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FELIZ DIA DOS MORTOS!

O fim da inveja e um feliz dia dos mortos

                                                          Marcos Barbosa

— Feliz dia dos mortos! Para os vivos... - O Dr. Maubássi acordou com este primeiro pensamento matinal. Pensou e cumprimentou os familiares e vizinhos com a mesma frase.
Assim começaram as memórias de um dia de finados. Memórias do pensamento e da ação.
— “Dr. Maubássi, você tem grandes qualidades ... mas às vezes torna-se um sujeito muito pegajoso. - O cara que me disse isto já morreu e eu não consegui entender até hoje porque ele falou aquilo. O fato  é que como resultado desta colocação, a partir deste dia eu procurei conversar pouco com ele. Só falava o suficiente quando ia entregar o resultado de minhas prospecções minerais em sua empresa. O nome dele era Valtídio, que Deus o tenho em bom lugar. Não posso dizer que ele era uma alma boa. Geralmente depois que a pessoa morre, o povo tem o costume de esquecer todos os seus defeitos e decretar a absolvição coletiva dos seus pecados. Hipocritamente dizem: era uma alma boa... era isso... era aquilo... Mas eu não vou entrar por esse caminho. Não me cabe fazer o julgamento da vida e morte do Valtídio. Isto me faz lembrar algo que ouvi ontem do Joaquim . Falou para o Oscar, olhando para a mesa. Não deu para ver a posição do seu olhar , se para baixo à direita ou à esquerda e fazer uma análise neurolinguística. Mas o importante é que disse tudo aquilo na minha presença — O Dr. Maubássi é inteligente, trabalhador, competente e honesto, mas às vezes se torna enjoado. Ele fala muito e acaba enchendo o saco enjoando as pessoas. - ali do lado ouvindo aquilo, resolvi mostrar o meu lado humilde.
— Eu era assim mesmo , mas estou tentando mudar e corrigir este defeito.
Eu teria muito mais coisa para dizer sobre este tema, mas ... pensei rapidamente: Se eu falar muito vou me tornar enjoativo e confirmar o pressuposto dele naquela conversa com o colega do departamento de engenharia. Era importante, eu precisava desfazer aquela imagem. Não poderia, naquele momento, dizer nada que viesse a confirmar o que o Oscar ouviu do  Joaquim  na minha frente.
Procurei ser simpático na despedida sem falar muito. No caminho, vim pensando... ' Será que eu falo muito mesmo, ou falo coisas que as pessoas não gostariam de ouvir? Eu vejo pessoas que falam muito mais do que eu e ninguém as acusa de faladores compulsivos. Deve existir alguma coisa de errado na minha maneira de falar, ou nos assuntos que escolho para falar com as pessoas. Aqui enquanto escrevo, me vem ao pensamento uma frase que eu reprimi enquanto conversava com o Joaquim. Para evitar de ser tachado mais uma vez de chato, escondi meu pensamento e até consegui disfarçar. Seria mais ou menos assim:
— Joaquim, depois que você ficou rico resolveu criar regras rígidas na sua empresa e transportou estas regras para a sua vida pessoal, com o propósito de punir as pessoas. Você quer brincar de Deus?
Pensei mas não falei. Será que este discurso de “conselheiro intrometido” seria a propósito do que ele havia acabado de dizer? Ou uma resposta acumulada dentro de mim?  Foi bom até não ter falado, porque descobri que a motivação da crítica feita contra mim foi a inveja. Veja só:
—Joaquim , quem  era aquele rapaz bonito, que estava aqui agorinha entregando um papel pra você?
— Aquele é o Dr. Maubássi. Por que a pergunta? – Agora já demonstrando ciúmes da namorada – Você se interessou por ele?
— Não é isso, seu bobo... É porque eu gostei do jeito dele falar. Ele é muito inteligente, domina todo tipo de assunto que puxam com ele. Este sim, dá para perceber que é um Dr.  com ‘D’ maiúsculo. Eu sempre observo ele quando vem aqui.
Bastou isto para detonar o sentimento de inveja do homem. A partir daí... suas opiniões sobre o amigo, que antes eram sinceras, foram mudando deliberadamente. Começou a ser programado um vírus de opinião negativa em seu cérebro maldoso, contra o amigo. Por outro lado o Dr.  Maubássi percebendo todo o lance, primeiro por intuição e depois por alerta de amigos comuns, sempre dizia:
— Um amigo falso dá mais prejuízo que um inimigo declarado.
Aquela reação de “pessoas” achando que a conversa do melhor engenheiro da mineradora enchia o saco, nunca existiu. Foi uma criação artificial de uma mente  doentia. Todos gostavam muito de conversar com o Dr. Maubássi e Joaquim já estava se sentindo mal de ouvir tantos elogios àquele homem que era seu subalterno. É interessante notar que estas coisas pegam, contaminam as pessoas e de tanto o Joaquim fazer aqueles elogios contaminados contra o Dr. Maubássi, os outros servidores e engenheiros da mineradora foram se afastando do Dr. Maubássi.
— Meu Deus do Céu... O que foi que eu fiz para perder meus amigos?
O Joaquim, presidente da Minerbras, já tinha até terminado com aquela namorada que detonou a reação de ciúmes contra o Dr. Maubássi. Mas paradoxalmente, o hábito de elogiar o engenheiro inserindo críticas sem fundamentos não acabou. Quando se quer usar a autoridade pessoal para fazer este tipo de campanha contra alguém, é muito fácil conseguir resultados desastrosos. Mas depois vem a colheita, porque  quem planta vento colhe tempestade . A produção do Dr. Maubássi em Mato Grande baixou, porque o Dr. Joaquim colocou outros concessionários justamente em sua região, para lhe diminuir o poder e impedir o crescimento. A inveja é um agregado psicológico terrível, de grande poder destruidor. Pois não é que o presidente da Minerbras passou a temer que o seu engenheiro , antes predileto, começasse a crescer muito conseguindo algumas concessões de subsolo próprias, a ponto de passar na frente de sua empresa!!? Ele e o sócio falecido conversaram sobre a ameaça imaginária que temiam.
— Nós precisamos cortar as asas deste rapaz, - dizia Valtídio.
— Ele está crescendo muito e pode representar uma ameaça para nós no futuro.
Parece que o engenheiro adivinhava as conversas dos patrões e certa vez disse na bucha:
— Vocês pensam que estes outros concessionários, que vocês colocaram para concorrer comigo, vão ser fiéis como eu sempre fui durante estes anos todos ? Na primeira oportunidade eles vão trabalhar para outras multinacionais, inclusive estrangeiras. Eles vão trair a empresa e a pátria. Não deu outra. A previsão do Dr. Maubássi foi certeira, como se diz,  em cima da mosca. Logo-logo  estavam realmente aliados à pilantragem internacional, desviando-se dos ideais nacionalistas e causando grandes prejuízos à empresa a quem deviam o reconhecimento pelo início do negócio.
Vencido o contrato de exclusividade, Dr. Maubássi resolveu abrir uma empresa de prospecção mineral e prestar serviços para o Estado do Pantanal, na fronteira com Mato Grande. Encontraram petróleo e o engenheiro ficou bilionário. Mais tarde comprou a Minerbras. Joaquim, o presidente da empresa, já velho, cansado e arrependido, um dia confessou toda essa história ao seu ex-engenheiro.
—É... Maubássi... Eu errei muito nessa minha vida. Veja só, eu te persegui muito naquele tempo, tentei te prejudicar de várias maneiras, primeiro por ciúmes, depois temendo que você crescesse muito e deixasse de trabalhar pra mim.
— Eu sabia de tudo Joaquim... Mas você está perdoado. Afinal de contas eu aprendi a fazer prospecção de petróleo com você. Eu sei reconhecer o bem que me fazem... mesmo que seja seguido de algum mal.
— Mas você não sabe nem a metade das coisas que eu fiz para te prejudicar. Estou disposto a te contar tudo, com detalhes. Vai te servir como experiência de vida, para não cometeres os mesmos erros que eu cometi. Você sabe que eu sou estéril, não tive filhos e estes sobrinhos e parentes que vivem às minhas custas não valem nada. Por isso que resolvi vender a empresa... vou pagar minhas dívidas e gastar o dinheiro viajando pelo mundo até o final dos meus dias. Minha ambição por dinheiro e poder acabou.
— Está bem... então vamos marcar um dia para me contar tudo. Pelo visto essa conversa vai ser bastante demorada. Você deve ter documentos, gravações de grampos telefônicos e outras coisas para me mostrar.
— Como é que você sabe?
— Uai !  Eu também tenho meus métodos. A diferença é que os uso unicamente para me defender. O finado Valtídio não te ensinou a lição completa. Ele pretendia te dar um golpe, foi por isso que não chegaram a lugar nenhum. Muita má fé... muitos interesses escusos em jogo... Antes que eu me esqueça, um feliz dias dos mortos...
Despediram-se e o dia da confissão final ficou marcado para o próximo Domingo, que aconteceu sem acrescentar muita novidade ao que Dr. Maubássi já sabia através dos seus amigos, informantes e também pelo seu grande poder de intuição intermitente. A intuição só lhe vem em socorro nos momentos críticos , quando há risco iminente de vida ou grande prejuízo.
Dom Marcos Barbosa II
Enviado por Dom Marcos Barbosa II em 11/12/2005
Reeditado em 08/01/2016
Código do texto: T84333
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Dom Marcos Barbosa II
Águas Lindas de Goiás - Goiás - Brasil, 59 anos
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