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INDULTO NATALINO 2014

Cap. I ou simplesmente - Primeira História:

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."  (Jean-Paul Sartre)
 
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Na terça feira, dois dias antes de sair daquele inferno, os rumores na cadeia eram ensurdecedores. Ouvia-se, através da conversa dos ‘funça’ da ‘faculdade’, que nos chegavam misturadas aos ruídos dos ratos dos corredores, que este ano não haveria indulto natalino.

Malditos imbecis, escravos do sistema, acham que podem ficar 'nos tirando' vinte e quatro horas por dia. Na verdade, eu e os mano, estávamos 'cagando' pras previsões maldosas e mentirosas daquele bando de camundongos.

O pior é que, sinceramente... Teria sido bom. Se não tivesse havido mesmo o tal de indulto, eu teria ficado preso (e vivo) e não teria saído naquela, até então, feliz manhã de quinta feira.

Já na frente da cadeia, dei uma ultima olhada para uma dupla de gambé que estavam na sentinela e ficaram de zoação, me azarando com seus olhares de ganso. Lembrei do pôster do Darth Vader que trazia junto da mochila e pensei comigo: - Depois é aquela choradeira da viúva e dos filhos, quando eles são encontrados torrados no ‘micro-ondas’.

Caminhava sem rumo certo. Era uma sensação boa estar fora do coletivo e não estar de ‘pino’. Não sabia se ia direto pra casa ou se antes passava no buteco e tomava um trago, enquanto não aparecia nenhuma parada quente.

As minhas roupas e meu pisante estavam uma vergonha. Eram encardidos e sem cor. O cabelo mal aparado e a barba por fazer denunciavam a minha ‘origem’.

Dentro da cela, cara, a gente desaprende como se fala e se caminha aqui fora.

Parei para tomar uns tragos numa espelunca - ali perto da ponte, duas quadras antes do Bailão - por várias razões e sentimentos.

Ao fundo tocava o sucesso de Fernando e Sorocaba:
 " O problema é que eu bebo e apronto. Mas depois não lembro de nada. Tudo bem, não faz mal. A gente bota culpa na cachaça. É meu defeito, eu bebo mesmo. Beijo mesmo, pego mesmo. E no outro dia nem me lembro. É tenso demais!" . Pedi mais um copo de caipira!

É ruim encarar a vida aqui fora de fuça limpa, o natal já era na próxima semana e eu no maior esparro, sem bufufa e endividado; depois eu também sou filho de Deus e queria assar uma pecuária e dar um presentinho pro meu garoto, que em março começaria a estudar, pra tentar não seguir o mesmo caminho sinistro do pai.

Este negócio de indulto natalino é uma piada. A gente sai pelado do casarão, a família nos aguarda cheia de expectativas; só que é demorado pra levantar umas verdinhas e não dá pra entrar em qualquer parada.

Tu, ao natural, já é meio nervoso, pelas maldades que sofreu e pela riqueza e alegria que vê ostentarem os que se deram bem neste mundo do cão. De cem irmãos que saem nesta circunstância, quarenta não voltam ‘de boa’ e os outros sessenta, a metade volta de camburão ou é morto.

- O que você tá me encarando ‘olho do cu’? – Perguntei irritado ao alemão de bigode, gordo e sarnento que não tirava o olho de mim, desde quando entrei no bar.

Ele pareceu levar um susto com a minha pergunta, ficou vermelho e deu uns dois passos pra direita, mexendo em alguma coisa debaixo do balcão.

- Desculpe moço, é o meu jeito, não quis ofender. – Me disse aquela mistura de Faustão com Oberix. Abaixando-se um pouco.

Eu não tive dúvida, já havia tomado umas três canhas e meu cérebro estava a mil, como há anos eu não o sentia. Não ia morrer nas mãos deste porco imundo.

Pulei o balcão e a primeira coisa que vi foi uma garrafa térmica azul, a qual quebrei na cabeça do elefante. Vi sua cara ferver e enrugar com a água quente que saiu; depois pra equilibrar a temperatura do rosto do suíno, esfacelei seu crânio com uma garrafa de champagne de três litros, que não sei por que cargas d’água, estava descongelando em cima do balcão.

Fiquei sabendo, duas semanas depois, que o dono do bar não morreu, mas ficou aleijado pro resto da vida e que a garrafa de champanhe era pra ser aberta quando seu filho chegasse naquela manhã, para passar o natal com o pai.

Sorte dele, cara, que não estourei seus miolos com a espingarda que ele, "covardemente", tentou pegar debaixo do balcão.

A bicuda ainda ia me render muitas aventuras nas duas semanas que por bondade de Deus, consegui ficar livre e VIVO... E ver que o mundo não acabou na sexta feira, dia 21, como havia previsto o tal de Nostradamus.

Passado mais de um mês de minha morte, aqui onde, apesar do calor escaldante, ainda sobra tempo para refletir, faço os seguintes apontamentos:

1) A sociedade e o mundo místico como um todo têm uma grande dívida comigo. Não se encurrala uma criança, obrigando-a a fazer escolhas das quais dependerá toda a sua vida e a dos seus, lhe dando somente uma única e funesta alternativa.

É preferível sim, matar o SER ainda feto, do que fazê-lo crescer num ambiente desumanamente sujo e deplorável, com pai violento, ausente e alcoólatra e mãe prostituta e drogada.

2) É balela e não existe discurso honesto e, por conseguinte, sociedade organizada (é tudo falácia!) quando políticos, chefes e líderes de plantão enchem a boca para falar de escolhas, mas viram as costas e deixam um menino impúbere ainda, como um rato, a ‘escolher’ dois caminhos:

a) Um que sai na boca faminta do gato e outro, o 'b', que sai na intransponível e mortífera ratoeira.

3) Coloquem todos os humanos vivendo em circunstâncias análogas como a que eu vivi desde que nasci e depois sim - conversaremos em pé de igualdade sobre: ESCOLAS e ESCOLHAS!

Ou então;

4) retrocedam meu infeliz destino e me coloquem dentro de uma família semi-organizada ou subdesenvolvida (bem diferente da que foi a minha), depois sim... Cobrem o que quiserem de mim, seus malditos 'DOM-QUIXOTES do século XXI'!

Eu não estive preso, até ser solto - somente duas semanas antes de minha morte. EU JÁ NASCI PRESO!

Ah, já ia me esquecendo... Não tenho nome e se alguém me deu nome algum dia, eu não me lembro. No mundo dos esgotos e de masmorras em que vivi, chamavam-me de DARTH VADER!

Hoje... São Darth!
Porra bixo! Aqui, no vale das sombras não tem natal... E mesmo se tivesse:
 - Com certeza, o diabo NÃO ME DARIA INDULTO!

E escuta essa 'manos':
 - Esse negócio de - VIDALOKA - é coisa pra quem ganha salário mínimo no Brasil e permanece íntegro durante a vida toda. Nós, do lado sombrio da força, conseguimos ser no máximo: MORTELOKA.


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Cap. II ou simplesmente - Segunda história:

- NÃO ME CULPEM, SE EM CADA PAPAI-NOEL, EU ENXERGAR UM INIMIGO DISFARÇADO!

Assim acorda-se, num sobressalto, o temido presidiário, Alonso Quixano, sem saber se seus colegas de cela haviam escutado o seu grito... Um grito mais de desespero do que de valentia.
 
Final de Novembro. Um calor insuportável torna o cárcere mais asfixiante do que normalmente é. Junte-se a isso a sujeira e o cheiro podre de excrementos e vômitos, misturado ao suor de detentos tuberculosos e aidéticos - em fase terminal, e se terá uma vaga ideia do submundo que ora habito. Moro de favor, e só não pago aluguel aos camundongos, porque ingenuamente, eles têm medo dos maltrapilhos humanoides.

A cela, que foi projetada para doze presos, abriga não menos que trinta. Nas paredes, há riscos incompreensíveis aos analfabetos e cegos calouros. As paredes funcionam como um quadro negro onde alguém deixou registrada sua dor, com a caneta de suas unhas e com a tinta de seu sangue. Mais ao lado, à esquerda, perto da latrina, em meio ao caos, sobressai-se uma foto antiga da atriz Angelina Jolie, que está linda com seus beiços sensuais, a sorrir indiferente ao nosso sofrimento. Cachorra!

Na maior parte do tempo, meu corpo está no piloto automático, olhando feio para os colegas de masmorra e dizendo sim senhor aos agentes... E então, eu vago pelos jardins e dias de suave garoa, com arco-íris e belas garotas seminuas a beira do lago... Paisagens e fatos que em algum lugar do passado registrei e guardei bem no fim do labirinto de minhas lembranças. Armazenado a sete chaves e protegido por minotauros assustadores, que gritam e bufam, pedindo que eu os deixe em paz.

As relações sociais aqui de dentro são como numa passagem do livro Spartacus, onde o escritor diz, mais ou menos o seguinte: “... os débeis morriam rapidamente; os fortes se tornavam cada vez mais fortes”. Aqui é assim. O líder tem que ser forte. Ele é forte. Forte até chegar outro mais forte. Aqui não há lugar para embuste e engodo. Todos os dias, quem está no topo, tem que permanecer alerta e ‘bem bandido’ para com os chacais que ambicionam ser leão. Aqui imagem não é nada, fome e sede, são tudo!

Todos nós somos inocentes aqui, cara! Inocentes, não quanto ao enquadramento injusto, mas legal que o sistema nos tatuou... Inocentes, por acreditar ingenuamente que aquele resquício de bondade que resta ainda em nós, aquela fagulha de luz, um dia sobressair-se-á de todo o lado cruel, escuro e mal que infesta o nosso olhar e coração. Pura ilusão. Para nós, ainda não foi inventado vacina.

Eu não estou aqui de graça! O mundo nunca jogou dados comigo. Eu sou o cara que serve Deus e o diabo, enquanto eles jogam xadrez.

Eu amava minha mulher. Talvez ainda a ame. Vai entender o coração dum símio. Um dia eu descobri que ela estava dormindo com seu colega de trabalho... Um dia ela parou de dizer que me amava. Deixei ela dormir. No meio da noite ela se acordou comigo em cima, espetando-lhe a pele que protegia seu coração, com uma adaga. Queria fazê-la sentir mais dor do que eu estava sentindo. Impossível. Para isso, ela teria que não morrer uma vez apenas, mas todos os dias e noites, como eu morri e morro desde aquele dia.

Não a matei, mas ela ficou 'seqüelada' pro resto da vida. Arrependido? Olha cara, a resposta para essa pergunta dá um livro. É impossível responder numa carta. A cada momento de ausência e a cada lembrança de meus filhos que tenho que superar... Um túmulo é erigido no cemitério de meu coração.

O meu advogado é um mercenário. Como todos os demais, só pensa no meu dinheiro. Eu não era bandido até entrar aqui. Tornei-me o pior deles. Uma questão de sobrevivência. Eu sou o líder! Daqui a quinze dias, se tiver sorte, saio no indulto natalino. Não sorte em sair. Sorte em permanecer vivo até lá. A coisa tá feia aqui dentro, bicho! Já matamos cinco nesse último mês e as hienas não param, tentando derrubar-me da árvore.

Lá fora não vai ser diferente. E olha que quando eu entrei aqui era apenas um réu primário. Passado seis anos nesse calabouço, já possuo quatro homicídios na ficha... Fora a dezena de carniças que ajudei a despachar. A tal da liberdade nunca foi algo tão abstrato para mim. Aqui dentro ou lá fora, é vital continuar atento, dormir com um olho apenas e principalmente continuar a ser – o mais temido dos bandidos. Porque de Zé Manés e Zé Roelas, o inferno já está cheio...
- NÃO ME CULPEM, SE EM CADA PAPAI-NOEL, EU ENXERGAR UM INIMIGO DISFARÇADO!

Alonso Quixano se acorda de mais um pesadelo... E reflete:

- Eu também não culparei o policial que me descobrindo... Souber me neutralizar num 'xeque-mate'. Afinal, cada um com seus 'brinquedinhos'!
EVERALDO PAVÃO
Enviado por EVERALDO PAVÃO em 30/11/2013
Reeditado em 09/12/2013
Código do texto: T4592749
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Sobre o autor
EVERALDO PAVÃO
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 43 anos
56 textos (2071 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/04/14 22:47)