma vela e desfolhava os versos de raul bopp ou de tristan tzara em talagadas de veneno e pinga, trespassado, tresmalhado, bopado, tzarado, azarado, mercenário de lendas não contadas, no vaso um peixe-boi copulando com a mãe-d’água, e os meus sentidos concentrados todos no ver, no ler, no não achar a palavra definitiva que daria o norte-sul-leste-oeste de minha lívida vida, vitrificada, envilecida de saudade e transtorno por um ente que se fora, que me fodera, antes de ir, a capacidade de achar, até que pudesse enfim à campa, sim, à campa de kaváfis mijar o suco de horror extraído de estranhezas de anjo de um augusto poeta há muito desaparecido no livro de cesário verde, eu o estranho, eu-o-estranho, moi, je m’en vai, au vent mauvais, dans la nuit eternelle jeter l’ancre un seul jour, vahge, vaghe stella dell’Orsa, pero cae la hora de la venganza, y te amo, cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme, ah! los vasos del pecho! ah! los ojos de ausencia! ah! las rosas del pubis! ah! tu voz lenta e triste! triste tristão, triste isolda, isolado eu, time is a test of trouble, but not a remedy, eu tarzan em cipós de santo daime, alquebrado, quebrado, eu-buscador-do-tesouro-perdido, a palavra ainda escusa no escuro de páginas e páginas, e quero uma só letra, uma só sílaba, uma só palavra, uma só qualquer-coisa-dita-por-alguém que me dê, no pé de um rodapé, a salvação desse ânimo podre, desses gases que me sobem à garganta, dessa cera que me enche os ouvidos e desse ranho que me entope o nariz torto de cheirar o que não se deve, dessa língua roxa de vinho envinagrado, de doses maciças de fumo e pizza podre, uma só a palavra que desejo e então, luminosa, no meio de um conto de raduan nassar, já no assar da batata, da minha mais que roída batata podre, eu, gralha-ferida-em-ninho-sem-dono, abro a janela e solto a voz sem som, para todos que não queiram me ouvir, que já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio
Isaias Edson Sidney
Enviado por Isaias Edson Sidney em 01/12/2007
Código do texto: T760724
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Sobre o autor
Isaias Edson Sidney
São Paulo - São Paulo - Brasil
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