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Um Fato Memorável

                 (Segundo o meu irmão Antonio Dilson )

        Nos idos de 1947 eu era uma criança com apenas cinco anos de idade. Um andante que, à pés, percorria diariamente cerca de quatro quilômetros entre minha casa, na localidade denominada Tocaia, até a única Vila ali existente, conhecida por Junco. Minha missão era a de seguir meus irmãos mais velhos e assistir às primeiras lições escolares da professora Serafina. Eram oito quilômetros entre a ida e a vinda.

       "Eu era um pequeno ser franzino e desnutrido tal qual tantas outras crianças da minha idade e do mesmo lugar, mas que teve a sorte de driblar os vírus do sarampo, da poliomielite e de outras tantas doenças da infância, e, consequentemente, poder narrar esses fatos.

       Certo dia, vínhamos da escola sob um sol escaldante, com sede e com fome, porém, contentes. Vínhamos acompanhados de um primo chamado Ederaldo, que também havia assistido às aulas e que morava relativamente próximo de nossa casa num local chamado Pilão.
        Ao chegarmos em casa cuidamos de almoçar, e tudo parecia normal, até que repentinamente recebemos um inesperado aviso: o de que Ederaldo havia estupidamente falecido.
        - Como? Ele esteve conosco há pouco instante! - Era o que falávamos assustados enquanto engolíamos nossos alimentos. Não tínhamos como entender, e começamos a chorar.
        O Ederaldo era um pré-adolescente forte, robusto, brincalhão e cheio de vida. Porquê ele teria morrido? Ele pilheriou conosco há minutos atrás. Mas junto com a sinistra notícia veio a causa da mesma: que ele chegara em casa muito suado e que bebera água fria em demasia, e que o fizera em grandes goles; depois, sentiu-se mal e, instantaneamente morreu. Foi essa a diagnóstica doença e a sua causa mostis a todos anunciada.
        Ficamos desolados com a tal perca, pois Ederaldo era um companheiro do dia-a-dia, e também, uma espécie de nosso protetor em todas as nossas manhãs de escola.
        Meu pai cobriu-se com o seu chapéu de palha e imediatamente partiu tristonho para a casa do seu irmão: o pai do falecido. Ele foi consolar a família do mesmo, pois sabíamos que a nossa tia, a mãe do morto, estava grávida de oito meses e que poderia sentir-se mal com a súbita morte do querido filho. Havia o iminente risco de uma tragédia maior.
        Todos se foram para o velório, porém, apenas eu e minha irmã mais velha dois anos do que eu, é que ficamos incumbidos de alimentar as galinhas e os porcos naquela monótona tarde de sufocante calor de verão.
        Repentinamente o tempo começou a mudar e gigantescas nuvens negras cobriram todo o céu de um entardecer de escuridão, tristezas e lágrimas.
       Uma furiosa ventania passa a balançar a nossa fragilíssima casa de pau-a-pique, e o nosso telhado de barro em forma de calhas foi violentamente sugado pela forte ventania, deixando-nos desprovidos sob um tenebroso temporal.
        E, como só para nos aterrorizar, relâmpagos quebravam as trevas e eram mais parecidos a imensas espadas luzentes a despejar raios de fogo em todo o céu.
        O ribombar dos trovões tremia nossas vísceras e parecia querer nos explodir, e, chorando, dispomo-nos a rezar. Nesse ínterim eu tive a coragem de acalentar minha irmã que chorava e tremia de medo, e abraçados ficamos ali, molhados e inertes.
        O temporal havia destruído todo nosso telhado e nossa casa estava descoberta. Os relâmpagos clareavam em demasia: o que nos dava susto e temor. Chovia em toda a casa e sentíamo-nos impotentes frente à nossa infantilidade, então, protegemo-nos sob um fétido couro de boi que estava ao nosso alcance, e que era utilizado por nosso pai em suas viagens de tropeiro, que era.
        Já estava tudo escuro: era noite. Eu e minha irmã, ambos com cinco e sete anos, respectivamente, chorando, indagávamo-nos:
        - Cadê papai? Cadê mamãe e os meninos? - e voltávamos a chorar e rezar, tremendo de medo.
        Passado aqueles terríveis momentos ficamos na expectativa da chegada de nossos pais: o que não aconteceu. Ficamos nós dois, as galinhas e os porcos, como únicos viventes do lugar.
        O nosso medo era pavoroso: medo da noite, e medo do morto: que antes costumava brincar em todos os cômodos de nossa modesta moradia.
        Ali não havia outra luz senão uma tênue claridade que provinha de um pavio de lamparina alimentado no óleo de mamona, o qual mantínhamos aceso sob o couro de boi.
        Dormimos, se é que dormimos, e o dia amanheceu.
        Saímos do abrigo do couro e fomos para o terreiro, de onde víamos a casa de nosso tio, lá embaixo, na baixada do Rio Porções. Ela estava ladeada de gente - muita gente -, e então notamos aquele caudaloso rio avermelhado furiosamente carregando tudo em sua bravia correnteza. Só ai tivemos a certeza do porquê nossos pais não voltaram para casa: não havia condições de atravessar aquelas furiosas águas barrentas.
        Ficamos famintos lá do alto, em nossa casa, olhando o movimento das águas e do povoléu em volta da casa do Ederaldo e  também vimos que nas estradas muitos afluíam para para lá.
        Aquela manhã passou morosa, e já no entardecer notamos um cortejo saindo da casa do nosso tio, e da cá choramos. Eram três caixões: o da tia, o do Ederaldo, e do seu irmãozinho que nasceu morto. E antes do sol se pôr, todos, inconsolavelmente, já estavam em casa conosco".
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 04/12/2005
Reeditado em 08/03/2012
Código do texto: T80979
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz