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O Talentoso Tricky

O TALENTOSO  TRICKY

Ele segue pelo longo corredor aclimatado que o introduz no avião. Apesar da tez bastante escura nota-se que seu bronzeamento ainda tem algo de alaranjado. Pelas costas poderia ser latino, mas seus traços fisionômicos e os olhos azuis denunciam um anglo-saxão.
 Na verdade ele se chama Patrick Hingsmith, irlandês de Sligo, ex-franco-atirador do Exercito Republicano Irlandês.
Ele senta-se numa poltrona dita do “corredor”. Em seu colo estão; um livro de bolso, o USA Today (a única publicação em inglês que ele encontrou ali no aeroporto de Recife) e o Diário de Pernambuco.
Sem denotar nenhum sentimento ele fita a primeira  página do jornal brasileiro onde uma fotografia de algum local em chamas tem encima a seguinte manchete: “Misteriosa explosão mata filho de político e os três seguranças”.

Patrick permanece fitando a foto, já que não consegue ler a estória. Uma satisfação plena de doce vingança lhe banha internamente. Ele não precisa saber ler português. Foi ele o autor do acontecido!

Quase duas semanas atrás, a juíza Douglas caíra doente. Sua neta Edna, de dezenove anos fora encontrada morta num braço de rio na cidade de Ananindeua, no estado do Pará, lá no longe Brasil. Não se soube porque as autoridades logo enterraram o corpo e deram o caso encerrado como acidente.
Os amigos de Edna estavam se preparando para voltar à Inglaterra e pelo pouco que falaram com seus familiares, estavam assustados. Intimidados, seria a palavra correta.

Eles foram ao Pará como participantes de um trabalho docente para a Universidade de Cambridge. O pouco que eles disseram aos familiares sobre o acontecido foi que houve a socialização com os nativos e que até mesmo alguns namoricos. Uma tarde Edna saiu, dizendo que precisava comprar protetor solar. Só voltaram a vê-la boiando no igarapé.

Patrick, agora tratado por Tricky, era o guardião da segurança dos Douglas. Sua esposa, Eilleen, era secretária da juíza Douglas, que sentenciara Tricky a quatro anos de prisão após um fracassado atentado a Primeira Ministra Thatcher. Isto aconteceu quase vinte anos atrás. Tricky, então um jovem de 22 anos fora treinado como um guerreiro “mortal combat” e logo se descobriu seu talento para exatidão de tiro.

Tricky conhecia um brasileiro em Liverpool. Em menos de três horas estava sentado com ele no elegante salão do Philarmonica Pub. O brasileiro lhe passou nomes e endereços e alertou sobre certas particularidades deles.

Tricky fez dois dias de bronzeamento artificial e cortou rente sua basta cabeleira cor de mel. Embarcou em Heathrow com a roupa do corpo, dois cartões de crédito, passaporte e aliança de casamento. Só.

Em Recife, enquanto esperava o avião pra Belém, jogou fora o casaco e a camisa, ficando com a camiseta.

Um brasileiro, mas de nome angliquisado, Coleman Rivers esperava por Tricky a saída da alfândega do aeroporto Val-de-Cães. Ele falava um inglês razoável e deixou Tricky a par dos rumores do que realmente tinha acontecido, além de acomodar Tricky em sua casa e levá-lo aos lugares onde o grupo de britânicos costumavam ir.
Foi o tradutor nas indagações perante os policiais e aos médicos que fizeram a autópsia em Edna. Todas essas pessoas pouco fizeram para disfarçar que havia algo que deveria ser permanecido em silencio. Astutamente, Coleman comprou  o negativo das fotos da autópsia e com um pouco mais comprou o silencio de um delegado.

- Nandinho se encantou pela gringa...ela sempre sorria pra ele...
-Somente pra ele? – pergunta Coleman – ou sorria para todos como forma de cortesia?
- Não sei...O que sabemos é que ela foi forçada a entrar naquela Hilux...

Tricky emendou as pontas e fechou o círculo. O filho de um poderoso ricaço da região e líder político tinha estuprado e assassinado a bela Edna.
Coleman por iniciativa própria investigou os lugares onde Nandinho e seus seguranças freqüentavam. Descobriu que no próximo domingo, uma prima de Nandinho ia casar-se com o filho de um outro político da cidade de Abaetetuba.

Tricky precisou de ajuda de Coleman para comprar duzentos litros de detergente liquido. Um garrafão de vidro de cinco litros. Cem litros de gasolina. Um botijão pequeno de gás de cozinha. Um panelão industrial de 300 litros. Um saco contendo cem unidades de bolas de aniversário. Um saco de dormir para camping. Alguns sacos plásticos para lixo e um litro de ácido sulfúrico. Comprou numa loja de ferragens um niple de ¾ de rosca externa e ¼ de rosaca interna e um manômetro com válvula de alivio. Por último, numa loja de fogos de artifício, alguns traques.

Tricky pouco falava, porém incentivava Coleman a conversar e o corrigia quando necessário. Ficaram amigos. Tricky gostava do jeito de Coleman, de sua maneira sutil, de seus bons modos e acima de tudo por seu senso de justiça, num país onde gente como ele não era respeitado como cidadão. E Coleman sabia porque Tricky estava ali.

Na sexta-feira pela manhã, eles foram até a catedral. Tricky observou que em  caso de pânico, as pessoas só tinham as largas portas da entrada e duas regulares portas, para escaparem de dentro da igreja.
Uma das portas, a lateral,  dava para um pátio que cercava a casa do padre.
A outra porta abria para os fundos da igreja que era um beco sem saída e na outra extremidade desembocava numa rua lateral.
Era um beco como outro qualquer. Imundo e com caixas, latas, garrafas e todo tipo de lixo que não se deteriora tão rapidamente.

Naquela tarde, foram juntos comprar uma espingarda de ar comprimido e alugar um carro. Tricky testou e aprovou um Gol bolinha.

No panelão foram depositados os 100 litros de gasolina que foi aquecida a fogo brando. Quando começou a ferver e a dissipar-se, foram gradualmente despejados os duzentos litros de detergente líquido até se formar uma gelatina.

Fogo desligado e o napalm produzido.

Tricky adaptou o niple com o manômetro na boca do botijão de gás. Colocou este numa balança e lentamente abriu a válvula de alivio enquanto olhava o relógio. Fechou a válvula, anotou a diferença do peso e calculou quanto tempo levou.
Quando o napalm esfriou, o distribuiu em quatro sacos de lixo reforçados com um dentro do outro. Depois encheu com o litro de ácido sulfúrico o garrafão e em sua boca enfiou para dentro, três bexigas, ou bolas de aniversário, uma dentro da outra, deixando a boquita das três bolas para fora do gargalo. Com esparadrapo fixou essas extremidades ali. Em seguida, bem cuidadosamente, foi derramando água para dentro das bexigas que estavam no interior do garrafão e deixou que formasse uma gota do tamanho de um pulso masculino. Tapou a boca do garrafão com algodão que Coleman tinha em seu estojo de primeiro-socorro.

Ainda estava noite quando Tricky sozinho estacionou na calçada que margeava o beco e com agilidade de um felino descarregou todo seu estranho carregamento do porta-malas do Golzinho e sumiu na escuridão do beco por uns vinte minutos.
Coleman tinha lhe ensinado o caminho de volta até sua casa. Fazendo isso, Tricky livrava Coleman de qualquer ligação com o que ia acontecer.

Sábado, por volta das duas da tarde o padre Salesino recebe um telefonema de alguém se dizendo prejudicado pelo pai de Nandinho. Este afirma que vai matar Nandinho mais cedo ou mais tarde. Padre Salesino entra em contato com os familiares de Nandinho. Logo um pequeno exército parte para a igreja. Em pouco tempo traçam diversas rotas de fuga, caso aquele maluco tente alguma coisa. No fundo eles acreditam que é mais uma daquelas ameaças sem conseqüências.

Às dezenove horas, a igreja já está cheia. Além dos fotógrafos oficiais, estão os da imprensa de todo o estado do Pará. Nandinho chega com seu exercito. Um homem é posicionado na porta dos fundos, dentro da igreja. Outro fica na entrada do beco. Outros mais são posicionados de acordo com as rotas de fuga.

Nandinho se dirige para o altar, como é esperado por ser um dos padrinhos. Lá, ele começa a cumprimentar seus outros parentes, quando Coleman faz os traques estourarem perto da porta lateral.
Cinco minutos antes, Tricky pára o carro bem na entrada do beco e antes que o segurança venha expulsá-lo, ele rapidamente sai do carro e aplica um murro na traquéia do sujeito. Este cai quase morto.
Rapidamente Tricky se dirige a um canto do beco, retira de  meio aos escombros  o saco de dormir e coloca o pequeno bujão de gás com o manômetro adaptado dentro dele e antes de fechá-lo com o zíper, abre a válvula de alívio até a pressão desejada. Volta rapidamente pro carro e o leva para o outro lado da rua.

Ao ouvirem os pipocos perto da porta lateral, a única rota de fuga lógica seria pela porta dos fundos, pois atravessar toda a nave até as portas de entrada era impossível. Assim um segurança agarra Nandinho pelo braço e o arrasta  pela rota já treinada e conhecida.

Transmissões de rádio são mandadas de um lado pra outro. O segurança que está no beco não responde ao homem que está na porta dos fundos do lado de dentro.
Naquele momento ele tem de ignorar este fato, estar pronto para se juntar ao outro segurança e fazer uma espécie de escudo humano até a saída do beco onde a Toyta já está chegando.
O segurança abre a porta à aproximação dos outros dois e chama mais uma vez pelo companheiro. Neste momento ainda com a porta entreaberta ele não vê ninguém do lado de fora
-Está tudo irregular – pensa ele - quê que eu faço agora?!

Ele decide errar.

Posiciona-se a frente de Nandinho, sincronizando sua corrida  com a dupla, e abre a porta para fora da igreja. Conseguem dar quatro passos somente.

Tricky, de dentro do carro, paramentado e em posição com a espingarda de ar comprimido, dispara ao ver o trio avançando pelo beco. O pequeno projétil voa por cerca de cinqüenta metros atingindo o garrafão que ao se quebrar rompe  as bexigas com água. Chamas voam ao contato da água com o ácido sulfúrico. O saco de dormir abaixo delas explode estrondosamente. Nos quatro cantos do beco chamas de um vermelho alaranjado espalham-se do nada. Todo o beco se transforma numa fornalha do inferno. Com a explosão os três homens caem atordoados e não têm tempo de fugirem das chamas em cima de seus corpos, pois o napalm é uma gosma grudenta em fogo que foi atirada em cima deles quando da explosão.
Foi patético o que alguns seguranças tentaram fazer com o extintor da Hilux.
Em poucos minutos o cheiro de gasolina se misturou com de churrasco. Com o de um churrasco qualquer. Têm o mesmo cheiro.

Em Belém, Tricky comprou uma cueca, uma camiseta e um casaco de poliéster “made in China”.

-Você está parecendo um paquistanês – exclama Eilleen ao abraçá-lo no hall do aeroporto de Manchester.
Tricky tem dúvidas se foi o sol tropical ou o calor da explosão por ter ficado com a pele tão escura assim.

Raferty
Enviado por Raferty em 31/08/2006
Reeditado em 02/09/2006
Código do texto: T229180
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Sobre o autor
Raferty
Santos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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