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Um dia como qualquer outro...!?

Introdução.
Pessoas que convivem conosco, nos cumnprimentam, sorriem, cumprem suas obrigações sociais, profissionais, familiares... Parecem-nos tão comuns, tão previsíveis... Mas, o que se esconde por detrás de um semblante aparentemente sereno? É possível devassar os pensamentos e sentimentos recônditos que povoam a mente humana?
Como atos insanos podem afetar uma criança que frequenta  a escola? O que destravaria nela comportamentos anti-sociais?


   Simone, saindo apressadamente de sua sala, é barrada pela inspetora de alunos que, de cara fechada, mal humorada, arrasta um aluno. Este resiste bravamente tentando dificultar a ação da inspetora. È uma cena típica de emprego da força física e institucional,  bastante comum, infelizmente,  em algumas escolas.
   - Provavelmente mais um problema disciplinar – murmura para si mesma a orientadora.
   Costumeiramente a Sra. Agenora trazia alunos para a sala de orientação educacional, quando algum professor não conseguia resolver problemas disciplinares ou quando o aluno apresentava algum problema de saúde ou pessoal
   Num pensamento relâmpago lembrou que precisaria, com urgência, retomar aquela  conversa  com Dona Agenora,  sobre seus modos pouco amigáveis de tratar os alunos.      Talvez precisasse usar de mais rigor, exigindo da Direção providências mais enérgicas para tornar a escola um ambiente onde houvesse respeito – a começar dos funcionários. Isso requeria um curso acelerado de relações humanas – extensivo a outros funcionários que também mostravam alguma hostilidade no trato com alunos... E pensar que eram esses mesmo alunos, nem sempre bem tratados, que garantiam os empregos de tais funcionários. Mas, nesse momento, urgia resolver a situação do aluno, sem diminuir a autoridade da funcionária.Voltando-se para o aluno, disse:
  - Você aqui outra vez, Thiago? Espero que não seja nenhuma ocorrência grave de disciplina. Você sabe... Na terceira vez precisaremos chamar a sua mãe. Você conhece as normas da escola. O que houve desta vez?
Pouco à vontade, esforçando-se para conter o choro, olhando raivosamente para a inspetora, manteve silêncio. Percebendo o clima pesado a orientadora pediu:
- Pode deixá-lo comigo, Dona Agenora.
Escrevendo rapidamente um bilhete, entregou-o à funcionária.
- Leve este recado à Professora Justina, por favor.  Quando  terminar a  conversa com o Thiago eu mesma o devolvo à sala. Obrigada. Mais tarde precisamos conversar sobre isso. Por favor, procure-me após o recreio.
Voltando-se para o garoto, colocou a mão nos seus ombros e falou amigavelmente:
- Venha Thiago. Vamos para a minha sala. Sente-se. Fique à vontade. Quer um pouco de chá? Eu ia pegar para mim agora mesmo.
Trazendo duas xícaras de chá, oferece  uma ao aluno.
- Bem, agora que estamos mais tranqüilos, vamos aos fatos. Diga-me, o que houve desta vez?
Torcendo as mãos entre as pernas e olhando para baixo o jovem responde:
- Fiquei nervoso. A professora me humilhou, quando eu disse que não fiz a tarefa por que não deu tempo. Ela tirou “sarro” e disse que “para jogar bola eu sempre tenho tempo. Que ontem mesmo ela me viu na quadra pública da avenida, com meus amigos”. Fiquei com raiva e disse para ela ir ‘prá p... que p...”. Sabe como é. Saiu sem querer. Quando percebi, já tinha falado. E, é claro, ela ficou furiosa. Até meus colegas se assustaram comigo.
A orientadora lembrou-se de outras ocasiões em que Thiago havia desrespeitado professores, entrado em atrito com colegas, criado problemas no recreio. Inúmeras vezes, em anos anteriores e neste ano, ele fora apontado como causador de vários problemas. Pudera! Sua vida familiar era bastante conturbada. Os pais não se entendiam. O  pai era muito violento, provavelmente em virtude do stress causado pela profissão – policial. Neste ano a situação estava mais calma. O casal  havia se separado e o jovem estava morando apenas com a mãe. Parece que o pai não se conformava com a idéia da separação, mas as confusões haviam diminuído e o Thiago estava apresentando um comportamento mais sereno, embora com algumas recaídas.  Após divagar alguns instantes sobre os fatos que envolviam esse caso, a orientadora voltou-se novamente para o jovem.
- Thiago, Thiago... Porque você não contou até dez, como eu lhe pedi, antes de abrir a boca? Você sabe que não agiu bem. Precisa usar mais a cabeça, não ser tão impulsivo.
- Eu sei disso, orientadora. Mas nem deu tempo. Quando pensei, já havia falado.
Dando um soco incontrolável no ar,  com o punho cerrado, prosseguiu
- Isso tudo está errado! Como é que ela pode me desrespeitar na frente dos meus amigos e eu não posso devolver a ofensa? Professor não assina ocorrência? Por que eu vou ter que assinar?
Conciliadoramente a orientadora tenta apaziguar o ânimo do aluno.
- Calma, Thiago. Professor também tem normas a cumprir e quando erra existem formas de puní-lo. Quando isso acontece, o prejuízo dele é muito maior. Mas, deixa pra lá. Agora me conte. Por que você não fez as tarefas, de novo?
- Bem, orientadora. Eu deixei para fazer à noite, como sempre. Os garotos haviam me chamado para o treino da tarde. Sabe? Nós vamos competir com a turma da Vila das Acácias.  Depois do treino, quando  cheguei, a casa estava fechada. Minha mãe devia ter saído e não voltara ainda. Não consegui entrar, pois não tinha levado a chave. Não sabia o que fazer e fiquei esperando mamãe voltar, na varanda dos fundos. Sem perceber, acabei dormindo enrolado numa toalha que tirei do varal.  De manhã meu pai chegou do plantão. Trazia a chave.  Abriu a casa para eu pegar o material e me mandou para a escola.
- E sua mãe, viajou?
Silêncio...
Preocupada  com o relato do aluno a orientadora aproximou-se atenta.
- Vamos, Thiago. Aconteceu alguma coisa grave? Ela viajou? Vamos, fale!
Com a voz quase inaudível e encolhendo-se como quem não quer ser ouvido ele falou:
- Ela fugiu. Meu pai disse que ela roubou o dinheiro dele e fugiu com um cara.
- Que dinheiro?
- Os dólares que meu pai vinha juntando para reformar a casa dele. Ele queria voltar com a mamãe logo que terminasse a reforma. Ontem mesmo, ele fez o piso do local que será a  garagem. Disse-me que terminou altas horas da noite.
Ficou pensativo por alguns instantes. Uma nuvem passou pelos seus olhos. Inseguro, continuou:
- Depois da aula eu vou pegar minhas coisas e vou  morar com ele, já que a minha mãe me abandonou.
Baixou os olhos para esconder a tristeza. Parecia tão desprotegido... A orientadora abraçou-o suavemente.
  - Você queria que os dois voltassem a morar  juntos, não é? Esse era o seu maior desejo, se bem me lembro.
- Nem sei mais se quero. Eles brigavam tanto! Mamãe dizia que nunca mais queria viver com ele. Papai é muito violento. Sabe como é. Policial lida muito com bandido, com traficante e acaba ficando muito nervoso. Mamãe fala que sou assim por que “puxei” o gênio dele. Que para eu melhorar, não posso viver perto dele. Mas, o meu sonho mesmo, é ver os dois juntos,   na paz!
    - Bem, agora o seu sonho parece mais distante, com essa história que você me contou. O que você acha?
   - Sei que agora esse sonho acabou. Mamãe deve ter-se cansado das brigas e deu o fora. Mesmo separados eles brigavam muito. Meu pai sempre procurava convencer mamãe a voltar para ele, “na porrada”. Ela sempre saía machucada nas discussões. Eu odiava assistir as brigas deles. Só não entendo por que mamãe não me levou com ela, me largando sozinho com papai.
    - E o namorado dela?
    - Ela não tinha namorado! E não acredito que ela seja uma ladra, pois sempre me obrigou a ser honesto.
Voltando-se para a orientadora e encarando-a com expressão indagadora falou:
    - A senhora sabe disso, não é? Posso ser muito bagunceiro, mas nunca menti nem roubei, pois mamãe não admitia isso. Não sei o que aconteceu realmente e isso me deixa ainda mais nervoso.
Sentindo-se impotente diante de um drama tão grande estendendo-se sobre um ser tão pequeno, a orientadora falou consigo mesma:
    - Pobre Thiago! Tão criança e enfrentando a vida de maneira tão crua...
     Aproximando-se dele, envolveu-o com um abraço carinhoso, falou:
    - Vem cá, meu filho. Dá-me um abraço. Sabia que você é muito valente? Fosse fraco,  você estaria chorando,  “matando” aula, mas não! Você está aqui firme, cumprindo seu horário.
    Afastando-se do jovem, olhando-o ternamente, percebeu o ar de fraqueza e desalinho. Caminhando ao lado dele, falou conciliadoramente:
- Fique tranqüilo. Vou falar com os professores e com a turma para serem mais compreensivos com você. É claro que não vou escancarar para eles os seus problemas, mas, deixe comigo. Eles vão tratar você como você merece. Eu garanto! Mas, em contrapartida, você vai me prometer conversar educadamente com os colegas, brincar no recreio, fazer a aula de Educação Física e as atividades todas do dia. Isso vai lhe ajudar a ficar mais calmo e esquecer os problemas de casa, pelo menos por enquanto. Vamos para a sua sala! Ainda hoje vou preparar um bilhete para o seu pai. Gostaria muito de falar com ele sobre essas dificuldades que você está enfrentando. Por favor, insista para ele me procurar o quanto antes.
  Após um trabalho realizado com a turma para promover maior aceitação do Thiago e seus problemas, entre tantos outros, a orientadora  voltou aos afazeres rotineiros: reunião de pais, atendimento a problemas trazidos pelos professores, desentendimentos entre alunos, exigências de  relatórios e documentos para encaminhamento de alunos, reuniões com órgãos superiores, discussão e planejamento de atividades da escola.
    Passados alguns dia, a orientadora, estranhando a ausência do pai do Thiago foi procurá-lo na sala. Soube então  que o aluno não estava mais comparecendo. Sobressaltada, procurou a secretária.
  - O pai do Thiago? Esteve aqui sim. Veio no turno contrário. Você não estava. Mas ele não veio falar com você. Veio para solicitar transferência do menino para outro bairro, para o  segundo semestre. Mas, não se preocupe. Eu lhe aviso quando ele vier buscar os documentos.
   No final das férias de inverno, antes do reinício das aulas, a Diretora foi à sala da orientadora, informando-a que o jovem tinha sido levado para outra cidade, onde passaria a morar com a avó.
  - Que bom, desafogou a orientadora. A avó tem boas condições para encaminhar o Thiago. Foi a melhor saída. Pena que não me despedi dele...
Percebendo o ar assustado da Diretora, voltou-se curiosa:
  - E o pai? Continua a morar na mesma casa?
  - Fugiu!
   Surpresa, a orientadora insiste:
   - Como assim, fugiu? O que aconteceu realmente?
Em tom confidencial a Diretora prosseguiu, informando o que sabia:
   - Alguns vizinhos, estranhando que o pai do Thiago resolvera fazer o piso da garagem à noite e sem ajuda de ninguém, desconfiaram. Juntando esse fato ao desaparecimento da mãe do Thiago, denunciaram-no à polícia. Parece até que alguém viu o marido entrando de carro na casa dela onde ocorreram gritos e discussões do casal. E a noite... aquele trabalho inusitado do marido causou estranheza aos vizinhos. Chamaram a polícia. Após desmancharem o piso  encontraram o cadáver da mulher, com sinais de violência.
  Voltando-se para a orientadora, assumiu um tom de indignação e prosseguiu:
   - Imagine você, que justamente nessa hora o Thiago vinha chegando. Sem que ninguém percebesse, aproximou-se do grupo e viu, com os próprios olhos, a mãe sendo desenterrada! Pense no choque do pobrezinho...
   A orientadora, estarrecida com a narração, não conseguiu esboçar nenhuma palavra. Com os ombros caídos e os braços soltos ao lado do corpo, desabou pesadamente sobre uma cadeira. A  Diretora  continuou:
    - O garoto foi encontrado perambulando pelas ruas, falando sozinho. Os vizinhos o recolheram e avisaram os parentes, no Estado de São Paulo. Agora ele está morando com a avó materna. Nem vieram buscar a transferência. Parece que ele está sendo acompanhado por um psiquiatra. Falei com uma vizinha para ela trazer notícias.
Com a voz trêmula e ansiosa a orientadora balbuciou:
   - E o pai? Foi preso?
    Fazendo um movimento com os ombros a Diretora respondeu:
   - O que você acha? Ele é policial...
   Voltando aos seus afazeres ainda olhou para trás e disse:
   -Quer um conselho? Volte ao trabalho e esqueça tudo isso. Somos apenas uma gota no oceano. A vida lá fora continua com seus dissabores. Nós não conseguimos resolver nem os problemas  desta escola... Quando tivermos notícias do menino, eu mesma lhe aviso e lhe dou o endereço.
   A orientadora saiu pensativa. Impossível aceitar naturalmente os fatos. Era preciso agir. Sua mente inquieta arquitetando: Como movimentar a juventude para fazer um gigantesco levante contra a violência e a impunidade? Organizar passeatas, debates, pesquisas, alertas à comunidade, utilização da mídia, cobrança aos políticos, palestras, exposições, teatro  – preservando, na medida do possível,  a escola, o ex- aluno... Reflexão com os professores e funcionários para desenvolver maior sensibilidade no trato com os alunos...
   Indignar-se mais!  Combater a banalização da violência. Isso sim era um grande desafio!  – pensou a orientadora enquanto caminhava pelo pátio vazio.


Serelepe
Enviado por Serelepe em 23/10/2006
Reeditado em 03/02/2007
Código do texto: T271127

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