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Amélia revisitada

          Sabe, doutor, tão dizendo que estou errada, mas não acho não! Que eu devia te assuntado melhor e coisa e tal e tal e coisa, mas, doutor, eu pensei. Pensei bastante! Eles dizem que eu devia ter tido paciência e agüentado, mas eu agüentei. Deus sabe o quanto eu agüentei. Esses que estão falando assim, eu queria ver no meu lugar. Ah! Mas eu duvido que agüentassem meio dia, quanto mais cinco anos que nem eu.

          Quando ele se acamou com a Mariona por exemplo, que outra teria feito como eu fiz? Me diz? Quem ? Quem? E olha que nem foi preciso descobrir a sacanagem, ele falou assim, na minha cara, tim por tim só pra me humilhar. Não escondeu nada, nadinha. E que eu fiz? Briguei? Bestemiei? Que nada. Até dei razão pra ele, que ninguém é de ferro. Quem mandou eu não agüentar ele na cama, então tinha toda razão em procurar fora de casa quem agüentasse. Não tenho culpa de ser estreita e ele ter o negócio grosso demais. Podia maneirar; colocar só metade; amarrar um pano pra não entrar tudo, mas fazia? Queria por que queria enterrar tudo, até os grão. Então eu inventava que tava doente, que tava vindo pra mim, que tava com dor de cabeça e ele desguiava. Depois ficava quietinho no canto fumando um cigarrinho de palha, só matutando na vida.

           Não adianta bater na mesa me apressando que eu sou assim mesmo. Não consigo contar as coisas direto e reto como são. As vezes me enveredo por outro caminho, parece que vou sair do assunto mas não é de propósito não. Eu juro! É meu jeito que é assim. Vou contando, vou contando, saindo do assunto pra depois voltar no principal que no fim é a mesma coisa. Se o senhor me apressar e começar a me apertar vou fazer boca de siri e não conto mais nada.

           Mesmo quando ele trouxe a Mariona pra casa e pôs ela pra dormir no quanto que fez do lado do nosso, eu não reclamei. Falar a verdade até gostei, assim podia ficar tranqüila quando ele saia de casa e eu ficava sem saber se ia voltar ou não. No lugar onde a gente mora tem de ter um homem por perto senão os maloqueiros vem atazanar a vida da gente e estragar o sossego. De noite quando nós deitava ele saia de fininho, eu fingia que estava dormindo e ia para a cama dela. Não foi nem uma nem duas eu escutando a bagunça dos dois, os aiai da semvergonha e os suspiros de alívio do safado depois do ato. E era batata! Quinze minutos depois ele vinha todo mansinho, pisando na ponta dos pés pra não me acordar e se acamava comigo. As vezes, só de safadeza eu fingia que acordava só pra ver a cara dele. Um dia tinha ido na privada fazer as necessidades, noutro tinha escutado barulho no galinheiro e tinha ido ver as criação.

            Não briguei. Não reclamei. Não falei nada. Agüentei calada o repuxo. O senhor não sabe, doutor, o quanto dói dentro da gente ver nosso homem com outra . Inda mais perto da gente. Tinha até acostumado com a dor quando ele mandou a Mariona passear e arrumou outra mais novinha. Puxa vida! Não tava bom daquele jeito? Eu não tinha aceitado a sacanagem? Então pra que arrumar sarna pra se coçar? Só podia ser pra me humilhar de novo, não tinha outra explicação. O senhor tem?

             Até que era bonitinha. Novinha de tudo. Magrinha. Falar a verdade não sei como agüentava a baralhada. O homem era um cavalo! Se o senhor soubesse o que eu agüentei no começo de tudo ia morrer de pena de mim, mas a meninota agüentou e parece que gostava, pelos gritos e gemidos toda santa noite.Mais tarde quando descobri que além dele outros participavam do jantar entendi que o treco dela era taradice mesmo. Não sei se foram quatro ou cinco que entraram de sócio, só sei que quando ele descobriu a mutreta e os chifres começaram a doer deu uma bela duma sova nela e meteu o pé na bunda. Não sei se fiquei com dó ou gostei. Falar a verdade acho que gostei.

             Foi nessa época que ele trouxe a Kiki pra mim. Acho que queria me agradar. Porque motivo ia me trazer uma cachorrinha? E como era bonita a filhadamãe! Baixotinha, meia furtacor, umas manchinha preta no lombo e carinhosa como o cão. Vivia me rodeando balançando o rabinho e lambendo minha mão. Isso quando não deitava no chão com a barriguinha pra cima só esperando carinho e eu me afeiçoei. Já contei que não posso embuxar, não contei? Um problemas nas trompas, parece que elas tem um nó e por isso não consigo enxertar. Problema de nascença. Só que ele sabia disso quando me roubou. Minha mãe tinha contado um monte de vezes pra ele.Acho que foi mais por isso, porque não posso ter nenhum filho que me derretia pela cadelinha.

             Mas como eu estava dizendo. . . Não falei que tenho a mania de desguiar do assunto e enveredar por outro? Me desculpe, é que sou assim mesmo e não tem jeito de mudar. Com a cachorrinha mudou tudo. Minha vida ficou mais alegre, parei de implicar com as vizinhas por qualquer coisinha atôa. Antes eu tinha motivo pra discutir com ele, mas como não podia descarregava na vizinhança. E ele bem percebeu minha mudança. Só se fosse cego pra não ver. Passei a rir a toa. Achar graça em qualquer coisinha boba. Achar bonito até quando chovia e alagava tudo.

             Dali uns tempos ele se ajuntou com a Charlene. Sem sair de casa, é claro! E era besta de sair? Quem ia lavar a roupa, passar, cozinhar e vez em quando dar até um dinheirinho pra cerveja? A Charlene? Essa só queria ficar no bem bom, passando ruge na cara e perfume no suvaco. Dizia que tinha feito um esticamento de pele e o sabão ia enrugar a operação.

              Eu acho que não contei ainda, mas se contei o doutor me desculpe a repetição, a Charlene não era mulher não. Era um baita dum viado. E bonito o filhadaputa. Parecia mulher de verdade. Mesmo assim não briguei com ele. Me consolei com a Kiki. Essa me entendia. Vinha comer na minha mão. Se esfregar nas minhas pernas. Choramingar que nem criança nova quando queria leite.

              Mas foi difícil. Ai, doutor, como foi difícil agüentar o repuxo. Todo mundo me olhando de rabo de olho, as comadres fofocando quando eu saia de casa fazer minhas faxinas. Desde menina quando cheguei da Paraíba minha lida sempre foi essa, limpando as coisas pras madames, deixando a casa delas um brinco. E elas sempre gostaram de mim. Não foi nem uma nem duas que pediu pra mim trabalhar de fixo, um quartinho só pra mim no fundo, uma folga na semana pra descansar, desde que não fosse no domingo, mas pergunte: eu quis? A besta aqui queria fazer vida com o marido, mesmo sendo um safado que judiava dela e vivia arrumando amigada nesse mundão de Deus.

               Ai que raiva que eu tenho de viado! Se é uma mulher que dorme com o marido da gente ainda respeita. Pode até contar para as outras que põe chifre mas pra gente nem um pio. E por remorso, eu acho, até dá uma mãozinha de vez em quando. Mas viado? Parece que faz questão de mostrar pra todo mundo que tomou o homem da gente. E se entopem de perfume que até dá enjôo, e rebolam pra lá e pra cá na rua, e faz biquinho pra falar qualquer besteira. Dá a impressão que são os bambambam do pedaço só porque tem um homem que come eles. Mesmo assim não me aporrinhei. Não ia brigar por uma coisa que nem mulher era. Isso sem contar que esses tipos devem ser um terror na cama. Também, se não se virar em dois e fazer chover, neguinho parte pra mulher rapidinho.

               Desgraça de vida a minha! Se não fosse tão estreita e não tivesse o maledeto problema nas trompas tudo ia dar certo. Ele ainda estava comigo. Os meninos da gente iam estar brincando por aí e dando felicidade pros dois. Eu agüentava o monstrengo que ele tem no meio das pernas e nosso ajuntamento ia ser pra o resto da vida. Mas, eu tenho culpa se nasci assim, doutor? Seja sincero, eu tenho alguma culpa, doutor?

                Semana passada eu percebi que as coisas estavam meio que erradas. Ele começou a andar meio ressabiado, um tiquinho assim de conversa comigo, mesmo eu puxando o assunto. A Charlene ficou me olhando meio de lado e não me provocou nem um tantinho sequer. Até a Kiki principiou a me estranhar. Ficava quietinha nos cantos da casa e quando eu ia fazer algum carinho, tipo assim coçar a barriguinha dela, levantava depressa e sumia de casa. Voltava só de noitinha. Isso quando voltava. Teve vez dela aparecer só no outro dia e mesmo assim, os olhinhos indo de um lado para o outro, como se tivesse medo.

                Aí pensei: tem coisa errada acontecendo aqui! E fiquei de tocaia, só que não vi nada. Só fui descobrir quando a Kiki sumiu de vez e encontrei o corpinho dela num terreno abandonado cheio de mato e de lixo. Deu um nó no gorgomilho. Foi aí que peguei o corpinho já cheio de bichos pra enterrar e percebi a judiaria que tinham feito. Os dois filhadaputa estavam usando ela pra fazer sacanagem. Mais ele, e o desgraçado do viado ajudando.

                 Não tava nenhum em casa nessa hora. Se tivessem, eu juro por Deus que matava os dois na hora. Ali, sem remorso nenhum. Então fiquei matutando a tarde inteira, se eles não chegam no cair da noite era capaz de varar a madrugada.

                  Dei a janta, lavei os trens e fui dormir. Minto pro senhor, dormi não. Fiquei de olho fechado só esperando. Acho que não estavam bem porque a Charlene não passou dez minutos foi para a cama dela e ele, depois de tomar uma água e fumar um cigarro, veio e se deitou comigo. Esperei o tempo passar e quando ele começou a roncar levantei bem devagarzinho pra não fazer barulho, fui na cozinha e peguei a faca de descamar peixe. Podia pegar a outra, a de cortar carne, que é bem mais afiada, mas eu queria que ele sofresse que nem a Kiki. Por isso peguei a quase sem corte nenhum.

                   Ele dormia de cueca, o negócio mole saindo pela fresta. Lembrei duma americana que tinha visto numa revista antiga duma patroa. Uma tal de Lorena, Loreta, não sabia direito o nome da gringa mas me senti a própria. Peguei o negócio dele com cuidado, pensei na minha cachorrinha e no que tinham feito com ela e Zapt! Até os vizinhos acordaram com o berreiro dele. A Charlene apareceu de camisola transparente, o negócio dela aparecendo e tomou a faca da minha mão enquanto gritava com voz de homem que eu tinha ficado louca. Aquele negócio mole e sangrando na minha mão, não pensei duas vezes, joguei pela janela para os cachorros do vizinho, que vivem morrendo de fome. E eles, que vivem comendo resto de lixo, crau na hora!

                   Quando vocês chegaram e me prenderam ele já tinha perdido mais de um litro de sangue. A cama ficou um vermelhão só.

                   Agora me diz, doutor delegado, eu tinha ou não tinha razão em fazer isso que eu fiz? Eu agüentei tudo daquele homem e ele me faz uma sacanagem dessas? Ele sabia desde o começo que eu era estreita e não conseguia agüentar homem nenhum sem dor. Só me restava a Kiki pra me dar alegria. E ele precisava estourar ela? Precisava?

                                                                                                  Nicão
Nickinho
Enviado por Nickinho em 27/07/2006
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Nickinho
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