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RITO DE SALVAÇÃO

Escrivaninha empoeirada, papéis. No corredor, algumas pessoas aguardavam, faixa no braço, hematomas, mulher chorando, algemas, um homem embriagado dormia, o travesti lamentava-se. O gordo delegado, gravata torta, palito entre os dentes, gesticulava, telefone nas mãos.
- Outro? Que porra! Mesmo jeito? Dessa vez, onde? Favela, de novo? Ah... perto, no aterro....Sei...sei...Jovem? hummm...Corram atrás, bando de merdas!
         O investigador, indiferente, adivinhava o acontecido. Todos os casos eram-lhe sempre banais, parte da vida. Mais uma garota, terceira em quarenta dias, quaresma passado o carnaval. Nenhum indício. O que o levara a esse trabalho? Nada que pudesse se lembrar, talvez por falta de rota própria procurasse os rumos de outrem, criar sua história com mote alheio. No rádio, uma voz feminina: “se você não me queria/ não devia me procurar/ não devia me iludir....” O canto levou-o até Maria Clara. Manias de Clara, as roupas dobradas, cama esticada, a pia sempre limpa, a casa impecável, seus quadros, suas tintas, pincéis. Nas figuras dos anjos, o rosto pálido e suave de Henrique.
Ela, pensamentos calmos, tão puros da vida, ele os tornara infelizes, distantes do mundo. De Maria Clara refazia a vida regrada, trabalho, casa, sem família. Um único deslize, encontrá-lo em uma esquina qualquer e acompanhá-lo. Até não agüentar mais, até perder toda a paz.. A voz ainda cantava: - você arruinou a minha vida/ me deixa em paz...
O bêbado acordara e brigava com os vizinhos. Sem forças, voltava ao chão de vomito.
- Coloca o velho na cela que passa logo a bebedeira. Porco!
Cada uma que acontece...

                                                  II


Percebeu que, como era habitual, o delegado Simões acordara
de mau com o dia. Ainda encostado à porta, sem se perceber já estava pensando na infância, casa materna, pai bêbado de vomito chegando, a mãe grávida brigando, reclamando mulheres à toa, o pai avançando, menino assustado,  pontapés na barriga, a mãe acuada, descontrolada, faca que cai da pia, mão da mãe, faca no abdômen, o pai sangrando. Ele não morrera, a mãe não fora condenada, o irmão nascera, o pai saíra pela vida para nunca mais voltar. Souberam-no morto alguns anos depois, ninguém lamentou. A mãe agarrou-se a fé fervorosa, orações sem fim. O menino cresceu desobediente, amigo das ruas, dos desajustados, temperamento sombrio. Seria o pai outra vez?
  Henrique, irmão temporão, nascido da tragédia, tímido, introvertido. Rosto de anjo,aquarelas de Maria Clara, mãos delicadas sempre em preces, quando rezava parecia em êxtase, lindo de se admirar tamanha devoção-entrega. Nunca brincava, amigos dos livros, das hagiografias, das Virgens no céu. Entre os dois, a irmã Agnes, falecida criança.
- Deus sabe o que faz! – voz da mãe – Mulher, nesta vida, se não for puta, sofre. – estranha sentença.
Henrique foi criado sozinho, pouca conversa, amigos da igreja, estudante convicto da história dos homens, de Deus, amado pela mãe. Esteve no seminário alguns anos. Voltou. Apenas um comentário: “A obra de Deus está aqui fora.” Anos depois, uma pequena confissão – os pecados estão em todos os lugares, os homens são todos falíveis, as coisas indignas povoam até lugares sagrados – e, sem mais, nunca  voltou ao assunto. O que alma tão indefesa presenciou, ninguém o soube.
A mãe sempre amarga, prevendo pecados. Maria Clara, tão doce, tão distante...
Junto ao delegado, chegou à cena do crime, dia nebuloso em maio. Favela próxima, terreno baldio, a garota nua, fita larga adesiva nos lábios, nas mãos e nos pés imobilizados. No corpo, escoriações. Agressões visíveis de chicotadas, murros, pontapés, morte por estrangulamento. Como sempre, nenhum sinal de violência sexual. As mesmas letras inicias às costas: SACA. Por  quê? Alguns deduziam  serem iniciais do assassino, como, Sebastião Antunes Cardoso – assassino. Será? Talvez uma organização? Outras hipótese e mistério.
Entre tantos, prenderam Sérgio Arantes Constantino. Vivera em uma das favelas, cumprira sentença por estupro, drogado, desocupado. Interrogatórios, tapas, pontapés. Nada se provou e Serjão saiu indignado pelo mundo. Revoltado, cheirou, bebeu, fumou, espancou filhos e companheira, quebrou barraco. Depois, dormiu e tudo esqueceu.
Semana seguinte, a quarta vítima, a mais jovem, doze anos, menina de rua, dormia na praça, viciada, pequenos furtos.. O corpo inerte, a violência, provava-lhe que a morte era mesmo banal, como um gole de vodka barata depois do plantão, o fácil gozo das prostitutas final de noites debochadas, moeda ao mendigo, dormir com a cara no chão da sarjeta.  A mãe acusando: - Igual ao pai, perdido! – e subia-lhe um frio na espinha, faca fria no abdômen, imaginava Maria Clara descontrolada. Mas, não. Ela, sem choro, sem palavras, fora-se,  jamais soube se levou junto alguma dor ou apenas alívio, fim de caso. Nunca mais a viu.
Cansaço sem fim. Deixou o delegado com o que mais lhe aprazia, sorriso de galã, semblante de autoridade, encolhendo a barriga: entrevistas, televisões, jornais.Bar ordinário, trabalhadores braçais, procurou uma mesa, prato feito-rápido, óleo rançoso. Lembrava-se dos cadáveres. Por que a mecha de cabelos cortada? Para quê? Recordação para o serial killer?  As roupas não estavam rasgadas, provavelmente as garotas as retiravam espontaneamente. Sedução? Pessoa conhecida? Pedofilia?  Por que a tortura? SACA... SACA...
Outros detidos, suspeitos de rotina, enquanto garotas eram brutalmente assassinadas, todas pobres, desencaminhadas. Lastimável incompetência, não parecia possível achar pistas.

                              III


Segunda-feira, acordou mais tarde, gosto amargo de ressaca, cansaço mais acentuado, banho rápido, café frio no boteco sujo, expediente. Quinze dias, o assassino calado, sossegara? A voz da mãe lastimando-se, pensamento inútil em Maria Clara, poderia falar-lhe da falta sentida, pedir-lhe perdão... Saiu da delegacia, circulou pela praça, churrasco grego, esquecido do tempo e das horas marcadas na torre da catedral. E, assim distraído, viu Henrique subindo os degraus da igreja. Sentiu inesperada alegria infantil, foi-lhe ao encontro. O irmão já estava ajoelhado diante da imagem da Imaculada, as velas iluminando-a, preces em transe, os olhos verdes de Henrique. Invejou a fé do irmão, enquanto aguardava-o na penumbra do templo Divino. Viu quando se ergueu, tirou do bolso uma longa mecha de cabelos loiros e a queimou na chama das velas. Estranho... O irmão dirigiu-se à porta sem notá-lo, absorto e saiu. Tentou alcançá-lo mas já o perdera entre a multidão, pelas pequenas ruas laterais confusas. Os pensamentos confusos...
Sem vontade, voltou à delegacia, agitação. Outro corpo encontrado, adolescente, loira, cabelos longos, durante a madrugada. Alguns garotos empinando pipas o encontrariam já a tarde. Quinze anos presumíveis. Pensamentos vazios, deixou para trás os colegas, foi à casa da mãe. Encontrou Henrique de saída, iria entregar sopa aos pobres, ato caridoso, mãe orgulhosa do jovem anjo, desprendimento. Convidou-se para acompanhá-lo, convite aceito, estranheza.
Uma perua  os esperava na praça, mesma catedral, sociedade filantrópica, os sinos tocando, cumbucas, colheres plásticas, pedaços de pão. Chegaram à favela, altas horas. Como a assistir um filme, observava Henrique, generoso, despejando a sopa e entregá-la, gracioso, mãos de bondade, rosto sério, e terno. A pouca distância, um grupo de jovens, em torno de uma fogueira, bebia, fumava cheiro de mato e ria-se. Esparsos, vinham buscar a sopa, voltavam, repetiam o pão, palavrões, risadas.
Uma garota do grupo, a mais brejeira, aproximou-se, shorts reduzido, mini-blusa, vento cortante, outono. Os olhos verdes de Henrique em transe-oração, nos olhos da garota descarada cobiça, insinuou-se e explodiu: “Não gosto dessa merda!” – Pegou a cumbuca e saiu resmungando coisas sem nexo. Os olhos verdes do irmão... Pouco depois Henrique a chamava e conversava candidamente, caminho de salvação, entregou-lhe santinho-oração. – “Foda-se”- risada da menina, divertida, olhar provocante, sem conta da vida. Os olhos verdes de Henrique....

                              IV


Madrugada se insinuava para encerrar a ação. Resolveu não voltar com a perua, pediu para o irmão acompanhá-lo, queria conversar, havia tanto para saberem um do outro, Henrique concordou. Tentou assuntos diversos, sempre as mesmas respostas curtas, evasivas, coração impenetrável. Caminhavam pelo acostamento, estrada vazia, acesso à marginal. A lua no céu se escondia, coberta de nuvens, testemunha muda.
- Eu o vi na catedral, queimando os cabelos da garota loira...
Henrique não se alterou, indiferente, mudo.
- Por quê?
- Todos precisam de Deus, da luz da salvação. Eu sou seu
servo, ajudo a aplacar os pecados, reduzo o caminho.
- Você mata adolescentes... Por que os cabelos?
- Rito de salvação, entrega da alma a Deus.
Caminhada, silêncio completo, o tempo parado, um frio pela
espinha, horror não incorporado. Henrique interrompeu o nada:
-  Você perdeu-se de Deus, irmão, precisa da luz da salvação, encurtar o caminho...  encontrar o rosto de Deus...
Um forte abraço de Henrique. Enterneceu-se, sentiu as lágrimas nos olhos sempre secos, percebeu a pressão no abdômen, frio na espinha. Lentamente, soltou-se do abraço fraterno , a mesma faca que cortara o pai agora em seu corpo. Lentamente, Henrique a retirou. Sem dor, viu o sangue manchar-lhe a camisa. Lentamente, a lâmina a penetrar novamente. Lentamente, novamente. E outra vez. Lentamente, dobrou os joelhos, frio por todo o corpo, tremor, o céu se afastando, as preces do irmão. Procurava mas não via a face de Deus, apenas os olhos verdes de Henrique em transe-oração: - Suba ao Céu, amém!
Escuro chegando, sentiu quando o rosto encontrou travesseiro-formigueiro, agitação das formigas, pedaços de pedras, cacos de vidro, sussurro de Henrique: “Suba ao Céu, amém” – As letras dançando na visão turva, macabro ritmo:  A S A C... A S C A ... S A C A... SACA
- Suba ao céu, irmão. ..Não tenha medo... Amém!
Mato rasteiro, frio nevado, tremores, corpo empurrado pelo   sapato de Henrique nem percebeu ribanceira, já não estava. Nem Deus...
Ao amanhecer, fina chuva fria. No asfalto os carros passavam sem ver o cadáver enrolado sobre o abdômen. Enquanto isso, os ratos, rápidos e insolentes, vinham visitá-lo. Céu tão longe...





vitória Paterna
Enviado por vitória Paterna em 19/07/2006
Reeditado em 22/07/2006
Código do texto: T197478
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Sobre a autora
vitória Paterna
Santo André - São Paulo - Brasil, 63 anos
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