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O chefe era um desgraçado - parte 01 de 02




A  chuva fina caindo por detrás da janela me faz lembrar o que fiz.
Não me arrependo de modo algum. Ele merecia.
Por tempo demais a coisa toda foi prorrogada.
Aposto que como eu, havia muitas pessoas loucas para executar a tarefa a que me propus.

Arrogante e insolente, por muitos anos eu o suportei. Sua prepotência ao falar com os subordinados era algo que irritava até mesmo os que não tinham nada a ver com o caso.
Em seus modos havia um quê de superioridade que me doía os nervos.

Primeiro pensei em encontrar uma garota e fazê-la levá-lo até um motel, onde eu fotografaria, ou mesmo filmaria, os dois entrando e depois saindo do mesmo. Quem sabe até, conseguisse tirar umas fotos, ou filmar a transa. Isso. Eu acho que a filmagem da transa é que ficaria melhor. Poderia extorqui-lo e ao mesmo tempo fazê-lo tratar melhor as pessoas. Iria derrubando-o aos poucos. Uma carta anônima entrega em casa, o deixaria em mau lençóis para explicar-se.

Na firma, ligaria constantemente, fazendo seus nervos se abalarem tanto que no final um enfarto seria coisa normal. Eu queria vê-lo sofrer, minguar, passar pelas mesmas situações de embaraçamento e humilhação que infligia aos outros.

Mas logo descartei a idéia da garota. Afinal, ele tendo dinheiro, ela poderia mudar de lado e me entregar. E como todos sabem o dinheiro compra tudo. Só os hipócritas, já cheios da grana, são capazes de dizer que não. Nós, aqueles que tem que rastejar para tomar uma cerveja por mês, sabemos que isso não é verdade. O dinheiro é poder. Mas eu fui burro. Uma exceção. Um idiota por completo.

Depois daquela discussão na escada, meu ódio chegou ao limite. No horário de almoço eu saia para fora do escritório e olhava a fiação elétrica do prédio. Quem sabe eu poderia dar um bom choque no Desgraçado. Se pudesse engatar um fio elétrico na tomada e passá-lo por debaixo do carpete até a mesa dele e fazer esse fio se conectar até a fechadura da gaveta. Mas o piso teria que estar molhado. Era arriscado e um pouco difícil de ser executado. No entanto, a cada reunião eu observava a tomada e meus olhos esquadrinhavam todo o local na esperança de que tomasse a coragem necessária. Várias vezes durante o dia, eu entrava ali, na sala dele, sem ninguém por perto. Se tivesse rapidez suficiente...mas eu nunca fiz isso.

A petulância dele era enorme. Por causa de míseros cinco reais, chegava a ameaçar todo mundo ali dentro. Ele se achava um Deus, e nós todos éramos apenas semente, que ele podia jogar de um lado para o outro, ao seu bel prazer. Quando chegava a época do pagamento é que o homem, se é que se pode chamar um ser assim de homem, virava mais mesquinho do que já era. Ele jamais fechava 48 minutos de extra como uma hora. Pagava somente os 48 minutos. Se em uma folha de ponto faltava uma assinatura, de um único dia, deixava o fulano sem receber, por pelo menos uns dez dias. “Tem que assinar. Se não assina como poderá provar que estava trabalhando” dizia isso, mesmo sabendo, através de outros boletins assinado pelo fulano, que este estivera trabalhando no tal dia, em que não assinara o ponto. Quando o pessoal vinha com o pedido de vale transporte, a primeira coisa que fazia era ligar para a empresa de ônibus, para se certificar dos horários colocados na folha do pedido, e se porventura, o horário estivesse errado não fornecia os passes na velha crença de que se não sabia o horário de ônibus não usava de fato o passe. Como se a pessoa pudesse saber coisa que nem os motoristas ou cobradores sabiam direito.

Em uma festa, de noivado de um funcionário, onde serviram arroz carreteiro, por pouco não fiz a besteira na frente de todos.
Eu estava reclamando, afinal o funcionário que se casava trabalhara na empresa por sete anos, e no entanto sequer um churrasco decente fizeram para o colega de trabalho. Achei aquilo uma falta de valorização sem tamanho. Estava a comentar com um outro amigo quando o dito cujo se aproxima. Sua presença já mexeu comigo, e desviei o rumo da conversa, no intuito de que ele não parasse para conversar conosco.
Para meu desespero ele parou em minha frente:
----- e então? Não é uma grande festa?
Eu me controlei e meu amigo apertou meu pulso, como a me impedir de falar algo que O Desgraçado merecia ouvir.
---- Realmente! Baita festa! Um casamento festejado com arroz carreteiro e kisuco. - fiz um muxoxo com a boca, fremindo os lábios - Baita festa!
---- O que você queria? Um churrasco, cerveja e bebidas? Estamos em época de vacas magras. O pasto tem que se adequar.
---- Sei! E o mercedes novo em que o senhor veio? E esse seu terno, decerto que não é mais caro que toda essa festa que prepararam?
O meu amigo vendo que eu me exaltava, saiu para um lado.
Eu estava agora sozinho, frente a frente com o ser mais ignóbil e sem sentimentos que já vira até então.
---- É para isso que eu trabalho. Para poder ter uma vida melhor. Um dia todos aqui terão uma vida assim. Basta fazer as coisas certas, como eu faço. - disse ele com um ar de hombridade sem tamanho. Cara de pau, eu tinha vontade de esmurrar aquele nariz torto e deixá-lo ainda mais com cara de buldogue.
---- Sei! Sem sentimentos! Números! Frações!- disse olhando por cima do ombro do Desgraçado, sem conseguir fitá-lo - é nisso que tudo se resume.
---- Mas é mesmo! Não podemos resolver o problema de todos os que trabalham com a gente! Não devemos nos envolver! Cada um tem a sua vida! Eu só administro a empresa. Também tenho a minha vida, os meus problemas.
--- Sei! E mesmo que os problemas dos outros se resolvessem com uma simples palavra sua, isso seria esperar demais não é?
Ele sorriu. Um sorriso de escárnio. De orgulho e pomposidade. O Desgraçado tinha um ar de superioridade que minava as forças de quem se lhe opunha. Seu modo de falar, parecia que sempre sabia o que dizer. Como se toda conversa já tivesse sido estudada anteriormente.
---- Olha, sei que está zangado por causa do caso do desligamento do Emerson. Mas ele era muito fraco, não rendia o que se esperava. Não podíamos ficar com ele, só porque tinha a mulher no hospital e dois gêmeos com menos de um ano em casa. Se não servia para a empresa, então...
---- Ora, você bem que podia tê-lo transferido para outro setor. Dar-lhe outra chance. Ele saiu como se eu fosse o culpado de sua demissão. Você nem sequer falou com ele. Só me deu aqueles papéis para ele assinar e pedir sua carteira de trabalho. Foi muita saca...
Agora eu criara coragem e o olhei nos olhos. Aqueles olhos gordos, petulantes, como a enxergar o mundo somente em cifras, agora pareciam ter aumentado de tamanho. Ele me pareceu nervoso.
---- Olha como fala, rapaz! Ainda é meu subordinado! Não está aqui para discutir minhas ordens ou decisões!
---- Não estou discutindo! Eu achei errado o que fez, como um monte de outras coisas...
Eu o atingia, em pequenos golpes. Nem mesmo eu me reconhecia. Jamais tivera tanta ousadia ou coragem para lhe falar daquele modo.
---- e o que você sabe de errado ou direito? você é apenas um ajudante da empresa.
---- Posso ser ajudante, posso ser seu subordinado, mas sei muito bem o que é errado e o que é certo. Chega de ficar tanto tempo calado. O senhor trata as pessoas como se elas fossem escravos, nós...
Nesse momento meu amigo voltava para junto de nós, com uma morena de cabelos compridos ao seu lado.
---- Você não sabe o que diz! Administrar uma empresa não é tratar a todo mundo como irmão. Cada situação exige um modo de agir... ahh que se dane, você é muito estúpido para entender isso.
Quem estava fulo agora era eu. Ele falara isso em voz alta, e todos os que estavam ali, na festa, voltaram os olhares para nós.
Quando eu ia replicar O Desgraçado já se mandara, com seu ar de vitorioso e sua pose de “Deus”.
Meu amigo e a morena, notaram que eu embranquecera e a palidez rapidamente tomou conta de mim. Por um instante pensei que iria desmaiar pois uma tontura tomou conta de mim.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 19/02/2006
Código do texto: T113919

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes