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32 de novembro dia dos mortos

Chovia torrencialmente no sertão do nordeste. Desacostumados com essa intempérie de sopetão, crianças corriam, adultos viravam crianças e velhos lentamente se deixavam encharcar pela alegria molhada que caiu do céu como uma luva pros 4 reinos da natureza.

Foi assim durante mais de um mês; chuva constante com ligeiras estiagens. Todas as almas sentiram-se lavadas e o peso da sofreguidão ficou menor. Uma esperança nunca antes sentida, agigantou-se como um “terra à vista”. A cor verde, símbolo desse esperançar, timidamente se achegava no rastejo do ex-oceano seco. Tudo que foi, faz parte do passado. Agora só existe futuro de verdade; o hoje flutua como barquinho de papel.
Varanda fresca, silhuetas vivas, acordadas para não perder nenhum momento de raro arrepio.
As estrelas movem-se com elegância como a desfilar em negra passarela; tudo acalanta o gostoso brilho nos olhos de quem sabe que vai amanhecer.
E amanhece. Cheiro de verde no ar palpita o dia. Pássaros grasnam em bandos revoados; uma orquestra de sons invade a cena fértil.

Dia que passa colorido, sem queixumes, só avidez em sorver a bonança generosa.

A noite, no barracão do Jacaré, aprumados na reunião de comunidade, Leôncio apeou na voz de profeta e garganteando falou: “ a gente vamus ter de hora pra frente, uma vida digna de gente abençoada pelo Pai Deus Todo Poderoso; a gente vamu faze pra todos nóis e prus fios de nossos fios, toda coisa boa que nóis vai prantá nessa terra de Deus; chega di dô e dias difírceis; agora a gente vai sê só feliz” .
Uma explosão de palmas eclodiu além do barracão. A criançada misturava com os latidos dos cachorros a balbúrdia consentida.

_Agora nóis vai fazê uma oração pra agradecê toda essa benção.

Silêncio e constrição domina totalmente o ambiente.
“Senhô, a genti agradecemu essa benção molhada de vida
pra nóis prantá nossa felicidade juntu com muié e fios;
toda coisa boa que vem de tu a genti agradece
e as má a genti sabe que é pra nóis aprende a lição que tu
passo pra nóis”

améin meu sinhô

Em meio ao negrume estrelado, saem em respeitoso silêncio a caminho de suas casas cruas.
Na paz do sono cansado, cachorros latem, cabras balem, homens tonteiam; som pesado se aproxima; luzes que não são de estrelas se intensificam.

Som de motores potentes ligados ligam ao um turvo mundo; o medo torna-se atmosférico.
Os homens caminham para fora dos amadeirados em linha aberta a fim de definir o contorno do confuso.
E do difuso surge como apocalipse em forma de chispas atômicas, projéteis traçando o ar cálido
a procura de cumprir a promessa de alvos fáceis. Tão fácil foi que em menos de 15 minutos apenas poucos fracos esganiços de cães diminuíam lentamente.

Uma mensagem via satélite é enviada:

_A gênese metereológica é um sucesso. Já está sendo divulgado o “efeito de epidemia controlada” pela mídia. A incidência pluviométrica aumenta na proporção esperada. Em breve o quadrante 22 estará pronto para ser entregue ao mercado internacional.
São 23h40. O comandante recolhe-se ao container dos oficiais. Banha-se. Antes de deitar lê o salmo 90 e mergulha no sono. Amanhã muito trabalho de desorientação pública deve continuar.
leandro Soriano
Enviado por leandro Soriano em 06/12/2005
Reeditado em 24/08/2007
Código do texto: T81666
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Sobre o autor
leandro Soriano
Santos - São Paulo - Brasil, 59 anos
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leandro Soriano