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Mordomia no cemitério

Mordomia no cemitério

(vencedor do Prata da Casa    ’97 - Petrobras)

     Laura passou o lenço levemente sobre os olhos, tomando o cuidado de  não prejudicar a sofisticada maquiagem que lhe consumiu 45 minutos pela manhã. De relance, observou  a sobrinha Delma ajeitando algumas flores no caixão de Tenório. Os murmúrios dentro da capela, giravam em torno da falta de sensibilidade do Destino.  Há mais de meia hora que todos comentavam :
- Que coisa triste, hein!  Dr. Tenório, rico, apenas 46 anos, deixa dona Laura  bonita e sozinha no Mundo  (não tinham filhos). Será que ela vai se casar de novo?
Possui boas chances. Com 35 anos e herdeira de uma boa  fortuna,  em breve vai arranjar  um  bom e   simpático sujeito e vai esquecer esta fatalidade!
   Laura acenava e apertava diversas mãos (como seu marido tinha puxa-saco) com delicadeza, para não estragar o esmalte. Estava ansiosa por ver o caixão  escorregar para a cova e dar logo inicio à sua
nova vida ao lado do Dr. Argus, o médico  de  "confiança" da família !  Ela iria na próxima semana para a Itália. E dentro de vinte ou trinta dias (quanta pressa), se encontraria com Argus na Holanda.
   Lentamente ela deu quatro passos para a esquerda e quando teve  certeza  absoluta de que ninguém estava observando, sussurrou  perto do amante:
- Tem certeza que a dose que colocou no vinho dele fez efeito?  Às vezes tenho  a leve impressão de que ele está respirando fracamente.
- Calma, querida!  Dentro de 15 minutos o caixão descerá e nossas angústias terminarão para sempre. Se estiver vivo, vai acordar lá embaixo!  Não pude exagerar na dose para que o médico que assinou o óbito não percebesse nada!  Vá conversar um pouco com algumas daquelas velhotas para disfarçar. Relaxe.
   Às 12:30 Laura sentou-se no sofá e pediu um conhaque a Delma, com duas  pequenas pedras de gelo. Tirou os sapatos e tomou dois goles lentamente.
- Delma querida !  Onde está o celular ?  Vou ligar logo para a agência de turismo e tentar marcar uma viagem para a Europa, para ver se consigo esquecer esta tristeza.
- Ah tia!  Não zanga comigo. Aquele celular que meu amado tio Tenório adorava, ele  um dia me pediu que se morresse, gostaria que eu o colocasse dentro do ...
O telefone tocou!  Laura atendeu. Do outro lado, uma voz fina lhe perguntou:
- Estou falando com Mme. Laura Cardoso?
- Exatamente - respondeu ela!
- Meu nome é Afonso. Sou delegado da 5a. D.P.  Recebi um telefonema estranho a poucos minutos.
 Creio que é um trote de mau gosto, de um sujeito dizendo chamar-se Tenório Cardoso, que estava dentro de um caixão, pedindo que eu o tentasse libertar rápido, pois o ar talvez não fosse suficiente para mais de 2 horas. Por gentileza, a  senhora  me  permite falar por dois minutos com seu marido?                          
Haroldo
Enviado por Haroldo em 27/11/2005
Código do texto: T77039
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Sobre o autor
Haroldo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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