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Minhas Asas Cor de Rosa

        Naquela manhã acordei com asas. No início nem tinha me dado conta. Levantei, espreguicei-me e me arrastei até o banheiro. Antes que eu visse meu rosto amassado e meus cabelos desarrumados, aqueles dois belos pares de asas cor de rosa ruflaram. Asas? Então seria eu um anjo?
Virei-me de costas, de lado, voltei a ficar de frente. Não haviam dúvidas. Eu agora possuía asas. Se era anjo, eu não sabia. Aparentemente, eu estava viva. Viva e feliz. Sem muito esforço, consegui fazer com que elas se mexessem. Elas bateram suavemente. Então me empolguei.
Ali, trancada no banheiro, ouvindo as vozes da minha família lá na cozinha, consegui bater minhas asas e ficar a poucos centímetros do chão. No espelho eu podia ver refletidos meu assombro e minha satisfação. Até onde eu sabia, nunca ninguém na família tinha alguma vez na vida possuído asas. Só o tio Rodolfo que depois de um porre, pendurou-se na janela e gritou para minha avó que era uma águia. Ele caiu, mas esta é uma outra história. Pobre tio Rodolfo…
Mas eu não era o tio Rodolfo, estava dotada de asas e não estava bêbada nem morta. Eu queria voar. Lá fora fazia um céu azul de primavera. Toda a natureza conspirava a meu favor. Abri a porta do banheiro, devagarzinho. Uma borboleta amarela entrou de repente. Era um sinal. Talvez um convite. Lá ía eu em direção ao meu sonho de voar.
Felizmente ninguém me viu saindo do banheiro com as minhas asas cor de rosa. Corri até a sacada do meu quarto. Eu morava no oitavo andar. Equilibrei-me na amurada. Respirei fundo. Abri as asas e saltei.
Não, eu não caí. Saí voando pelo céu. As pessoas lá embaixo não me viram, concentradas demais nas suas próprias vidas e preocupações terrenas. Para que olhar para o alto? Mas se elas vissem uma garota de asas cor de rosa, voando acompanhada de passarinhos, talvez isto fosse capaz de mudar alguma coisa em seus corações e mentes.
E eu voei, sem preocupação alguma. Cruzei terras, mares. A manhã se foi, a tarde chegou e depois, a noite. Vi-me rodeada de estrelas, a lua cheia também me saudou. Era tudo tão belo que desejei voar para sempre. No entanto, já era hora de voltar para casa. Achei que lá poderiam estar preocupados comigo.
Aterrissei na sacada. Minhas asas eram lindas e parecia que já haviam nascido comigo. Sentei na cama, senti-me cansada, dormi. Só fui acordar no outro dia, pela manhã, quando minha irmã me sacudiu pelos ombros. Me apavorei! Ela podia quebrar minhas asas. Meio estonteada, ainda gritei:
- Cuidado com as minhas asas!
Nunca vou esquecer os olhos da minha irmã. Ficaram redondos de tão surpresos.
- Que asas?!
- Estas aqui, as cor de rosa…
Para meu terror, não existiam mais asas. Fui correndo me olhar no espelho, virei-me do avesso e nada. Minhas asas cor de rosa haviam sumido. Ou nunca estiveram nas minhas costas…
E meus vôos com os passarinhos, o brilho das estrelas tão pertinho… teria tudo sido um sonho? Pensei em contar tudo para minha irmã, revelar minha incrível aventura. Mas tinha sido só um sonho lindo, porque lá em casa ninguém havia sentido minha falta, eu passara dormindo toda uma madrugada, sonhando coisas fantásticas. E que de tão fantásticas, não era possível partilhar com mais ninguém. Minha irmã continuava me olhando e eu achei melhor não falar mais nada. Eu havia sido pássaro, borboleta, anjo por algumas horas. Já isto me bastava.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 06/01/2006
Código do texto: T95090
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37914 leituras)
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Patrícia da Fonseca