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Resto de Mim

        Quando cheguei na beira da praia, eram seis horas da manhã, ainda estava meio escuro. O sol do verão já começava a surgir no horizonte a minha frente. A visão era das mais belas. Esperei de olhos fechados que o mar beijasse meus pés. Fiquei assim por um minuto inteiro. Nada aconteceu. Quando abri meus olhos novamente, o mar não estava mais ali.
Até onde eu podia enxergar, onde havia um mar azul, somente havia o deserto. Nada de ondas, nada de nada. Apenas a vastidão a minha frente. E eu poderia chegar à África caminhando, se eu quisesse.
Também a minha volta não havia ninguém. Aquelas mesmas poucas pessoas que eu encontrava todos os dias nas minhas incursões matutinas pela areia não estavam ali. Era eu e o resto que havia sobrado do mundo. Eu ali, sozinha. Talvez Deus estivesse em algum lugar, não sei. Talvez até Ele tivesse ido embora também.
Só restara eu naquele mundo inabitado. Mas o sol vinha forte e vinha quente. Independente do que acontecera – mas o que acontecera? – o sol não se abatera. Ele estava surgindo brilhante e amarelo, seus raios começaram a me tocar. Mas as ondas do mar não viriam mais beijar meus pés.
Caminhei alguns passos, desnorteada. Não sabia se iria para frente ou para trás. Se atravessava o deserto do Atlântico procurando alguém para conversar. Tudo era silêncio e solidão. Os pássaros não estavam no céu.
Dei um grito. Meu grito ecoou pelo espaço, acho que atravessou mundos. Ninguém veio, ninguém ouviu. Se Deus escutou, também não quis fazer nada. Mas eu precisava ouvir o som da minha própria voz, necessitava saber se eu também estava viva. E estava. A única herdeira de um reino vazio.
Tantas vezes pensei em recomeçar minha vida dos pontos em que eu julgava haver falhado. Até tentei consertar meus erros, mas na maioria das vezes acabava por seguir meu rumo, passando por cima deles e de quem estivesse por perto, na ânsia de viver a vida e chegar mais rápido naquilo que eu havia traçado para minha vida. Fechei-me no meu egoísmo, guardei as coisas boas somente para mim, incapaz de dividir com os outros. Porque o meu mundo era somente eu, sem espaço para as outras pessoas.
E agora o mundo era meu. Tão meu, que todos foram embora e eu fiquei sozinha. Eu só tinha o sol. Até as ondas do mar que eu tanto amo, deixaram-me. E quando a noite chegasse, viria também a lua cheia iluminar o que restara de mim? Eu não queria que as estrelas tivessem caído do céu.
Naquela manhã acordei chorando. Já era tarde. A chuva caía, batendo no meu telhado. Saltei da cama, zonza. Ouvi barulho de vozes na cozinha. A vida estava correndo, independente de mim. Vesti a primeira roupa que encontrei e saí para a rua. Corri até o mar e meu rosto molhado era uma mistura de lágrimas e chuva.
O sol podia não estar ali, mas o mar, sim. As ondas vinham mais fortes e em pouco tempo eu estava ensopada. Apesar do mau tempo, havia pessoas a minha volta. Elas nem se deram conta de mim, mas eu me dei conta delas. Eu não estava só no universo e Deus deveria estar em algum lugar do céu a me observar.
Somente quando eu constatei que o mundo não acabara somente para me castigar, foi que voltei para casa. O sol já havia surgido e eu estava praticamente seca. Com exceção dos meus olhos, que ainda choravam.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 28/12/2005
Código do texto: T91506
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37904 leituras)
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Patrícia da Fonseca