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Eu

NOTA: Esse texto, ao mesmo tempo que psicodélico, tem um caráter autobiográfico. Foi escrito num momento de extrema depressão, quando sentimentos confusos vinham à tona. Para os que não me conhecem, a "tradicional instituição tijucana" a que me refiro se trata do Colégio Militar do Rio. O aluno Borralho é ninguém menos do que eu.///


Num fim de tarde outonal, as folhas das frondosas árvores da tradicional instituição tijucana onde passei boa parte de minha mocidade desgarravam-se, planavam em direções aleatórias e, finalmente, beijavam o solo, num balé em que a lentidão era a única regra. Um vento tímido, mas de promissora intensidade, lambia meu rosto, já então eivado das incipientes rugas dos 30 anos. Meus cabelos gris e o olhar perturbado, desprovido de brilho, decerto teriam chamado a atenção dos alunos e seus pais se antes eu tivesse chegado. Mas quando me aproximei dos muros que por anos me ofereceram conforto, como se aquele colégio fosse a própria casa dos meus pais, quase ninguém havia lá dentro. Diante do mais que secular frontispício, não lembro que desculpa esfarrapada dei à sentinela para ultrapassar o portão.

Na verdade, a julgar pelo código de honra castrense, a razão para a visita não era das mais nobres. O local do qual eu poderia dizer ter sido meu segundo berço, pois ali havia moldado minha personalidade, escolhi como cenário do último ato de minha história. Tão fácil fora entrar com uma arma de fogo escondida sob o sobretudo negro que eu trajava — pensei comigo mesmo — que alguém ali responderia por tal negligência. Mas isso certamente não seria problema meu dali a alguns instantes, depois que o chumbo de um projétil se incrustasse na minha massa cerebral.

Vislumbrar as paisagens para mim tão caras fez com que, por um momento, eu me desviasse de meu objetivo. Não pude deixar de fazer um inventário de memórias que me remetiam a um tempo de menos culpa e mais altivez. Já não havia lugar para lamentações nem para tentar entender por que as coisas degringolaram após meu êxodo, doze anos antes. Fui julgado e condenado pela minha própria consciência, que me imputou a pena capital como castigo aos meus impulsos decadentes.

Sozinho num universo despedaçado, tive de súbito uma visão perturbadora: dobrando a alameda principal do colégio, caminhava em minha direção, imponente, um cadete. Peito estufado, coluna ereta, postura incisiva... E um olhar frio como poucos icebergs conseguiriam sê-lo. Não me viu o rapaz. Na verdade, parecia nada enxergar, além de seu próprio umbigo. Teria me pisoteado como fosse eu um verme, se em seu caminho eu estivesse. Apesar do andar rápido do garoto de não mais de 15 anos, pude perceber, em sua camisa, a insígnia que indicava seu nome. Repentinamente, o tenente-aluno Borralho deteve-se. Um inesperado intervalo antes de ir embora para casa. Mirou o imenso pátio do colégio, como o dono de uma terra de dimensões magníficas, que vê seus domínios desde um ponto elevado. E, admirado, deve ter pensado, em seu delírio juvenil, que um dia tudo seria seu. Que nada o deteria rumo ao sucesso. Que sua inteligência, mesmo limitada, o conduziria ao Olimpo dos homens. E que a felicidade estaria dentro de si próprio, o que já lhe bastava. O resto da Humanidade, supunha ele, tratar-se-ia de coadjuvante num drama em que ele era protagonista.

A presença de mim mesmo aos 15 anos arremessou-me, então, num transe revisionista, durante o qual os equívocos dos últimos anos se sucediam como num filme em minha mente. O desamor, a crueza das relações, a decadência intelectual, tudo isso, somado a outros infortúnios, produziu a débâcle de minh’alma. Fitando aquele rapaz, a arrogância e o egoísmo extravasando por cada poro de seu corpo, questionei-me sobre as razões da minha infelicidade. E pensei: “Posso corrigir os rumos da vida. Por que não eliminá-lo? Por que poupar esse ser ignóbil, com essa aura pomposa, mas que no fundo semeia sua própria derrocada?”. Enxerguei a realidade: Borralho era o verdadeiro culpado pelo fato de as coisas não terem dado certo. Ele morreria, para que eu pudesse, enfim, renascer.

Tão senhor de si e ainda assim tão débil, o cadete não notou minha aproximação. Olhava fixamente o infinito. E naquele segundo fatídico, em que tudo parecia eterno, não sentiu o cano do revólver encostar em sua nuca. Antes que eu apertasse o gatilho ouvi uma gargalhada fraca, mas que crescia paulatinamente, como se alguém se aproximasse de mim. Estava de tal forma ensandecido que me olvidara da presença de terceiros. Recolhi meu impulso, guardei a arma na algibeira. Virei-me para o lado e lá estava, atrás de uma árvore, alguém na penumbra.

“Quem está aí?”, indaguei. “Tu bem sabes que poderás livrar-te de quem quiseres, mas a covardia irá acompanhar-te para onde quer que vás. Reside em ti mesmo o teu desalento, e em nenhuma plaga deste mundo encontrarás conforto. Volta para casa e deixa o rancor te consumir. Dá ao tempo a oportunidade de exercer seu ofício”, sussurrou o estranho.

Aproximei-me e vi, horrorizado, um “querer-ser” de mim mesmo. Devia ter seus 45 anos, trajava um terno preto amarfanhado. Cabelos brancos, o olhar moribundo. O corpo delgado, combalido mui provavelmente por um câncer, uma garrafa de uísque na mão direita, o hálito denunciando o consumo de álcool. Agarrei-o pela gola da camisa e vociferei: “Quem é você?”. Sem se assustar ou se debater, ele respondeu: “Podes me chamar de Sr. Tormento”.

A palavra que poderia resumir meu estado de espírito desde sempre me atingiu como uma descarga elétrica. Transtornado, larguei Tormento, que tombou no paralelepípedo histórico. “O que veio fazer aqui? O que quer de mim?”, perguntei. “Vais matar o jovem? Ora, não farás isso contigo e comigo, não é?”, provocou o homem, reerguendo-se com dificuldades.

“Se assim o fizeres, estarás nos matando. Não o faças. Entenda: teu destino não pertence a ti, nem a mim. Arrefeça teus sentimentos auto-destrutivos. Permita que eu chegue, que tome conta de nossa vida. O tempo que nos separa é exíguo, verás. Logo, estarei aqui, e tu nem sentirás tua existência se esvanecer... Deixa o rapaz progredir, galgar suas posições. Ele levará a ti, e tu levarás a mim. É o curso natural das coisas”.

O discurso inquietante de Tormento aumentava minha angústia. Tive a sensação de que havia mais a ser dito, e eu decerto não gostaria das revelações que ele, com um irritante sorriso enegrecido, propunha-se a fazer.

“He, he, he… Entenda. Achas tua vida uma desgraça? Que nada poderá piorar? Que bastará ferir de morte o cadete para livrar-te da infelicidade? Pois compreenda que ele esteve certo durante todo o tempo. Livra-te de teus pudores sentimentais... Só obtive paz de espírito depois de render-me aos prazeres do assassínio. Quando matares tua primeira presa, saberás que cheguei para tomar teu lugar. E, aí sim, terás repouso confortável. Eu ainda vivo dentro de ti. Mas logo estarei liberto para perpetrar minhas vilanias. Deixa-me viver, assim como o jovem Borralho.”

Apontei a arma para Tormento. Por um instante, pensei em calar sua sanha assassina. Mas não faria sentido eliminar algo que era apenas um “querer-ser”. Ele certamente continuaria subexistindo no meu “eu”, atormentando meus dias e noites, dizendo-me ao pé do ouvido que o caminho a percorrer seria pavimentado de dor e loucura. Cabia a mim transformá-lo num “não-ser”.

O estratagema inicial, então, voltava à tona. Trouxe o cano do revólver até a minha boca, e disparei. No ínterim entre o metal de temperatura infernal ser cuspido pela arma e macular minha carne, percebi que Tormento havia se dissipado, como a névoa que se esvai com a chegada do meio-dia. Caído no chão onde tantos anos pisei, ainda pude sentir os passos firmes de Borralho, dirigindo-se aos umbrais do colégio, bem como a seu futuro de pretensas glórias. Como um pequeno sismo, parecia que a sola de seus sapatos estremecia tudo em volta. Antes da escuridão, ainda tive tempo de pensar que Borralho, assim como as folhas do outono, ao se desgarrar de suas raízes e planar pelo mundo, estaria apenas engendrando sua última viagem, até o derradeiro beijo no solo.
Jorge Eduardo Machado
Enviado por Jorge Eduardo Machado em 28/11/2005
Reeditado em 05/12/2005
Código do texto: T77794

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Sobre o autor
Jorge Eduardo Machado
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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