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ONDE NASCE O ÓDIO.

                 Frente às injúrias, esmoreci meu corpo. Num momento, o choro incontido, Noutro, o sorriso sarcástico e insano. Pensei esbravejar, externar o ódio, Mas, um nó interceptou o grito. Vi-me sufocado, sorvendo o néctar do fel. Cambaleei rumando de encontro ao nada.
Disforme, o corpo arquejava em chagas. Temeroso, o inferno estava em silêncio, a aquiescência da mente enojava. Meu invólucro reduzido à obediência, que desmantelava a razão da existência Remontando lacunas já cicatrizadas. Vi soterrar o ideal há muito perseguido. A imposta persuasão fez-me rebelar. Laços de rancor espreitavam em riste.

- Caio Silvino, rogamos que nos proteja!
             
                Remontei meus destroços. Lutei contra a completa monopolização que encarcerava todos os corpos e almas. Meu ódio suplantou a semente da maldade. Logo depois enterrei meu enfadonho caráter, e de repente a revolta foi flagelada. Uma nova força ameaçadora brilhou. Ordenou e instituiu o serviçalismo, Assassinando grandes ideais, Fazendo ressurgir anjos negros e a dor. Num pergaminho, pregaram a aniquilação. Deu-se a completa inanição da alma. O mundo tombou atemorizado. Tingiram de negro minha existência, Fazendo brilhar minhas ofensas internas. Assustadoras visões me hipnotizaram, Queriam destruir-me como troféu.                  
- Caio Silvino, você é nossa esperança de vida!
             
 Os mortais clamaram minha intervenção. Não eram merecedores de meu olhar, Já haviam me hostilizado em varias vidas. Um milhão de criaturas do mal me atacaram. Perceberam que eu era a própria destruição, Lutei contra as trevas, fui mais forte que a dor. Salvei todos os hipócritas que antes rastejavam, devolvi-lhes a alma.

- Caio Silvino é a encarnação do mal!

                    Novamente o ingrato mundo se desfez de mim. Filósofos definiram o fenecer de minha alma. Mas, o tempo não determina uma existência, apenas hospeda uma passagem. Ouvi meu próprio uivo diante das trevas, procedi ao Inquietante lamento da reconstrução. Voltei, dizem que do mundo dos mortos. Arranquei as línguas dos oportunistas.
                    Agora me sinto inanimado neste espaço de tempo. Eu fotografei e espanquei a morte, vi sua face pedindo clemência.
A estafa da reencarnação findou por aporrinhar-me. Apanhei uma enorme quantidade de dinamite e intercalei tubos, aos quais adicionei nitroglicerina. Fiz um revestimento no corpo, comprimindo tudo com a ajuda de um potente cinturão. Criei o termo “homem bomba”. Um botão colado a meu dedo estava pronto para acionar a explosão. Olhei-me e algo me encafifou. Todo o material estava protegido por pequeninas cruzes de metal. Não entendi a embalagem, tampouco estava preocupado com simbologias.
                    Acendi um cigarro e percebi que estava incorrendo num desfecho caótico, se deveria encerrar a estadia, eu deveria morrer envenenado, isto me facultaria um status de nobreza, ao qual eu não necessitava, mas, por hora estava deixando-me feliz. Busquei uma garrafa de uísque, meus olhos faiscaram numa frenética dança acompanhada por uma enorme excitação. Dissolvi uma generosa porção de arsênico e misturei-a a bebida. Não contente, adicionei estricnina. Aquele ritual se fazia necessário, aquela era mais que uma simples celebração à morte, significava a soltura das amarras que me prendiam ao lastimável calabouço apelidado de mundo. Monótonas reencarnações a procura de nada. Entediante missão que me exauria numa finita repetição de atos infames, acrescidos de rancor. Sorvi o aprazível líquido, estava encerrando meu contrato constitutivo desprovido de ingerência na ausência de auto-gestão.
Senti um tremor. A respiração arquejava num intermitente compasso. Olhei para minhas mãos, estavam tingidas de roxo. O sangue coagulado decorava meus desbotados lábios. A visão tornou-se tênue. O corpo ressentido pendeu fraquejado. Por minhas veias corria o líquido letal que tinha o efeito de uma navalha. Minhas células estava sendo devastadas. Meus órgãos dilacerados pelo veneno. Aquilo devorou o intestino e atacou o cérebro. Os neurônios se acotovelaram amedrontados.

Enquanto estava abraçado à minha doce dor, vi o inferno tomar chegada. Milhões de demônios me cercaram. Olhavam para mim estampando certa incredulidade. O demônio dominante das trevas, deus alguns passos e colou seu rosto ao meu. Ele ostentava uma alegria que contagiava a todos. Eu era o troféu há muito almejado. Agora eu estava ali, imóvel, indefeso, a mercê do próprio mal.

- Te pegamos, Caio Silvino!

Todos os demais demônios se deliciavam com minha derrota. Não sabia que era tão temido por aquelas criaturas. A besta olhou fixamente para meus olhos e arrancou meu olho esquerdo. Aquilo doeu, senti o pavor da alucinação. Em seguida, Lúcifer mastigou meu olho, apreciando-o como iguaria. A um sinal do chefe, alguns demônios de categoria inferior, se projetaram sobre mim. Arrancaram meus pés, e cravaram suas garras em meu envenenado cérebro. Minhas forças haviam cessado.

- Era uma vez Caio Silvino!

Eu não estava enxergando. O sangue escorria por todos meus poros. Então, direcionado por um impulso, lembrei-me do botão que detonaria os explosivos. Apertei o dedo. Uma cortina de fumaça formou-se sobre o inferno. A explosão foi precedida por uma chuva de cruzes provenientes dos estilhaços. Ao tocar nos demônios, o efeito da cruz fora devastador. Todos os demônios foram aniquilados. O enxofre alastrou-se, tornando o ar intragável. Foi então que entendi o propósito das cruzes.

                    - Sou o último demônio, não deixe a treva se iluminar! – ruminou uma criatura se contorcendo, com a cruz a consumir sua alma - Deixe-me estar com você!

Olhei para a peste que se contorcia. Não me apiedei do infeliz. Dei alguns passos. Então reparei que meu corpo estava intacto, com a morte dos demônios, minha aura restaurou o brilho  e recompôs a  matéria.

- Que farei para atravessar o escudo que me separa de teu reino?
- Para transpor o véu que oculta minha divindade, antes, é necessário saber onde nasce o ódio! – disse eu, enfiando a cruz no coração do desalmado.

Agora, aqui no leito deste rio, espiando para a imensidão da natureza que me saúda, lhes digo que é com muito carinho que cultivo meu ódio acumulado. Quando incorporo, apago a luz da esperança. Sou o brilho que esmaece, o riso que entristece. Fiz-me desprovido de sonhos ou alegrias. Ultrapassei a barreira do certo e errado. Sou a linha divisória entre o bem e mal, feito um pêndulo com vertente contraditória gestando o inimaginável, ou talvez, um Deus ignorado pelos escribas.


Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 22/12/2005
Reeditado em 10/01/2007
Código do texto: T89306
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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