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Palavras incandescentes, testemunhas de uma dor muda

Fernando foi preso político na época brava da Ditadura Militar, quando ninguém sai dos porões sem umas marcas, quando pouco, outros saiam mortos, outros loucos. Ficou quatro anos trancafiado, sofrendo torturas escabrosas, quando saiu da prisão, por volta de 1976, foi morar na Freguesia do Ó, bairro tradicional de São Paulo, Zona Norte, lugar bucólico e que preserva ainda hoje um centro histórico, com um casario colonial e, até então, local sossegado.

Costumava sentar-se em um banco do Largo da Matriz e ali ficar horas, falando com nada, murmurando consigo próprio, anotando freneticamente em folhas e cadernos a sua viagem sem volta. Entre a lucidez e o delírio ia roterizando o seu martírio e, para tanto, dizia querer apenas as palavras incandescentes, aquelas que alimentassem a fé e nutrissem a coragem.

Pra relatar a sua dor, dizia que precisaria de todo o silêncio e de todas as palavras existentes, pois sua dor era uma dor espessa, dor calada, dor muda. Afinal, com as torturas sofridas, as confissões feitas, as relações todas, haviam lhe arrancado todas as verdades. O seu humanismo não havia resistido às mutilações.

Na sua militância, não mais política, mas sim de sobrevivência, mesmo pendurado no pau-de-arara, com o corpo todo sujo de excremento que os choques elétricos provocavam, ainda encarava o torturador, numa tentativa vã de provocar piedade. Mas acontecia o contrário, ele exigia que não gritasse, mesmo quando introduziam bastões de borracha no seu reto. Eram momentos de humilhação extrema. Os músculos e os nervos saltavam, a coluna dobrava...

O Largo da Matriz e seus pombos, no fim da tarde, quase não eram notados. Fernando continuava no seu amargo relato, como quem cumpre uma sina, como quem tem pressa e hora marcada com o destino. Como não tinha legado, sua história era o que lhe restava, era preciso arrancar tudo, por fora, ou não aquentaria mais.

Escrevia que, na cadeia, sob tortura, muitos não suportaram e traíram seus companheiros, a causa. O medo e a dor foram demais. – O grito assina todos os tratados de paz, mesmo as da vergonha. Perdoarão os mortos aos que sobreviveram? Questionava já em voz alta, andando pra lá e pra cá.

Meninos que passavam da escola cochichavam: - Olha lá o maluco, Está falando sozinho. Na realidade falava com seus bichos e tentava liberá-los, num diálogo com eles e consigo próprio. – Alquebraram-me totalmente, arruinaram todo um povo, sujaram uma época, fabricaram o silêncio aterrorizador, onde a ordem era o reverso da mais completa desordem. Dizia, enquanto escrevia, rápido, para não perder a lucidez.

Descarregava a sua prosa, cheia de poesia, dor e revolta, versos soltos, nervosos e claros: - O alto custo de vida é o reverso do baixo preço das vidas. As pessoas nesse compasso vão indo com as vistas injetadas, não de ódio, mas de submissão ao veneno. Assistem à própria fome, como se fossem apenas testemunhas e não vítimas desse tempo escuro.

Para Fernando, botar todas as letras que lhe travavam a garganta para fora não lhe bastou, o seu caso não tinha antídoto. Tempos depois, dizem que em janeiro de 1977, se suicidou, deixando um escrito doloroso e palavras cruas, algumas delas aqui transcritas.

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O presente texto, com boas doses ficcionais, tem por base o diário de Fernando Jordanense, que foi parcialmente publicado em um jornal alternativo, Versus, na década de 80.
 
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 01/09/2006
Reeditado em 01/09/2006
Código do texto: T230475

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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