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Viagem insólita



     De certa forma aquela situação tornara-se cômoda para aquele aventureiro que agia como se fosse um guerreiro medieval. Enquanto cavalgava em sua montaria observara que os habitantes daquela região pareciam ser primitivos, embora não demonstrassem, em relação a ele, qualquer animosidade.
     Sua montaria estava cansada depois de dois dias seguidos ,perambulando por aquela região meio selvagem e inóspita. Suas paradas haviam sido tão-somente para alimentar-se e neste mesmo intervalo sua montaria se fartara de capim verde.
     O calor do fim de tarde parecia ser pior que os outros. Um vento quente vinha do leste e trazia fumaça de grande queimada. O  vento quente parecia estar sendo deslocado pelo fogo.
     O Leste era apenas um rumo que ele criara em sua imaginação. O sol não tinha ainda definido  sua verdadeira rota. O seu movimento era confuso, sem rumo.
     Por vezes pensara ser uma ilusão de ótica ou mesmo uma perturbação do seu sentido de orientação. Ele se sentia muito confuso..
     Durante aqueles dias de caminhada quase ininterrupta, ainda não vira nenhum pássaro ou mesmo qualquer outro animal. Apenas vira aqui e ali pessoas que se comportavam em relação a ele de forma indiferente. Pareciam estátuas que se moviam, porém sem esboçar qualquer emoção.
     Enquanto se recordava deste fato, lembrou-se de que ainda não  sabia o  porquê de estar ali. Vestido de forma grotesca e montando num cavalo que não era lá muito normal, seguia fora dos  padrões que conhecia na terra.
     Onde ele se encontrava ainda era algo que precisava descobrir e mesmo como fora ali parar. Sua consciência de ser e de pessoa parecia ter desaparecido, pois andava de forma confusa, sem rumo definido.
     Lembrava-se apenas de que dirigia seu confortável carro, rumo à cidade vizinha de onde morava, quando um nevoeiro na estrada o obrigara a diminuir a marcha do veículo.
     E agora lá estava ele montado em um cavalo, que nem mesmo com isto se parecia. Nada mais lhe restava de lembranças e de recordações
     Por segundos, uma angústia lhe perpassou pela mente e um forte aperto no coração foi sentido, por sentir-se só, num lugar estranho e sem saber qual era seu destino.
     Naquele momento, sua família deveria estar tentando comunicar-se com ele. Mas ele nem mesmo sabia como se comunicar com ela.
     Logo à frente notou que algumas árvores se destacavam num horizonte ainda bem distante. Naquele momento passou a ter certa esperança de poder encontrar a resposta que procurava já há muito tempo.
     Tentou apressar a  montaria, porém esta nunca se importara com seu comando, sempre mantinha a mesma marcha, lenta e contínua, sem se importar com as ferroadas que recebia quando as esporas lhe cutucavam por baixo.

     Afinal, para que pressa se ele nem mesmo sabia para onde ia nem mesmo sabia o que o esperava?
     O mais sensato naquele momento seria continuar sua marcha sem se apressar nem tentar impor ao “cavalo”, uma marcha mais rápida.
     Parecia que a montaria já sabia qual era seu destino, pois as rédeas, mesmo soltas, não faziam com que ele se desviasse daquela rota, que era para o animal muito conhecida.
     O trajeto parecia ser longo e dificilmente seria alcançado antes que o sol se ocultasse em algum lugar qualquer. Limitou-se a pensar e tentar descobrir através de suas lembranças, como viera a um lugar tão estranho como aquele.
     Depois de algum tempo que lhe pareceu ser uma eternidade, o sol se escondeu por detrás de algumas colinas que apareciam distantes.
     Desceu da montaria e, após tirar-lhe os arreios, colocou-a para se  alimentar na relva que tinha por toda aquela região. Olhou para o alto e viu que algumas estrelas apareciam. Elas eram estranhas, pois pareciam ser bem maiores das que sempre via.
     Estaria em outro planeta, teria sido raptado por algum ET ou se transportara através de dimensões  intertemporais, quando se adentrou com seu carro naquele nevoeiro, na estrada por onde trafegava ?
    A sucessão de perguntas ficava sem respostas e assim seria até atingir o final da viagem que ainda não sabia quando seria. Somente  seu cavalo parecia saber o seu destino. Mas ele não conseguia falar com animais, muito embora ouvisse dizer  que o homem é um animal racional.
     A irracionalidade desta assertiva ficava patente. Se racional, não poderia de maneira alguma ser animal. A sociedade, no entanto, em sua grande maioria, aceitava esta sentença como uma verdade absoluta e incontestável.
     Enquanto seu pensamento filosofava sobre ser ou não animal, ele, como ser humano pensante, não se importava muito com isto, pois nada lhe trazia de benefício ao seu modo de vida, que sempre fora independente e sem compromissos com nada.
     As lembranças começavam a vir a sua mente de forma atabalhoada e sem uma lógica definida. Aquele mundo todo era ilógico.
     Será que alguém, naquele momento, estaria preocupado com seu desaparecimento ou estaria sonhando tudo aquilo? Diversas perguntas e nenhuma resposta. Sabia que não era sonho, pois as sensações e tudo o mais era muito real. Tudo era realmente muito estranho.

     O estranho é apenas aquilo a que ainda não estamos acostumados.

     Com o passar do tempo tudo parece ser normal. Enquanto pensava sobre isto, ouviu um som ainda bem difuso que acontecia em algum lugar, dentro daquela noite que se adensava, abarcando tudo ao seu redor.
    O alarido meio desconexo parecia indicar uma grande confusão de palavras e gritos de várias pessoas, como se estivessem dentro de uma calorosa conversa. Pensou em procurar descobrir a região de onde vinha, porém a noite se tornara qual breu, e a pequena fogueira que acendera apenas iluminava um pequeno circulo que talvez não chegasse a  cinco metros de circunferência.
     Durante minutos tentou escutar para ver se conseguia distinguir o que estava sendo falado ou discutido naquelas paragens que parecia ser bem perto dali, mesmo que não conseguisse identificar a direção de onde vinha. Depois de muito tempo adormeceu, vencido que fora pelo cansaço.
     Ainda bem cedo, acordou assustado, quando sua montaria se aproximara dele e começara a fungar sobre seu rosto, como se desejasse aqcordá-lo.
     Zangado pelo susto que lhe fora pregado pelo “cavalo”, pensou que seria melhor se tivesse sido acordado normalmente. Depois de algum tempo sorriu e ficou até agradecido pelo fato de ter sido acordado bem cedo, pois,com certeza, chegaria ainda naquele dia ao seu  destino, que ele ainda não sabia qual era.
     Passara a ver seu destino como aquele amontoado de árvores que divisara muito distante no dia anterior, porém por mais que tentasse não conseguira chegar perto da vegetação. Após beber um chá feito com os apetrechos que trazia, levantou-se e montou o cavalo, partindo decidido só parar quando chegasse até aquela vegetação que fora vista no dia anterior.
     Cavalgou por horas seguindo rumo à floresta, porém esta parecia que se distanciava cada vez mais que ele avançava.Parecia que ela ficava sempre à mesma distância. De certa forma, imaginou que bem poderia ser apenas uma miragem.
     Pensou que estava doido ou mesmo sonhando com algo que se tornava a cada minuto um pesadelo. Nunca estivera em situação tão estranha como aquela.
     O sol indicava que já passava do meio-dia, hora esta que parecia ser apenas uma lembrança do tempo onde podia dizer e sentir como se estivesse em algum local que fosse normal.
     Aquele local em que se encontrava parecia ser surrealista, onde nada tinha sentido nem mesmo as paisagens seguiam uma lógica plausível ou racional. Tudo era estranho, esquisito, sem sentido.
     Distante, divisou diversas pessoas que se moviam em sentido contrário e, desta vez, passou a ficar animado, pensando que poderia comunicar-se com aquelas criaturas, pois as pessoas que vira anteriormente ficavam sempre como se fossem estátuas  paradas, sem se importar com sua pessoa. Parecia, enfim, que sua solidão estaria por terminar.
     Agora, no entanto, era algo diferente, pois notava que a caravana vinha em sua direção e que se aproximava de forma rápida.
     Em poucos momentos, aquele que vinha à frente da caravana dirigiu-lhe a palavra e mesmo sem entender o que acontecia,  respondeu :
    - Está falando comigo, você me conhece?
    - Claro, nós o estamos esperando, siga-nos e logo saberá tudo.

     O policial continuava a dar ordens e pedir a todos que se afastassem para que os bombeiros pudessem efetuar o trabalho deles, sem serem atrapalhados.
     Já fazia mais de uma hora que tentavam desobstruir e conseguir resgatar o corpo que se encontrava dentro daquilo que anteriormente fora considerado um carro.
     Sabiam que não havia nenhuma chance de encontrar o motorista com vida, pois o veículo fora totalmente esmagado e destruído, quando batera de frente com a carreta.Tudo deveria ter acontecido em decorrência do forte nevoeiro que se abatera sobre aquela região que, segundo alguns entendidos, fora provocado por uma inversão térmica.
     Para o policial, os detalhes pouco importavam, o que realmente era importante seria conseguir resgatar o motorista com vida e isto ele sabia que seria impossível.Notou que o sangue escorrera por entre as ferragens e o tempo foi com certeza  um inimigo cruel do acidentado.
     Depois de momentos de tensão, finalmente, os bombeiros conseguiram chegar até ao corpo e puderam constatar que ele já se encontrava frio, indicando que o motorista já falecera há mais de hora e que a morte deveria ter acontecido no momento da colisão.
     Durante minutos, os membros dos bombeiros e da polícia procuraram os documentos, a fim de identificar o corpo e mesmo saber a quem deveriam avisar do fato acontecido.
     Após a identificação do falecido, os policiais solicitaram que o guincho rebocasse as ferragens que haviam sobrado daquele veículo, enquanto eles iriam tomar as providências de avisar os familiares da vítima do acidente.

     Por mais de uma hora a caravana seguia, sendo seguida pelo silencioso forasteiro que a todo o momento se interrogava, onde estava, e para onde estaria indo. Por que aquele mistério?
     Silenciosamente, ele aguardava respostas para aquela insólita e solitária viagem, que iniciara sem saber ainda qual seria o seu destino e como poderia retornar a sua casa e cumprir os compromissos que deixara para traz, quando saíra e emigrara de forma tão misteriosa para seguir aquela viagem.
     Quando a caravana parou, ele sentiu certo alívio em poder, enfim, saber onde estava, porém o chefe que seguia à frente passou por si e sem nada falar entrou em uma cabana que estava bem próxima.
     Durante alguns minutos, ficou impassível esperando o retorno do chefe da caravana. Minutos depois do chefe da caravana aproximou-se, colocou a mão sobre seu ombro e disse:
     - Seja bem-vindo ao nosso meio, tudo faremos para que sua estada aqui seja a mais confortável possível.
     - Afinal, onde estou?
     - você retornou ao mundo real, a que os humanos chamam de mundo espiritual.
     - Não entendi.
     -Não se preocupe, logo entenderá, pois você acabou de desencarnar, deixou o mundo da terra ou mundo físico e agora se encontra em outra dimensão, onde a vida é real.
     - E quem é você?
     - A partir de hoje serei seu guia, até que consiga andar sobre suas próprias pernas, e possa entender o verdadeiro significado da vida e consiga acostumar-se com tudo o que vê.
     Após ouvir o que falara o chefe da caravana, o forasteiro viu passar em sua mente como se fosse um filme, toda sua vida, até aquele momento no nevoeiro em que a  carreta  se aproximava...





 23/10/03-VEM.












Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 09/01/2006
Reeditado em 05/01/2012
Código do texto: T96577
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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