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INDULTO NATALINO 2014

- NÃO ME CULPEM, SE EM CADA PAPAI-NOEL, EU ENXERGAR UM INIMIGO DISFARÇADO!

Assim acorda-se, num sobressalto, o temido presidiário, Alonso Quixano, sem saber se seus colegas de cela haviam escutado o seu grito... Um grito mais de desespero do que de valentia.
 
Final de Novembro. Um calor insuportável torna o cárcere mais asfixiante do que normalmente é. Junte-se a isso a sujeira e o cheiro podre de excrementos e vômitos, misturado ao suor de detentos tuberculosos e aidéticos - em fase terminal, e se terá uma vaga ideia do submundo que ora habito. Moro de favor, e só não pago aluguel aos camundongos, porque ingenuamente, eles têm medo dos maltrapilhos humanoides.

A cela, que foi projetada para doze presos, abriga não menos que trinta. Nas paredes, há riscos incompreensíveis aos analfabetos e cegos calouros. As paredes funcionam como um quadro negro onde alguém deixou registrada sua dor, com a caneta de suas unhas e com a tinta de seu sangue. Mais ao lado, à esquerda, perto da latrina, em meio ao caos, sobressai-se uma foto antiga da atriz Angelina Jolie, que está linda com seus beiços sensuais, a sorrir indiferente ao nosso sofrimento. Cachorra!

Na maior parte do tempo, meu corpo está no piloto automático, olhando feio para os colegas de masmorra e dizendo sim senhor aos agentes... E então, eu vago pelos jardins e dias de suave garoa, com arco-íris e belas garotas seminuas a beira do lago... Paisagens e fatos que em algum lugar do passado registrei e guardei bem no fim do labirinto de minhas lembranças. Armazenado a sete chaves e protegido por minotauros assustadores, que gritam e bufam, pedindo que eu os deixe em paz.

As relações sociais aqui de dentro são como numa passagem do livro Spartacus, onde o escritor diz, mais ou menos o seguinte: “... os débeis morriam rapidamente; os fortes se tornavam cada vez mais fortes”. Aqui é assim. O líder tem que ser forte. Ele é forte. Forte até chegar outro mais forte. Aqui não há lugar para embuste e engodo. Todos os dias, quem está no topo, tem que permanecer alerta e ‘bem bandido’ para com os chacais que ambicionam ser leão. Aqui imagem não é nada, fome e sede, são tudo!

Todos nós somos inocentes aqui, cara! Inocentes, não quanto ao enquadramento injusto, mas legal que o sistema nos tatuou... Inocentes, por acreditar ingenuamente que aquele resquício de bondade que resta ainda em nós, aquela fagulha de luz, um dia sobressair-se-á de todo o lado cruel, escuro e mal que infesta o nosso olhar e coração. Pura ilusão. Para nós, ainda não foi inventado vacina.

Eu não estou aqui de graça! O mundo nunca jogou dados comigo. Eu sou o cara que serve Deus e o diabo, enquanto eles jogam xadrez.

Eu amava minha mulher. Talvez ainda a ame. Vai entender o coração dum símio. Um dia eu descobri que ela estava dormindo com seu colega de trabalho... Um dia ela parou de dizer que me amava. Deixei ela dormir. No meio da noite ela se acordou comigo em cima, espetando-lhe a pele que protegia seu coração, com uma adaga. Queria fazê-la sentir mais dor do que eu estava sentindo. Impossível. Para isso, ela teria que não morrer uma vez apenas, mas todos os dias e noites, como eu morri e morro desde aquele dia.

Não a matei, mas ela ficou 'seqüelada' pro resto da vida. Arrependido? Olha cara, a resposta para essa pergunta dá um livro. É impossível responder numa carta. A cada momento de ausência e a cada lembrança de meus filhos que tenho que superar... Um túmulo é erigido no cemitério de meu coração.

O meu advogado é um mercenário. Como todos os demais, só pensa no meu dinheiro. Eu não era bandido até entrar aqui. Tornei-me o pior deles. Uma questão de sobrevivência. Eu sou o líder! Daqui a quinze dias, se tiver sorte, saio no indulto natalino. Não sorte em sair. Sorte em permanecer vivo até lá. A coisa tá feia aqui dentro, bicho! Já matamos cinco nesse último mês e as hienas não param, tentando derrubar-me da árvore.

Lá fora não vai ser diferente. E olha que quando eu entrei aqui era apenas um réu primário. Passado seis anos nesse calabouço, já possuo quatro homicídios na ficha... Fora a dezena de carniças que ajudei a despachar.

A tal da liberdade nunca foi algo tão abstrato para mim. Aqui dentro ou lá fora, é vital continuar atento, dormir com um olho apenas e principalmente continuar a ser – o mais temido dos bandidos. Porque de Zé Manés e Zé Roelas, o inferno já está cheio...

- NÃO ME CULPEM, SE EM CADA PAPAI-NOEL, EU ENXERGAR UM INIMIGO DISFARÇADO!

Alonso Quixano se acorda de mais um pesadelo... E reflete:

- Eu também não culparei o policial que me descobrindo... Souber me neutralizar num 'xeque-mate'. Afinal, cada um com seus 'brinquedinhos'!
EVERALDO PAVÃO
Enviado por EVERALDO PAVÃO em 30/11/2013
Reeditado em 09/05/2014
Código do texto: T4592749
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
EVERALDO PAVÃO
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 43 anos
113 textos (5732 leituras)
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