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Justiceiros

                  O que é certo?  O que é errado? Alguém saberia afirmar com certeza que isso é correto e aquilo não é? Roubar é errado, mas e roubar para que seus filhos não morram de fome, poderia ser considerado”pecado”?
                 Nesse mundo multicromático onde o preto e o branco se confundem, o que eu e meus amigos fazemos é assassinato ou poderia ser classificado como “serviço de utilidade pública”? Resta ver que nossa cidade prima pela lei e a ordem e qualquer cidadão ou cidadã de bem pode ir para onde quiser sem correr risco algum. Diversas vezes vi casas à meia noite com suas portas e janelas abertas, seus moradores cochilando nos sofás com a teve ligada. Um ano atrás, antes de começarmos, não duraria uma hora antes de viciados invadirem à cata de dinheiro ou bens para serem trocados por drogas no traficante mais próximo.
                 Esses são uma praga! Pouco se importam se a grana é limpa ou veio do salário que teoricamente deveria sustentar a mãe aposentada durante um mês. Dinheiro pra lá, coca pra cá e tudo bem. Sem remorsos. Sem culpas. Sem ressentimentos. E surgem do dia para a noite. Noite dessas, conversando entre nós, demarcamos o roteiro seguro de como um sujeito comum, com ambições comuns como uma casa, uma esposa e filhos lindos e amorosos se torna esse ser da pior espécie. Primeiro a curiosidade. Segundo o prazer. Porque sentem prazer em usar algo que os matará mais cedo e os torna parias da sociedade e custa caro. Hoje mais ainda. Antes de formarmos nossa “sociedade” o papelote custava 10 reais, hoje com o perigo imposto por nós, com menos de 50 não se faz nenhum negócio. Terceiro, o viciar. E finalmente a dependência completa numa total falta de escrúpulos ou sentimentos a não ser servir a “Dona Cocaína” e outros congêneres.
                 Talvez vocês pensem que estou criticando a polícia e autoridades. Estão enganados! Eles fazem seu serviço da melhor maneira possível mas esse emaranhado de leis protecionistas, esse bando de advogados inescrupulosos( uma minoria, felizmente) com suas teorias babacas sobre direitos humanos favorecendo bandidos e minando os direitos das pessoas comuns, essa diferenciação entre traficante e usuário que não existe por que cedo ou tarde todo usuário batizará a droga comprada e revenderá metade para custear seus gasto e todas as pessoas que mal informadas acham que todo bandido é fruto de segregação social do meio onde vivem, esquecendo-se dos filhinhos de papai que tem toda a educação necessária, todo o carinho, todo o conforto que o dinheiro pode trazer e mesmo assim enveredam pelo caminho mais fácil, atravancam o funcionamento de toda repressão que poderia haver e no fim de tudo sobra para nós, meros mortais.
                  Começamos eliminando os pequenos. Talvez pensem que foi cruel, e foi, mas não havia outra maneira de iniciar o processo. Toda doença deve ser tratada curando os efeitos finais e só depois atacar o núcleo. A primeira proposta foi eliminarmos os usuários, mas aí sim seria crueldade demais.
                  Antes enviamos petições às autoridades competentes sugerindo uma mudança radical na maneira de combater as drogas. Uma das, foi inverter o processo, penalizando os usuários e deixando livres os traficantes. Talvez estranhem mas existia uma lógica certeira nisso tudo: não havendo compradores extinguiria-se os vendedores. Talvez funcionasse, hoje tenho minhas dúvidas. Em todo caso valeria tentar. Já imaginaram todos os cartéis de drogas no mundo todo com seus depósitos abarrotados sem ter ninguém para comprar? Seria lindo!
                  O primeiro a matarmos foi um traficantezinho pédechinelo, um tal de Carniça. Tentei não pensar no sofrimento de seus familiares. Sua mulher, seus pais, seus filhos. Depois avançamos, sempre deixando nosso aviso com a caveira cruzada por dois ossos, imitando o símbolo da Escuderia Lê Cocq que na década de 70 se tornou conhecida como o esquadrão da morte.
                   Meu grupo somos cinco. O China, bancário; o Nirvana, advogado; o Negui, também bancário; o Hendriks com seu cabelo afro, ex-policial agora detetive particular e o que mais descobre dicas e eu, corretor de imóveis, que em função do meu trabalho quase sempre percebo suspeitos por onde vou nas corretagens. Lógico que ninguém sabe o nome real de qualquer um, nem poderia. No caso de sermos apanhados nunca confessaremos nada, pelo simples fato de quase nada sabermos dos outros. Chamam-me de Chorão, não sei se em homenagem daquele cantor de rock ou de no princípio derrubar algumas lágrimas. Acho que mais por isso.
                   Existem outros grupos que não sabemos quem são, nem procuramos descobrir. Questão de sobrevivência.
                   Talvez pensem que também somos bandidos. É um direito de vocês. Eu penso que não. Todo dinheiro que encontramos com os mortos procuramos entregar para as famílias. Nem aceitamos encomendas, eliminamos apenas quem sabemos ser traficantes ou usuários.
                   Não sei direito quem teve a idéia primeiro. Sei apenas que foi baseada num filme antigo com o Michael Douglas, onde ele e seus amigos juizes passaram a fazer o papel de justiceiros. Taí, justiceiros, é isso que somos.
                   Todos do grupo tiveram perdas em função da droga. O Hendriks foi um filho. O Negui a esposa. A filha mais velha do Nirvana está paraplégica porque ele se recusou a defender um bandido. O China nunca contou nada e eu. . . Bem, eu perdi todos e a visão esquerda.
                   Meu filho passou a usar drogas sem que eu soubesse. Depois de roubar muitos utensílios de casa e descobrirmos,e conseqüentemente bloquearmos, o sujeito para quem devia , invadiu minha casa, assassinou friamente minha esposa e meu filho na frente dos meus olhos, estuprou minha filha de apenas treze anos antes de retalhá-la à navalha e arrancou meu olho esquerdo com uma faca. Apenas deixou-me vivo para que pudesse apanhar dinheiro no caixa eletrônico e entregasse a ele. Depois deu-me um tiro no peito que, feliz ou infelizmente, não foi fatal.
                   Denunciei-o. Foi apanhado e dois meses depois estava livre por falta de provas. Minha palavra não teve valor algum, por um desses casuísmos forenses a defesa provou que ele estava a quilômetros de distância quando tudo aconteceu.
                   O Hendriks descobriu o mocó onde um bando de traficantes vende a torto e a direito. Fica numa vila recém formada no lado oeste da cidade e é para lá que estamos indo. No portamalas do carro duas escopetas, uma submetralhadora e alguns revólveres descansam antes do trabalho.
                   Desconfio que a polícia faz vistas grossas para nosso trabalho. Nunca houve uma investigação séria a esse respeito, apesar dos comentaristas das tevês ficarem o tempo todo martelando as mentes das pessoas para que as autoridades tomem providências. Os delegados e os promotores vão às emissoras e afirmam que estão trabalhando e brevemente seremos apanhados, porém fontes seguras que temos nas DPs sempre nos tranqüilizam.
                   Nem poderia ser diferente! O índice de assaltos e crimes diminuiu noventa por cento e a população consegue viver um pouco mais tranqüila com seus “anjos da guarda” como alguns nos chamam.
                   Um dia pararemos. Quando todos os bandidos se forem , pararemos e viveremos nossas vidas em paz. Se é que isso é possível.
                    Mesmo fazendo um serviço de utilidade pública, às vezes choro pelos mortos e por suas vidas desperdiçadas. Mas hoje será diferente!
                     Quando o Hendriks trouxe a lista de alvos, vi um nome conhecido. O sujeito que fez minha vida virar de pontacabeça é um deles. Pela primeira vez sentirei prazer em ver alguém morrer.
                      Chegamos. Desligo o motor e saímos os cinco sorrateiramente pelo mato até a casa, a sub tremendo na minha mão.
                      A casa é mais adiante. Está acesa, vozes falando alto, felizes.
                      Mais uns passos e a hora da matança chegará.Mal posso conter a excitação.
                      Aleluia!
Nickinho
Enviado por Nickinho em 07/10/2006
Código do texto: T258882
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Sobre o autor
Nickinho
Ibitinga - São Paulo - Brasil, 63 anos
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