Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Arauto do Portal do Inferno.

                   A sala é iluminada, muito bem iluminada, mas para quem fica ali, do lado de fora, sem saber o que se passa dentro da principal sala, ela parecia muito, muito sombria. Até por que, duas horas já se passaram e ninguém veio dar nenhum tipo de notícia. A notícia que Christiano mais anseia. O bem estar de sua amada Janaína, e a boa saúde de seu filho Ayrton que está nascendo. Na ante sala onde se encontra, não há como saber o que está havendo lá dentro da sala de parto. Para ele, um agente especial do governo, capaz de entrar e sair do pentágono e recuperar planos roubados de forma fácil, esperar a felicidade ou a tristeza que virá, junto com a notícia, dos lábios de uma doce enfermeira ou de um competente médico, é algo intranqüilizador demais.
                   As horas, os minutos e os segundos levam uma eternidade para passar. Seus pensamentos estão lá dentro, com sua amada Janaína e seu não menos amado filho Ayrton. Janaína não sabe que ele está ali fora. Ela não sabe que seus amigos no hospital o avisaram de sua entrada em trabalho de parto. Talvez se soubesse, ela teria a certeza de que tanto ela quanto seu filho, são pessoas importantes, talvez, as pessoas mais importantes da vida de Chris. Com as voltas que o mundo dá, seu afastamento foi inevitável, o que nunca quis dizer que Chris deixou de amá-la ou a seu filho. Talvez se tivesse escutado mais seu coração as coisas teriam sido diferentes. Ou até mesmo se não tivesse ocorrido nenhum tipo de intromissão externa...
                    O relógio marca dezesseis e trinta. Quatro e meia da tarde. Ele já está ali há uma hora e meia e, nada. Nenhuma notícia. Seu coração se aperta. Enfrentar um exército de soldados atirando as suas costas enquanto fugia de uma mansão na Colômbia, trazendo consigo um traficante altamente perigoso e procurado foi muito mais fácil do que esta espera.
                    Quatro e cinqüenta. Dez para as cinco. Pela primeira vez em duas horas ele ouve vozes vindo do corredor que leva a sala de parto. São duas enfermeiras comentando sobre um lindo bebê que acaba de nascer.  Ao ouvir tal comentário ele se levanta. As duas enfermeiras saem pelas portas de acesso ao corredor e ele as aborda.
- Enfermeira?
- Sim? Pois não?
- O parto que estava sendo feito lá dentro. Correu tudo bem?
- O senhor quem é?
- O pai do garoto.
- Ah, o senhor deve ser o senhor Christiano. Sua esposa falou muito no senhor durante o parto. Parabéns, seu filho Ayrton nasceu com cinqüenta centímetros e três quilos e trezentos gramas. Saudável e bonito. E como disse sua esposa, muito parecido com o senhor.
- Obrigado, enfermeira. Posso vê-los?
- Sim, claro. Me acompanhe, por favor.
Chris segue a enfermeira, já em direção ao quarto para o qual Janaína seria levada após o parto.
Chegando a porta do quarto, a médica responsável pelo parto encontra-se um tanto quanto nervosa, dando algumas ordens e nem nota a chegada das duas pessoas, Chris e a enfermeira.
- O que houve doutora?
- A paciente desmaiou, Olga.
- Desmaiou? O que houve com ela doutora?
- Quem é o senhor?
- Este é o senhor Christiano, doutora.
- Ah, sim. Bem senhor Christiano, o parto foi bastante tranqüilo, sua esposa teve uma boa passagem o que permitiu que seu filho nascesse bem. Ela sofreu, por assim dizer, apenas duas horas. Porém, quando estava sendo deslocada para o quarto ela desmaiou e eu mandei que fossem feitos alguns exames para ver o que houve.
                Neste momento, um enfermeiro se aproxima da médica.
- Doutora estou com o resultado dos primeiros exames.
- Um minuto senhor Christiano.
                       A médica se afasta por um momento. Chris tenta aguçar seus ouvidos, mas eles falam muito baixo. A única coisa que ele ouve é a palavra sangue. O enfermeiro sai apressado e a médica retorna.
- O que houve doutora?
- Bem, os exames mostraram um pequeno problema. Nada grave, mas precisa ser cuidado.
- Eu ouvi vocês falarem em sangue...
- Sim, ela vai precisar de uma transfusão. Mas não se preocupe, está tudo bem.
- Como está tudo bem? Se ela vai precisar de uma transfusão, então nada está bem. Eu quero vê-la.
- Está bem senhor, mas acalme-se.
- A senhora ainda não me viu nervoso, doutora.
                       Beatriz, este é o nome da médica, caminha até a UTI seguida de perto por Chris. Lá chegando...
- Janaína. Visita para você.
- Hum? Quem? Chris...
Os olhos de Janaína enchem-se de lágrimas.
- Amor, nosso filho é lindo. É a tua cara. Teu sorriso, teus olhos. Até a boca.
- Eu sei meu amor. Calma, evite falar para não se cansar demais.
- Durante todo o parto eu só pensei em você. Cada vez que eu lembrava que era ao seu filho que eu estava dando a luz, eu tinha mais força para suportar as dores do parto.
- Eu sei. Eu estava lá fora. Pensando e rezando por você. E, graças a Deus, deu tudo certo.
- Sim.
- Bem, eu não gostaria de interromper vocês, mas você precisa descansar Janaína. E há outros procedimentos a serem feitos, ainda.
- Sim, doutora.
              Beatriz e Chris se afastam do leito de Janaína.
- Senhor Chris, eu gostaria de pedir que o senhor...
- Nem de longe.
- Como?
- Nem de longe eu vou sair daqui.
- O senhor não pode ficar aqui na UTI.
- E quem vai me tirar daqui?
- Terei que chamar a segurança.
- À vontade.
                      A doutora segue até um enfermeiro e fala algo. Ele imediatamente segue até uma mesa e telefona para algum setor. Por dedução o setor da segurança do hospital. Não demora cinco minutos e dois truculentos seguranças chegam a UTI, o enfermeiro faz um sinal para os dois apontando a doutora e Chris.
- Bem senhor Christiano, agora o senhor vai sair.
- Acho que não.
           Os dois seguranças vêm na direção de Chris.
- O senhor queira nos acompanhar, por favor.
- Não.
- Senhor, assim teremos que usar a força.
- É com vocês.
               Os dois seguranças aproximam-se de Chris e o seguram, cada um num braço, e começam a conduzi-lo em direção a saída do setor. O enfermeiro que chamou a segurança se aproxima da doutora e faz um comentário após os três saírem do setor.
- São todos assim, doutora. Fortes e durões, mas quando a segurança entra em ação viram cordeirinhos.
- Acho que não foi bem assim, Jackson. Olhe.
                 Ao virar-se para trás, Jackson vê Chris entrar calmamente na enfermaria.
- Doutora, tem dois novos pacientes para a senhora lá fora. Um com o braço quebrado em dois pontos e o outro, se tiver dado sorte, não ficará paraplégico.
- O que você fez?
- Eu disse que não sairia daqui, e não vou sair.
- Jackson acione a equipe da emergência para ver os seguranças, eu mesma vou ligar para a polícia.
- Doutora, será mais fácil a senhora me deixar ficar aqui. Poupará trabalho.
- Meu senhor...
- Doutora, eu amo esta mulher e nada vai me separar dela agora. Nem a segurança do hospital muito menos a polícia. Eu sei que a senhora pode abrir uma exceção.
- Está bem senhor Chris. Eu vou permitir que o senhor fique aqui, mas só por que não quero novos problemas dentro deste hospital.
- Obrigado. A senhora tomou a decisão certa.
- Espero que sim.
                    Tendo conseguido seu objetivo, que era o de ficar o mais perto possível de sua amada Janaína, Chris senta-se numa cadeira a fim de descansar um pouco.
                    Transcorrida uma hora do início dos procedimentos médicos que a doutora Beatriz ordenara, Janaína é removida para um quarto particular já com sua situação estabilizada. Chris, como não poderia deixar de ser, permanece o tempo todo ao lado da jovem.
                    Por volta das dez da noite, a doutora entra no quarto a fim de verificar como está o quadro clínico de Janaína. Chris, vencido pelo cansaço, ressona sentado próximo à cabeceira da cama. Beatriz, após ter certeza que está tudo bem com sua paciente, põe a mão no ombro de Chris a fim de acorda-lo. Qual não é sua surpresa ao ter sua mão segura pelo jovem agente.
- O que quer doutora? – diz Chris já soltando sua mão.
- Ca, calma. Eu só queria saber se o senhor estava bem.
- Como ela está?
- Está bem. Bem mesmo! Senhor Christiano, o senhor está aqui desde as duas e cinqüenta da tarde, pelo que eu fiquei sabendo. Vá para casa descansar.Ou pelo menos se alimente um pouco.
- Onde eu posso beber algo?
- No fim do corredor a direita existe uma cantina.
- Obrigado.
                   Chris então levanta-se e segue na direção indicada pela médica, enquanto a mesma segue para outro quarto.
                    Embora tenha aceitado o conselho da doutora e estar realmente com muita fome, Chris não consegue ficar tranqüilo. Algo o está incomodando. E é por conta disso, desta intuição, que ele resolve voltar rápido para o quarto de Janaína.
                    Chegando próximo a porta, ele observa que a mesma está aberta, e ele a deixou fechada. De repente, um grito. Já com sua arma na mão ele invade o quarto ainda a tempo de ver sua amada Janaína sendo degolada por um homem. Sua primeira reação tinha que ser a de atirar no degolador, mas a fração de segundo em que ele pensou, foi suficiente para que outro homem, que estava atrás da porta, batesse em sua mão fazendo-o soltar a arma. Mesmo assim, já recuperado do baque, ele investe na direção do segundo em total fúria. O degolador parte para cima dele também, tornando a luta desigual numericamente.
                    Talvez por sua incrível capacidade, que o tornou o melhor agente do governo, ou pelo frenesi que tomou conta de seu corpo e principalmente de sua alma, a luta que deveria ser desigual é totalmente dominada por ele. Chris acerta um potente chute na cabeça do degolador, o que o leva ao solo bastante atordoado, dando-lhe tempo para cuidar do outro. Seu, agora, único oponente, tenta acertar-lhe um chute lateral mas é surpreendido por uma rasteira que o leva ao solo sem defesas. Sem dar tempo para ele, Chris levanta-se e pisa em seu pescoço. Exortado pelo ódio, o jovem agente pressiona seu pé contra o pescoço do outro com toda sua força, até tirar-lhe a vida. Um já foi, falta o degolador.
                     Já recobrado da pancada na cabeça, o assassino de Janaína resolve sair pela janela. Sem pestanejar, Chris pula atrás dele. Começa então uma correria louca pelo estacionamento do hospital. O assassino na frente, Chris logo atrás e bem lá atrás, bastante atrasados, os seguranças do hospital.
                     Após encurtar a distancia o suficiente para um ataque, Chris acerta o pé do indivíduo fazendo com que o mesmo caia. Após a queda, o homem rola e se volta para Chris, que não para e já acerta um chute no abdome do degolador que se postara de frente e de cócoras a fim de se levantar de frente para Christiano. Em vão. Com o chute ele cai para trás e fica totalmente a mercê do agente, que já pula em cima dele. Desvencilhando potentes socos no rosto de seu oponente, Chris vai descarregando toda a sua raiva e nem percebe a chegada da segurança do hospital e da polícia.
                     O ódio de Chris é tanto que ele nem ouve um dos policiais dar voz de prisão aos dois. Indiferente a tudo, ele segura a cabeça do assassino já a fim de quebrar seu pescoço.
- Quem te mandou aqui?
- Se eu disser, ele me mata.
- Se não disser quem mata sou eu.
- Solta ele e levanta as mãos. – Ordena o policial
- Me solta. Você não vai conseguir nada de mim.
- Desgraçado.
                        Chris, tomado pelo ódio acaba por quebrar o pescoço do homem. No mesmo instante, ele ouve o policial engatilhar sua arma. Felizmente, para sorte de Chris, dois agentes chegam ao local e já vão ordenando que o policial abaixe sua arma e se afaste.
                        Um dos agentes, Álex, o melhor amigo de Chris aproxima-se do amigo ainda a tempo de ver que este pegou o celular, a carteira e uma chave de carro que estava em poder do morto. Sem esboçar nenhuma reação, Álex continua agindo de forma natural, pedindo que Chris se afaste do corpo para começar seu trabalho. No decorrer das horas, mais agentes chegam a fim de apoiar Chris, limpar o local e abafar o caso.
                        No dia seguinte, no enterro de Janaína a comoção é geral, afinal ela também fazia parte de um segmento do governo e era muito querida por todos. Chris se mantém calado durante todo o cortejo fúnebre. A seu lado seu pai e Alex, também não dizem nada.
                        Ao final do enterro, Alex quebra o silêncio e pergunta a Chris o que ele vai fazer.
- Vou atrás dos culpados.
- E seu filho?
- Meu pai cuidará bem dele. A esta hora, Ayrton já deve estar fora do país, certo pai?
- Sim filho.
- Já tem alguma pista?
- Sim, tenho.
- O que você irá fazer quando encontrar os responsáveis?
- Morte se vinga com morte. O Arauto do Portal do Inferno está de volta.
                Alex acaba por se arrepiar com a última frase de Chris, pois ele sabe o que isso significa. Tempos negros estão vindo por aí. No que depender de Chris, o único trabalho que ele, Álex, terá, será recolher os corpos que ficarão em seu rastro.
                Ao fundo, o sol se põe de forma mortiça.
Léo Rodrigues
Enviado por Léo Rodrigues em 21/11/2006
Reeditado em 23/11/2006
Código do texto: T297669
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para o site "www.leorodrigues.recantodasletras.com.br" e entre em contato comigo pelo e-mail contido no mesmo site.). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Livros à venda

Sobre o autor
Léo Rodrigues
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
149 textos (37629 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 15:58)
Léo Rodrigues

Site do Escritor