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Queima de Arquivo.

               Praia. Por do sol. Um mar azul celeste. Seria o cenário perfeito para um romance. Seria, por que para Beatriz, a palavra romance, está há muito tempo esquecida. Desde que terminou seu namoro com Daniel, um empresário do ramo de importações e exportações, mais conhecido pelas suspeitas de envolvimento com o tráfico de drogas do que por qualquer outra coisa, a jovem morena, de vinte e cinco anos, um metro e oitenta de altura e cativantes olhos verdes, não se envolve, ou, não se deixa envolver, como diz sua amiga Alessandra, com nenhum rapaz que por ventura se aproxime. Sua amiga costuma dizer ainda que, de que adianta ter um metro e oitenta de beleza e gostosura se ela não permite sequer, que alguém a paquere? De que adianta ter viajado, sabe-se lá quantas horas de avião e mais algumas de carro para chegar a este lugar paradisíaco, se ela não irá abaixar sua guarda e retrair suas defesas para os “filés” que passam e param a fim de paquera-la? E Alessandra por sua vez, não agüenta mais dispensar os rapazes que a paqueram em consideração a sua amiga. “Não seria legal ela ficar segurando vela” como disse a um moreno tatuado que a convidou a conhecer seu bangalô. Ele não entendeu o significado do termo segurar vela e levou um tapa ao mencionar que topava este “jeito interessante de se fazer sexo com as brasileiras”.

                              - Você viu Beatriz? Ele achou que eu propus um sexo a três.
                              - É isso que dá ficar dando confiança a todo homem que aparece, principalmente americano, que acha que toda brasileira é piranha.
                              - Ah, e você acha que eu, depois de tantas horas de viagem, iria chegar aqui e ficar igual a você? Ignorando todo gato que aparece?
                              - Lá vem você de novo.
                              - É isso mesmo Bia, depois que largou o Daniel você não quis mais saber de ninguém. Aí resolve viajar, pra que? Pra ficar sozinha? Ah, isto é que não.
                              - Eu não quero saber de problemas.
                              - E você acha agora que todo homem que se aproximar de você será um problema?
                              - Alê, eu já estou cansada de tomar sol, vamos para o hotel?
                              - Sempre desconversando, hein? Mas não tem nada não, hoje você vai comigo a boate do hotel nem que seja amarrada.
                              - Se eu for você para de me atazanar com esta história?
                              - Eu estou falando para o seu próprio bem. Eu estou realmente preocupada com você. Sozinha, sem um gatinho para te abraçar, te beijar, - E, colocando uma das mãos no bumbum de Bia, Alê continua, agora gemendo – te apertar, hum.
                              - Assanhada. – Diz Bia empurrando sua amiga Alê, enquanto esta cai numa gargalhada estrepitosa.
                              - Vamos lá, amiga, por mim. Está bem? – Diz Alê com cara de menina travessa e pidona.
                              - Está bem. Eu vou com você. Mas pára de me agarrar assim que as pessoas vão pensar que temos um caso. – Alerta Bia, fazendo sinal com a cabeça para as pessoas que observam as duas com certa estranheza no olhar.
                              - E quem disse que não temos? – Alessandra segura Bia pelos ombros, tasca-lhe um beijo na boca e sai correndo em direção ao hotel deixando para trás uma Bia atônita e vermelha diante dos olhares desaprovadores das pessoas próximas.
                    
                    À noite, depois de muita insistência, Alê consegue carregar Beatriz para a boate do hotel. O ambiente é um tanto quanto alucinante. Diversas luzes a girar e a piscar, lasers e fumaça perfumada fazem parte do espetáculo. No centro, a pista de dança fervilha e, logo acima dela, suspenso numa espécie de tablado, encontra-se o DJ, utilizando toda sua técnica a fim de não deixar ninguém parado. Mesmo com toda esta pintura de lugar, Bia sequer se anima a dançar, permanecendo sentada no bar. Alessandra, que se encontrava no meio da pista dançando com um loiro havaiano, aproxima-se da amiga.

                              - Então Bia? Não vai dançar? Veio para cá à toa?
                              - Eu concordei em vir não concordei? Agora querer que eu dance...
                              - Você não tem jeito. Vai continuar com esse bode até quando?
                              - Eu não estou com nenhum bode. Eu quis viajar para espairecer, não para arrumar um namorado.
                              - Vai me dizer que está se divertindo sentada aqui no bar e bebendo suco de frutas?
                              - Estou.

                    De repente, as duas jovens são abordadas por alguém.

                              - Mundo pequeno não, Bia?
                              - Daniel.
                              - Como vai Alê?
                              - Bem. Veio curtir férias Daniel?
                              - Não, vim a negócios. Mas fico feliz em vê-la Bia. Você está mais bonita a cada dia.
                    
                    Enquanto os três conversam, um homem os observa atentamente. Ele retira uma foto de um de seus bolsos e faz uma rápida comparação. Bingo. Está tudo andando melhor do que o esperado. Tal situação ainda o ajuda a bolar uma nova e melhor estratégia.

                              - Bom meninos, se vocês não se importam, eu vou voltar para a pista de dança. Divirtam-se.
                    
                    Tudo o que Bia não queria neste momento era ficar a sós com Daniel.

                              - Quer dançar, Bia?
                              - Não. Daniel, acabou.
                              - Eu só a convidei para dançar, mas, já que você não quer, não vou perturba-la. Espero um dia poder fazer com que você veja que tudo que dizem a meu respeito é resultado da inveja. Com licença.

                    Enquanto Daniel se vira e sai, atentamente observado, Beatriz é surpreendida pelo barman, que lhe serve uma bebida. Antes mesmo que ela pergunte o que aquilo significa, o barman aponta para uma mesa onde um rapaz acena para ela como que a convidando a sentar-se junto dele. Com uma torrente de dúvidas a invadir sua cabeça, ela simplesmente vira-se de volta para o bar, dando as costas ao rapaz.

                    Pensando que sua atitude será suficiente, ela empurra o drink que lhe foi oferecido para o lado e pede outro suco de frutas, quando uma mão leve e suave toca seu ombro. O português claro e conciso de suas palavras mostra que se trata de um brasileiro, mais precisamente um carioca.

                              - Com licença senhorita. Desculpe pelo meu atrevimento, mas, eu lhe ofereci uma bebida e a convidei a sentar-se comigo a mesa por ter notado que você estava sozinha. Achei que gostaria de ter alguém para conversar.
                              - Desculpe, mas por que eu sentaria a mesa com um rapaz que eu não conheço?
                              - Não seja por isso. Prazer, Ramos, Anderson Ramos. A senhorita?

                    Ela hesita.

                              - Vamos lá senhorita. O que a você tem a perder, hã?
                              - Está bem. Beatriz, mas todos me chamam Bia.
                              - Muito prazer Bia. – Diz Ramos beijando sua mão.
                              - Acho que vou me arrepender.
                              - Senhorita, eu aprendi uma coisa ao longo de minha vida. Arrependa-se das coisas por tê-las feito e não por não ter tido a coragem de fazer.

                    Bia pensa um instante nas palavras de Ramos, e observa como seu jeito de pensar é parecido com o de sua amiga Alê. Ela resolve então aproveitar a companhia de Anderson e ver até onde os conselhos que sua amiga lhe deu vão dar. O que Bia não sabe é que está sendo usada por Ramos. Este, tomando-a pelo braço carinhosamente, a conduz até sua mesa e a coloca sentada de costas para a mesa onde Daniel está sentado e se senta a sua frente, conseqüentemente de frente para Daniel.

                    Vendo tal cena, Daniel começa a ser tomado por um ódio tremendo, mesmo por que, embora ele não saiba de onde, acredita conhecer o rapaz que está acompanhando Bia. Se sua memória fosse realmente boa para fisionomias, ele sairia dali rápido. Ramos, por sua vez, além de ser um bom fisionomista, sabe como ninguém o quanto Daniel gosta de Beatriz, o que pode lhe ser de extrema valia.

                    Lá pelas tantas da madrugada, Alê e Bia resolvem se recolher a seus quartos no hotel. Observando os três a sua frente se levantarem, Daniel finalmente se lembra de onde conhece Ramos. Ele rapidamente telefona para alguém de seu celular, troca pouco mais de meia dúzia de palavras, se levanta e segue atrás do trio.

                    Chegando ao saguão do hotel, no momento em que os três se despedem, Daniel se aproxima de Ramos e encosta uma pistola em suas costas.

                              - Eu sabia que te conhecia.
                              - O que é isso? Do que está falando?
                              - Daniel...
                              - Quietas as duas. Você me traiu.
                              - Como e que é?
                              - Chega de conversa. Vamos a um lugar mais reservado para conversarmos. Vocês duas também e sem gracinhas.
                              - Mas Daniel...
                              - Chega!

                    Neste exato instante, dois homens entram no hotel e seguem em direção a Daniel enquanto outros dois se posicionam na porta, um pelo lado de dentro com a mão dentro do terno e o outro do lado de fora observando o furgão em que chegaram.

                    Sem dizer uma palavra sequer, Daniel apenas faz um gesto na direção das duas moças de modo que seus dois seguranças as escolte, enquanto ele mesmo se encarrega de Ramos. Os três são encapuzados, algemados e colocados dentro do furgão, ao mesmo tempo em que os homens de Daniel também entram no mesmo a fim de seguirem destino.

                    Depois de pouco mais de vinte minutos rodando, eles finalmente chegam a seu destino: Um armazém no píer. O referido armazém, nada mais é do que o depósito de material de exportação e importação de Daniel. Armas e drogas mais precisamente. Daniel então ordena que os capuzes sejam retirados. O que Daniel não percebe é que ao retirar o capuz de Ramos e voltar a segura-lo pelas algemas, o seu “confiável” segurança simplesmente colocou a chave das mesmas nas mãos de Ramos.

                              - Daniel, o que significa isso? – Pergunta Bia, nervosa.
                              - Você me traiu.
                              - Negativo Daniel. Ela não fez nada. Você é que se traiu. Caiu direitinho na minha cilada. As provas que eu precisava para te incriminar estão todas dentro deste galpão.
                              - Que história é essa, Ramos?
                              - Conte para ela Daniel. Conte que você realmente é um traficante.
                              - Isso é verdade Daniel?
                              - É sim Beatriz. Eu sou um traficante de armas e drogas. Mas devo corrigi-lo Ramos. Este armazém está realmente cheio de provas que me incriminam, mas os mortos não podem fazer nada.
                              - Que isso Daniel?
                              - Daniel, você...você não faria isso.
                              - Desculpe Bia, mas agora vocês sabem demais. Mas não se preocupe, a morte de você duas será rápida, diferente da dele. A sua morte agente Ramos será lenta.
                              - Agente? Você é um agente, Anderson?
                              - Não será mais Bia. Joel tire-as daqui. Hora de acertas contas com este “agentezinho” medíocre. – E aponta sua arma para Anderson.

                    Num movimento rápido, Ramos, que já soltara suas mãos da algema, saca sua pistola e atira não mão de Daniel fazendo com que ele solte a sua. Joel, seu capanga não tem tempo de reagir, pois o outro segurança, o agente disfarçado Vinícius, acerta um tiro a queima roupa em seu peito. Na seqüência, Vinícius sai do escritório a fim de dominar os outros dois capangas, enquanto lá dentro Ramos se prepara para o acerto de contas.

                              - As posições se inverteram Daniel. – Diz Ramos, encostando sua arma na cabeça de Daniel e o obrigando a ajoelhar-se.
                              - Anderson o que você vai fazer?
                              - Vou cumprir minha missão, Bia. Este safado sempre foi muito liso. Ninguém nunca conseguiu provas que o incriminassem. Graças ao amor que ele sente por você, o rastro que eu precisava para pegá-lo surgiu.
                              - Você me usou.
                              - Isso mesmo Beatriz. Ele usou você e agora tem provas para me incriminar. Mas, como a justiça no Brasil é da maneira que nós já conhecemos, em breve estarei nas ruas de novo e você agente Ramos, é o primeiro nome que eu mandarei caçar.
                              - É Daniel, a justiça possui alguns furos nos quais você pode conseguir se safar, mas como você disse antes, e eu faço de suas minhas palavras, “mortos não fazem nada”.
                              - O que quer dizer?
                              - Isso!

                    Sem hesitar, Ramos pressiona sua arma contra a nuca de Daniel e puxa o gatilho. Um tiro seco. Único e suficiente para extinguir a vida do assassino do agente Sandro, seu irmão.

                              - Você, você, é louco.
                              - Assassino, covarde.
                              - Acalmem-se meninas. Eu fiz o que tinha que ser feito. Além do que ele teria matado nós três.
                              - Você não precisava fazer isso. Se você é um agente brasileiro, por que não o prendeu?
                              - Por que ele assassinou o meu irmão. Eu não vim até aqui para prende-lo eu vim para mata-lo.

                    Neste instante, o agente Vinícius retorna ao escritório.

                              - Hora de partir Ramos, eu não posso me demorar mais.
                              - Eu sei, seu disfarce não pode ser descoberto.
                              - Há mais um problema Ramos. Essas duas estão sabendo de tudo agora. Tanto sobre nós quanto sobre a organização de Daniel. Para nós não há valia, mas se eles as pegarem eu posso vir a ter sérios problemas.
                              - Elas não serão problema. Não se preocupe.
                              - É isso mesmo, nós não vamos contar nada para ninguém, eu juro.
                              - É Anderson. Não vamos contar nada. Deixa a gente ir.
                              - Vocês sabem o que é queima de arquivo meninas?

                    Do lado de fora do armazém, um casal de namorados que acabara de estacionar o carro a fim de namorar um pouco sem ninguém por perto, ouve o som de dois disparos vindos lá de dentro. Enquanto os primeiros raios de sol começam a surgir naquela manhã, o rapaz acelera fundo em direção ao posto policial mais próximo a fim de registrar o ocorrido.
Léo Rodrigues
Enviado por Léo Rodrigues em 26/11/2006
Reeditado em 15/05/2008
Código do texto: T302256
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Léo Rodrigues
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
149 textos (37629 leituras)
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Léo Rodrigues

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